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Madalena Barros

Madalena Barros

Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.

O dia em que Ofélia decidiu não morrer

Por Madalena Barros
Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 9:30

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Ao longo dos quase 33 anos em que trabalho na Natura, fui testemunha de histórias que nunca me abandonaram. Muitas vezes eu me perguntava, em silêncio: o que ainda move essas mulheres a continuar vivendo?

Conheci mulheres fisicamente lindas, mas com a autoestima no solado do pé. Conheci mulheres belas que não tinham mais dentes porque o marido dizia que “arrancar era mais barato”. Vi mulheres que se calavam diante de uma porta fechada, porque o marido levava as chaves da casa. Conheci mulheres que nem sorriam na frente do marido. Conheci mulheres que se viam através dos olhos de outros e se achavam horríveis, mesmo sendo lindas. Conheci mulheres que para beber uma taça de espumante no dia do casamento do filho pedia autorização ao marido. Nossa… foram muitas histórias. Muitas mulheres presas a uma dependência que não era apenas financeira, mas emocional, quase hereditária. Mulheres que aprenderam desde cedo que existir exigia permissão. O mais duro era saber que eu não tinha uma fórmula de libertação para oferecer. Talvez porque eu mesma nunca tenha precisado dela.

O discurso que ouviam era cruelmente previsível: “sem eu você não é nada”, “sozinha vai morrer de fome”, “não sabe fazer nada direito”. Palavras que, repetidas ao longo dos anos, deixavam de soar como agressão e passavam a ocupar o lugar de verdade absoluta. O conformismo então assumia o trono, sentava-se soberano enquanto elas obedeciam, concordavam, encolhiam, murchavam… até o dia em que algo se deslocava por dentro. O dia em que percebiam que podiam, sim, se sustentar. Que eram capazes. Que ninguém tinha o direito de decidir seus passos, seus silêncios ou seus limites.

Talvez por isso a música Sina de Ofélia tenha me atravessado de forma tão profunda. Porque ela não fala de ficção. Ou melhor: fala de uma ficção que se repete na vida real há séculos. A Ofélia de Shakespeare, em Hamlet, não enlouquece por fraqueza. Ela enlouquece porque foi ensinada a calar. Porque sua voz foi constantemente mediada por homens, o pai, o irmão, o amado, o reino. Sua morte nas águas não é apenas um afogamento físico; é o símbolo extremo de uma identidade dissolvida por não ter tido espaço para existir.

A sina de Ofélia não é morrer por amor. É desaparecer antes disso. É perder-se de si mesma enquanto tenta ser tudo o que esperam dela. E é exatamente esse destino que tantas mulheres ainda vivem, mesmo fora dos palcos elisabetanos. Mulheres que sentem demais, acreditam demais, se entregam demais,  não por ingenuidade, mas porque nunca lhes ensinaram que amor não exige anulação.

A música não acusa a sensibilidade. Pelo contrário: ela a honra. O alerta está no excesso sem consciência. Quando a entrega acontece sem limites, quando o afeto ocupa o lugar da identidade, o risco não é amar demais: é deixar de existir. Quantas mulheres confundiram sacrifício com virtude? Silêncio com maturidade? Espera com esperança? Ofélia, em Hamlet, canta flores enquanto afunda. A canção grita exatamente desse lugar. Um grito que não pede pena. Pede despertar.

O conflito exposto não é fragilidade emocional. É o choque brutal entre sentir e se abandonar. Shakespeare já mostrava isso séculos atrás: Ofélia não teve espaço para escolher, apenas para obedecer. A mensagem que ecoa hoje não convida à dureza, mas ao amadurecimento. Sentir é potência. Mas sentir sem consciência aprisiona. A verdadeira força está em sustentar emoções sem abrir mão da própria identidade, dos próprios sonhos, da própria autonomia.

Esse alerta atravessa a vida real de forma direta e urgente. Quantas mulheres ainda permanecem em relações, padrões e histórias que as diminuem porque nunca lhes disseram que amor não exige submissão? Quantas não tiveram acesso ao conhecimento que liberta, que amplia horizontes e transforma sobrevivência em escolha? A música nos lembra que profundidade não precisa ser sinônimo de sofrimento contínuo. Autovalorização não é egoísmo. É sobrevivência emocional.

No encontro entre arte, tecnologia e emoção, surge um chamado claro: é tempo de consciência. Desenvolver autonomia emocional, financeira e intelectual é um ato de amor-próprio. Aprender a sentir com lucidez e a evoluir com o mundo talvez seja o equilíbrio mais necessário do nosso tempo.

Essa música não fala sobre um fim trágico. Ela fala sobre um ponto de virada. Sobre o instante em que Ofélia decide não entrar no rio. Um convite para que mulheres deixem de ser personagens do sofrimento e se tornem autoras da própria narrativa. Quem desperta não se perde no excesso, não se cala diante da violência disfarçada de amor, não aceita menos do que merece.

Há ainda um símbolo poderoso nessa história: Sina de Ofélia foi criada por inteligência artificial. Enquanto o mundo avança, cria e se reinventa em velocidade exponencial, muitas mulheres ainda são educadas segundo referências antigas referências que silenciam, limitam e condicionam. A pergunta que se impõe é inevitável: estamos acompanhando a evolução do mundo ou permanecendo presas a papéis que já não nos cabem?

Se até máquinas já são capazes de compreender, traduzir e expressar sentimentos humanos com profundidade, a questão deixa de ser tecnológica e passa a ser humana. O que ainda mantém tantas mulheres presas à ignorância imposta, ao medo cultivado, à dependência ensinada?

Talvez este seja, afinal, o verdadeiro legado de Ofélia quando decide não morrer: lembrar que consciência é ruptura. E que nenhuma mulher nasceu para afundar em silêncio.

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