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Benedito Antonio Luciano

Benedito Antonio Luciano

Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

O mito do cangaço justiceiro

Por Benedito Antonio Luciano
Publicado em 17 de junho de 2026 às 8:10

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Na edição do jornal “A União”, publicada em João Pessoa (PB), em de 9 de maio de 2026, o professor Vanderley de Brito, presidente do Instituto Histórico de Campina Grande, apresentou aos seus leitores o artigo intitulado “O bando de Lampião”.

Li com atenção o texto de autoria do preclaro confrade. Concordo, sem restrições, com o que ele escreveu no primeiro parágrafo: “Honestamente, incomodo-me ao ver nordestinos endossarem o estereótipo criado para caracterizar o povo nordestino como cangaceiros”.

Também considero pertinente o teor do segundo parágrafo: “Seguramente, os crimes praticados pelos delinquentes de Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, foram os mais brutais na história do cangaço”. Entre as atrocidades cometidas por esses facínoras podem ser mencionadas: torturas, assassinatos, castrações e estupros individuais e coletivos contra mulheres indefesas.

A esse respeito, Geraldo Amâncio, poeta repentista, pesquisador e escritor cearense, produziu um livro que merece destaque: “Lampião: rei do cangaço”, publicado pela Editora IMEPH, em 2015.

Conforme o poeta, para compor o livro, ele empreendeu um rigoroso trabalho investigativo, envolvendo viagens e ampla revisão bibliográfica, com destaque para o livro “Serrote Preto – Lampião e seus sequazes”, de autoria de Rodrigues de Carvalho, além de recorrer a depoimentos orais, entre eles o de Sila, esposa do cangaceiro Zé Sereno, sobrevivente do massacre da Grota de Angico, em 1938.

Sila, acolhida durante quinze dias na residência do poeta Geraldo Amâncio, foi categórica ao afirmar que toda essa narrativa, segundo a qual Lampião roubava dos ricos para dar aos pobres, não passa de um mito. E acrescentou: Lampião nunca deu nada a ninguém.

De fato, existem bons livros sobre o cangaço, entre os quais se destacam: “Quem Foi Lampião” e “Guerreiros do Sol”, ambos de Frederico Pernambucano de Mello; “Lampião e a sociologia do cangaço”, de Rodrigues de Carvalho; “Lampião: seu tempo e seu reinado”, de Frederico Bezerra Maciel; “Lampião, o rei dos cangaceiros”, de Billy Jaynes Chandler; e “Assim morreu Lampião”, de Antônio Amaury Corrêa de Araújo.

Há, porém, outras obras afetadas por reducionismos ideológicos, que apresentam os cangaceiros como justiceiros sociais no contexto da luta de classes, reforçam representações folclóricas e estereotipadas do cangaço nas artes visuais e, até mesmo, servem de suporte a abordagens pedagógicas subliminares em algumas escolas infantis.

O cangaço foi, sem dúvida, um fenômeno social complexo, inserido nas adversidades do sertão nordestino e nas fragilidades do poder público de seu tempo. Todavia, reconhecer essa complexidade não autoriza transformar criminosos em heróis populares, nem legitima a propagação do mito de um Lampião generoso e justiceiro.

Desse modo, a história, quando examinada com rigor, exige prudência diante de narrativas ideologizadas, bem com um compromisso permanente com a veracidade dos fatos e com a escolha de fontes fidedignas.

Leia a coluna anterior:

Sodoma e Gomorra: entre a Bíblia e as evidências arqueológicas

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