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Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.
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Esta semana, enquanto treinava, fui espectadora involuntária de uma conversa entre o Danilo, meu personal, e um colega. Nada de halteres, séries ou suplementos. O assunto era muito mais pesado: filhos recém-nascidos. Um perguntava ao outro se o bebê tinha dormido, quantas horas (sempre poucas), se já sorria, vacinas, se tinha feito algo “incrível”, como apertar o dedo do pai ou simplesmente sobre sobreviver à madrugada. Entre uma queixa e outra- porque criança dá trabalho, e muito – lá estavam eles, rindo com aquela cara clássica de bobo feliz. Cara de pai de primeira viagem, encantado com a própria façanha de ter mudado de status: saiu de filho para pai, assim, do dia para a noite.
Comentei com Danilo como os diálogos mudam. Falei que, não fazia tanto tempo assim, a conversa provavelmente girava em torno de namoradas, festas, baladas, porres memoráveis (ou esquecidos), praia, shows, faculdade, tudo sempre regado a boas risadas… Assuntos que rendiam horas e histórias exageradas. Agora, o auge da empolgação era uma noite com três horas seguidas de sono! Ele riu, concordou, e eu pensei: isso rende um texto fácil, fácil.
E como rende. Porque basta ouvir esses diálogos para que as reminiscências cheguem, lembrando que a vida é feita de fases muito bem demarcadas. São retalhos que vamos costurando ao longo dos anos e que contam a nossa história.
Na infância, o grande feito era aprender a ler, andar de bicicleta, fazer o dever de casa sozinha, jogar baleada, amarelinha, que a gente chamava de “academia”, onde usávamos pedaço de telha para demarcar as casas, e com isso, criando memorias afetivas lindas e fortalecendo amizades como quem constrói impérios emocionais invisíveis. Depois vinha a fase das perguntas sussurradas: “seu peito já está doendo pra crescer?”, “já tem cabelo axila, em…..?”, “já menstruou….?”. Em seguida, o assunto mais cobiçado: quem tinha dado o primeiro beijo. Geralmente só um roçar de lábios, mas suficiente para causar inveja e admiração em quem ainda aguardava a própria estreia. As bocas virgens..rs
Mais adiante, a paquera virava tema oficial. Conversas intermináveis sobre namoro, declarações, assustados na casa das amigas que tinha radiola na sala em local de destaque, um móvel de madeira brilhante que abrigava vinis com musicas que embalavam corações acelerados ou partidos. Anos depois, quando o reencontro acontecia, a pergunta mudava: “casou?” ou “continua solteiro?”. Quando os filhos nasciam, não havia escapatória: choro de fome, choro de dor, noites em claro, fraldas, pediatras, vacinas, e isso rende conversas. Depois vinha o “já está na escola?”, “que ano?”. Logo mais, “que curso escolheu?”, “qual estágio ?” ‘fazendo especialização, mestrado, doutorado…?’ E, sem perceber, a conversa já era sobre trabalho, experiências, histórias e algumas boas doses de saudade.
Até que, lá na frente, surgem os netos, os bisnetos… e, quase sem transição, os diálogos passam a girar em torno de alergias, exames, médicos, doenças, diagnósticos e o tamanho do necessèrie de remédios. A quantidade tomada por dia, um plus a mais. E o mais engraçado: vira uma espécie de competição silenciosa para ver quem está em pior estado de saúde. Cada um tentando provar, com detalhes minuciosos, que seu problema é mais sério que o do outro.
E assim os ciclos vão se fechando para abrir outros. As amizades mudam, os cenários também, mas os diálogos curiosamente permanecem os mesmos, apenas com novos personagens. Talvez seja isso que mostre nossa incrível capacidade de reinvenção. Mesmo quando o novo ciclo já não nos pertence diretamente, ele ainda nos fortalece. Como se, de alguma forma, continuássemos ali, nos perpetuando em cada conversa boa ao longo da vida.
No fim das contas, os cabelos embranquecem, caem, as olheiras aumentam, o corpo vai cansando, a memória ficando mais escassa, as prioridades se transformando. E o assunto também muda. Só uma coisa permanece intacta: a certeza absoluta de que, em qualquer fase da vida, sempre teremos algo para reclamar… e alguém disposto a ouvir, nem que seja só para contar que dormiu menos do que você.
Sigamos costurando a vida em meio aos nossos deliciosos diálogos…
Atenção: Os artigos publicados no ParaibaOnline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo ao exercício da pluralidade de opiniões.
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