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Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.
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Há memórias que não envelhecem, apenas se recolhem em silêncio, como incenso que ainda perfuma o ar muito depois da missa terminar. Quando penso na minha infância na Igreja Santa Maria Madalena, sinto que não herdei apenas um nome, mas um chamado. Carrego no peito a padroeira que batiza minha história e me ensina, até hoje, sobre entrega e redenção.
A Quarta-Feira de Cinzas amanhecia cinza por dentro e por fora. Depois da euforia quase pagã do carnaval raiz na cidade de Teixeira, da La Ursa correndo pelas ruas, do mela-mela com maizena, dos perfumes misturados no ar, vinha o silêncio. Um silêncio denso, respeitoso, como se a cidade inteira prendesse a respiração.
Era o primeiro dia da Quaresma. A folia tinha acabado. O riso alto dava lugar à introspecção. Na testa, a cruz escura traçada pelas mãos do padre ardia mais na alma do que na pele. “Lembra-te que és pó…” e naquele pó havia promessa. Quarenta dias de penitência. Quarenta dias de retorno.
Ninguém comia carne a partir da quarta-feira. As mesas se vestiam de simplicidade: sardinha, curimatã, ovos, frutas. Não se ouvia música alta. As festas silenciavam. Havia uma reverência quase palpável no ar, como se cada gesto cotidiano precisasse pedir licença ao sagrado.
Hoje, adulta, compreendo que aquela disciplina não era apenas regra, era rito de passagem. Era aprender que a alegria tem tempo, mas o recolhimento também. Que o excesso pede pausa. Que o espírito precisa de jejum para florescer.
Sinto saudade daquele temor respeitoso, daquela fé coletiva que organizava até os sons da cidade. Saudade de um tempo em que Deus não era conceito, era presença.
E toda vez que a Quarta-Feira de Cinzas chega, algo em mim volta a ser menina, de testa marcada, coração contrito e alma aberta para recomeçar.
E assim, entre o pó da testa e o pó das ruas, compreendi que a vida é feita de ciclos sagrados: há tempo de dançar e há tempo de se recolher. A Quarta-Feira de Cinzas nunca foi apenas o fim da folia, foi o portal da Quaresma, esse deserto necessário onde a alma aprende a ouvir o que o barulho do mundo não deixa.
A Quaresma me ensinou que a renúncia não é perda, é lapidação. Que o silêncio não é vazio, é encontro. Que os quarenta dias não são castigo, mas travessia. É nesse caminho de contenção e consciência que o espírito amadurece, que o coração se alinha ao propósito maior e que a fé deixa de ser costume para se tornar escolha.
Porque toda vez que a cruz toca minha testa, não é apenas um sinal, é um chamado à transformação. E no cinza da penitência descubro, ano após ano, a cor mais viva da minha evolução espiritual.
Sigamos em busca do sagrado. Foi para isso que aqui viemos.
Atenção: Os artigos publicados no ParaibaOnline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo ao exercício da pluralidade de opiniões.
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