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Dom Delson

Dom Delson

Arcebispo Metropolitano da Paraíba.

O imperativo evangélico da convivência fraterna

Por Dom Delson
Publicado em 21 de março de 2026 às 15:30

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A Quaresma, coração pulsante do calendário cristão, não se reduz a gestos isolados de penitência, mas se abre como um chamado amplo e profundo à conversão que se faz também em comunhão.

Em tempos feridos por divisões, polarizações e fechamentos, o Evangelho reacende, com firme doçura, o convite a caminhar juntos, não como tarefa leve, mas como necessidade vital.

É um apelo a que, como comunidade, deixemos de lado os caminhos solitários para tecer, com gestos concretos, um mundo onde a graça de Deus possa se tornar visível.

Um mundo onde a convivência não seja marcada pela disputa, mas pela harmonia; não pela indiferença, mas pela misericórdia que reconcilia, sustenta e refaz os vínculos humanos. O Evangelho nos pede uma necessária convivência como irmãos.

Nesse itinerário, a Quaresma se revela também como um tempo de escuta: escuta de Deus, que fala no silêncio, e escuta do outro, tantas vezes esquecido à margem dos nossos interesses.

Converter-se, aqui, não é apenas mudar de direção, mas reaprender a ver, reconhecer no rosto do próximo um apelo, uma presença, um mistério que nos convoca à caridade concreta.

E, enquanto avançamos, mesmo entre quedas e recomeços, cresce em nós uma esperança discreta, porém firme: a de que nenhum gesto de amor se perde.

Cada passo dado em direção ao outro, cada renúncia silenciosa, cada ato de misericórdia vai, pouco a pouco, redesenhando o mundo segundo o coração de Deus, preparando, já agora, os sinais da Ressurreição que desponta no horizonte.

Nesse horizonte pascal, a espiritualidade quaresmal orienta os fiéis a manterem o olhar fixo na Páscoa, fonte de sentido para todo esforço de conversão.

Ao longo desse caminho, cada cristão é chamado a tornar-se sinal concreto de misericórdia no mundo, testemunhando, por meio de atitudes, a esperança que brota da fé. Outro aspecto essencial deste tempo é o desapego.

Em uma sociedade frequentemente orientada pelo acúmulo e pela lógica do consumo, a Quaresma propõe uma revisão sincera de vida. A ânsia pelo “ter sempre mais” revela-se como uma das grandes distorções da experiência humana.

Quando o indivíduo se afasta de Deus, tende a colocar a própria vontade no centro de tudo, abrindo espaço para atitudes que ignoram o bem do outro e favorecem relações de dominação.

Nesse sentido, a reflexão proposta pelo Papa Francisco mostra-se particularmente atual. Segundo ele, ao se abandonar a lei de Deus — que é a lei do amor — prevalece a lógica do mais forte sobre o mais fraco.

O pecado, presente no coração humano, manifesta-se em formas como a avidez, a ambição desmedida e a indiferença, conduzindo não apenas à exploração das pessoas, mas também à degradação do meio ambiente.

Trata-se de uma dinâmica destrutiva que, inevitavelmente, acaba por atingir o próprio ser humano.

Ao longo da Quaresma, o discípulo de Jesus é chamado a redescobrir sua identidade cristã.

Esse processo passa pelo arrependimento sincero e por um autêntico pedido de perdão a Deus, promovendo uma renovação profunda da vida interior. Mais do que práticas externas, trata-se de uma transformação que alcança o coração e orienta novas escolhas.

A tradição espiritual da Igreja recorda que esse caminho não se sustenta sem práticas concretas. A oração, o jejum e a caridade constituem pilares indispensáveis da vivência quaresmal, pois reordenam o coração humano e o abrem à ação de Deus.

Como ensinava Santo Agostinho: “Queres que a tua oração suba a Deus? Dá-lhe duas asas: o jejum e a esmola”.

Essas práticas não são mero ritual, mas expressão viva de uma fé que se encarna no cotidiano.

Além disso, a Quaresma convida à redescoberta do silêncio e da interioridade, ainda mais urgentes em um tempo marcado pela dispersão e pelos hiperestímulos das redes sociais, que capturam a atenção, fragmentam o pensamento e dificultam o encontro consigo mesmo.

Entre notificações constantes, imagens rápidas e opiniões instantâneas, o coração humano corre o risco de se tornar superficial e inquieto. É no recolhimento, porém, que o homem reencontra a verdade sobre si mesmo e sobre Deus.

Esse retorno ao interior favorece uma fé mais autêntica, capaz de iluminar as relações humanas e de promover uma cultura de reconciliação, tão necessária no mundo contemporâneo.

Por fim, a tradição cristã confia esse caminho de conversão à intercessão de Maria, venerada como Mãe de Misericórdia. Embora não tenha necessitado de redenção, ela ofereceu ao mundo a própria Misericórdia.

A ela, os fiéis confiam a vivência da penitência quaresmal, pedindo auxílio para acolher com alegria o perdão de Deus e perseverar no caminho de renovação espiritual.

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