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Jornalista, professor universitário, escritor e membro da Academia de Letras de Campina Grande.
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Feliz Ano Novo para todo mundo. Vou começar 2026 falando sobre o padre Cícero. Não o Cícero Romão Batista, tantas vezes presente nos meus textos, nas minhas crônicas e na minha literatura. Dessa vez, um Cícero de sobrenome comum. Um legítimo Silva. Padre Cícero da Silva.
Tenho recebido, através das redes sociais, vários vídeos e fotos onde esse religioso aparece, de batina, no altar da igreja ou no alpendre das casas de Várzea Alegre, tocando viola e improvisando versos. Eu fiquei surpreso e, obviamente, fiquei feliz que Várzea Alegre, depois da saída (tão sentida e lamentada pelos fiéis) de seu último padre, (o Pe. Jardel) tenha recebido, de presente, esse que, além de padre é poeta, violeiro, repentista e de quebra ainda celebra missa. Olha que presente de Deus! Logo em Várzea Alegre desembarca, de viola e batina, esse padre desenrolado.
E novas informações sobre o padre foram surgindo e eu fui sendo tomado por espantos de alegria. Soube ainda que, o tal padre Cícero não veio de qualquer lugar: é filho da terra do Rei do Baião, Exu, sertão de Pernambuco. Ora, ora…, meus amigos, perdoem confessar, mas se eu fosse um homem religioso, diria que uma coisa dessas só pode ser milagre divino. E as coincidências não param por aí. Embora estivesse no município de Santana do Cariri, o Cícero tem raízes familiares na terra de Papai Raimundo. Seu avô paterno era varzealegrense do distrito de Calabaça.
O padre é, digamos, recém-consagrado. Só tem um ano e meio de sua ordenação. Faz parte dessa turma nova de religiosos (padres, pastores, bispos) que nós chamamos de “nativos digitais”, que usam a internet ao seu favor e também exploram seus dons para além da fé. Que romperam, de certa forma, com aquele padrão padre romano do século XV: sério, inalcançável, sisudo. Nas redes sociais tem muitos padres assim. Alguns, inclusive, fazem de tudo, menos celebrar missa.
Tenho um amigo padre desses modernos. E em junho do ano passado nos encontramos, por acaso, no São João de Campina Grande, nos camarotes do Parque do Povo. Fiquei conversando com ele e de repente foram brotando outros padres na festa. Todos conhecidos entre si. Dois, três, quatro … e quando dei por mim, estava rodeado de padres boys na maior festa profana de São João desse planeta – O São João de Campina Grande. Tudo arrochadinho, cabelo bem cortado, barba feita e felizes da vida, dançando e pulando no show da cantora paraibana Elba Ramalho. Era padre de Pernambuco, do Rio Grande do Norte, de Minas Gerais, até do Ceará tinha um. E logo de Iguatu. Pensei: bom, pelo menos no plano espiritual eu devo estar seguro.
Mas, voltando ao padre Cícero. Ele é violeiro ou o violeiro que é padre? Quem veio primeiro? A quem pertence esse violeiro ou esse padre? Eu apostaria que chegou primeiro a viola, depois o interesse pela religião. E aí, uma coisa necessariamente não exclui a outra. E Cícero usou o que já sabia para dizer a Deus: Senhor, eu estou aqui e posso te servir.
E Deus, que também já deve ter se modernizado, disse com toda a sua bondade e sabedoria: Vai Cícero, leva tua viola e faz a festa lá pras bandas de Várzea Alegre. Vai consolar aquele povo órfão de Padre Jardel. Finge que tu é Gonzaga e vai prosear com Zé Clementino no bar de Toinha Boa Água. E o obediente Cícero veio: saiu de Exu, descansou em Juazeiro, Crato, conheceu a Chapada do Araripe, celebrou missas na terra da menina Benigna e chegou a Várzea Alegre. Desembarcou com a viola numa mão e a batina na outra.
Hoje, Cicero circula pelas comunidades rurais e pela sede do município de Várzea alegre. Fazendo missas e improvisando versos. Dividido entre a liberdade do poeta e as amarras dos dogmas e rituais da igreja católica. Mas Cícero não quer nem saber, quer mesmo é cantar e rezar, porque dizem que cantando e rezando a gente espanta os pecados e manda embora as tristezas da vida. E Cícero tem uma longa vida pela frente. É muito jovem. acabou de completar 30 anos. Ainda tem muito chão para celebrar e poetizar. Ou seria profetizar? Enfim, acho que nem mesmo Cícero saberá.
Atenção: Os artigos publicados no ParaibaOnline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo ao exercício da pluralidade de opiniões.
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