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Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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Relendo O contador de mentiras, folheto de autoria de Hélio Cavenaghi, publicado em 1978 pela Editora Luzeiro, foi inevitável não me lembrar dos causos atribuídos ao personagem Pantaleão Pereira Peixoto, criado e interpretado por Chico Anysio no programa humorístico Chico City, levado ao ar semanalmente pela Rede Globo, entre 1973 e 1980.
Para ser um bom contador de mentiras, é preciso ter talento, algo que Chico Anysio tinha de sobra. No contexto criativo, a mentira apoia-se no realismo fantástico, sem qualquer julgamento moral. Nessa perspectiva, ficção e realidade se misturam de forma inverossímil, de tal modo que a narrativa cause espanto ao ouvinte ou ao leitor.
No folheto citado, os causos são apresentados em 181 estrofes de seis versos, com sete sílabas (sextilhas), culminando com um acróstico “HCAVENAGHI”, composto por versos decassílabos (dez sílabas poéticas).
Ao longo da minha vida, conheci bons contadores de mentiras, entre eles três moradores do bairro da Bela Vista, em Campina Grande (PB), sendo um deles já falecido, os quais, por questão de ética, não vou citar nominalmente. Contarei os milagres, mas não direi os nomes dos santos.
O primeiro causo foi a respeito de um mosquito existente na região amazônica que tinha um ferrão tão longo e potente que, se uma pessoa fosse atingida na parte frontal do tórax, o ferrão sairia pelas costas. Nesses casos, a vítima era acometida de uma febre tão intensa que, ao ser conduzida de maca para o hospital, o calor produzido pela febre causava incêndios na floresta, de um lado e do outro, ao longo do trajeto.
O segundo causo tratava de uma cobra que estava causando grandes prejuízos na mesma região amazônica, onde o narrador teria servido como militar. Tais prejuízos eram decorrentes de inundações causadas pela cobra, toda vez que ela entrava no rio Amazonas. Bastava a cobra entrar no rio, e a inundação ocorria em vários estados.
Então, os governadores resolveram tomar providências: com a ajuda do governo federal, mobilizaram o Exército, a Marinha e a Aeronáutica para dar cabo da cobra. Assim, depois de três dias de intensos ataques, foi quando a cobra percebeu que estava sendo atacada.
Segue outro causo envolvendo cobra. Dessa feita, um caçador teria atirado em uma ribaçã e quando se preparava para pegá-la, eis que viu uma cobra de dois metros se preparando para pegar o passarinho antes dele. O caçador teria pensado: “Essa cobra não vai comer minha ribaçã”. Com um pau, ele atacou a cobra, levando mais de meia hora até conseguir abatê-la.
Ao ouvir o causo narrado, outro mentiroso resolveu questionar o caçador:
– Isso não é nada! Uma cobra de dois metros é muito normal! Por exemplo, quando eu era jovem, matei uma cobra jiboia de dez metros de comprimento.
Como o caçador era imbatível em contar mentiras, retrucou com presteza: — Calma, amigo, você não esperou eu terminar a história. A cobra que eu matei tinha dois metros de um olho ao outro.
Um causo adicional foi narrado por um colega que teria sido acometido de uma azia tão grande que o calor produzido no esôfago teria derretido todos os botões da camisa, antes de ele ser atendido pelo SUS.
Para concluir, eis um causo inusitado. Com expressão muito séria, um contador de mentiras me relatou que, ao se mudar da casa onde morava na Avenida Barão do Rio Branco para outra na Rua Arrojado Lisboa, passou a cuidar de uma pedra encontrada no quintal. Para sua surpresa, a pedra, antes pequena, começou a crescer, e da última vez que ele a mediu, constatou que ela já estava quase da sua altura. Como se não bastasse, um sapo que ele criava no quintal também havia aumentado de tamanho, chegando a pesar cerca de 20 quilos. Parafraseando Pantaleão: “É mentira, Terta?”
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