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Padre e psicólogo.
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Chegamos ao 2º Domingo da Quaresma. Estamos vivenciando em nossas comunidades eclesiais um frutuoso exercício espiritual em preparação para a Páscoa. Continuamos a caminhar com Jesus e, com Ele, estamos aprendendo que o caminho é o lugar da descoberta da identidade (self) de Cristo e a nossa.
O psicanalista inglês-britânico Donald W. Winnicott (1896-1971) falou da construção do “sí-mesmo” usando a expressão self (que usaremos na catequese deste final de semana). Um termo frequentemente usado em nossos dias. Para ele self significa o núcleo de cada ser (pessoa). Portanto, um “self verdadeiro” é a perspectiva mais original e espontânea de cada pessoa e o “falso self” seria as máscaras que costumamos esconder a nossa espontaneidade real e criativa para agradar.
O Evangelho que narra as tentações (Mt 4, 1-11), dizia que Jesus foi para o deserto (v. 1), mas que concluía a cena em uma montanha (v. 8). E, mesmo sendo guiado pelo Espírito, à medida que avançava o caminho e as tentações, o diabo questionava a identidade de Jesus: “Se és filho de Deus” (v.v. 3.6). E o levava para os lugares mais altos para lhe propor “poder e glória sobre os reinos da terra” (v. 8).
A tentação de assumir um “falso self” foi muitas vezes a grande provocação que Jesus enfrentou por parte de todos: do diabo, dos seus conterrâneos, das autoridades de seu tempo, das pessoas que lhe seguiam, dos discípulos e talvez até mesmo por alguns membros de sua família que não o compreendia e queria intervir em seu ministério, pois “achava que Ele estava fora de si” (Mc 3,20-21). Vejam, eles não conhecem Jesus, por isso achavam que Ele estava “fora de si”. Estar “fora de si”, significa um estado de despersonalização ou dissociação.
Todas as vezes que Jesus fazia milagres Ele proibia que as pessoas espalhassem a noticia para que o povo não ficasse com a imagem de “Messias milagreiro”. E quando as pessoas pretendiam chamá-Lo de rei, Ele fugia (cf. Jo 6, 15-17). Também quando os seus amigos queriam retirá-lo de seu caminho, Ele repreendia (cf. Mt 16,23). Ele fugia deste “falso self”.
O fato é que à medida que Jesus caminhava entre as pessoas, esta travessia lhe servia de um processo de individuação; isto é, um caminho para tomar consciência de quem Ele era: “Eu Sou!” (cf. Jo 6,35. 8, 12. 10,7. 10,11. 11, 25. 14,6. 15,1). É o encontro com o seu self (construção da identidade).
Na psicanálise, somos alertados das tantas máscaras (persona) que usamos, na vida social, para sermos aceitos pelos grupos sociais (família, amigos, igreja, etc…). É claro que cada pessoa desenvolve um self educado para uma socialização; porém, resguardando um self privado. E até certo ponto isso é considerado algo comum.
Certa vez, os discípulos perguntaram a Jesus: “porque a outros tu falas em parábolas, mas a nós tu falas claramente? E Jesus responde: Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios, mas a eles não!” (Mt. 13, 10-17. Cf. Mc 4, 10-12)
Winnicott afirmava que o “falso self” surge como uma defesa pra proteger o “self verdadeiro” de um ambiente que não lhe acolhe. É uma forma de submissão às expectativas externas. Parece que temos vergonha de ser e dizer quem somos e quais nossos projetos de vida. Nessa condição, a pessoa vive para agradar e acaba se tornando uma pessoa vazia de sí mesmo.
Jesus fugia dos “falsos selfs” (moralismos, legalismos, da identificação com os poderosos e os tiranos ditadores, religioso oportunista, etc). Ele testemunha em si o amor que Ele aprendeu do Pai. Não custa dizer (como acreditava Winnicott) que o self começa a ser construído em casa. Tudo começa em casa.
Neste domingo, ouvimos o Evangelho da Transfiguração (Mt 17,1-9). Somos levados por Jesus para outra montanha. E dessa vez para conhecer a Sua verdadeira face (self verdadeiro), seu projeto de vida e as resistências que enfrentará, inclusive pelos seus discípulos mais próximos que não conseguem entender a Sua missão: testemunhar o amor do Pai.
“Subir a montanha” (Mt 17 ,1b). A montanha é o lugar da oração e encontro com Deus; mas também pode ser o lugar de uma análise pessoal e eclesial: “tomou consigo três de seus amigos” (v. 1a). É o lugar do insight, isto é, clareza súbita na mente, lugar da iluminação. É o lugar da passagem: do homem velho ao homem novo (cf. Ef 4,13) amadurecido na unidade interior, despojando-se das velhas fantasias (falso self) do legalismo (cf. Gl 2,20) para crescer no amor sem medidas (self verdadeiro).
“Da nuvem luminosa, surgia uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado” (Mt 17, 5b). Esta é a nuvem da validação (O olhar do Outro). A teoria de Winnicott e Lacan nos permite compreender que o bebê descobre quem é (suas experiências inicias de individuação/self) ao ser olhado pela mãe. Se o olhar é de amor, o self se fortalece. Se o olhar é de cobrança, o falso self domina. Freud dizia que “como se sente segura uma pessoa quando se sente amada”. No evangelho, por três vezes (Batismo/ Transfiguração e na entrada em Jerusalém), o Pai diz que Jesus é seu o Filho muito amado.
“A voz do Pai” (v. 5) sempre foi ouvida por Jesus não como algo “fora de si”, mas “dentro de si”. “Escutai-o”, o Pai legitima que Jesus é alguém maduro que deve ser ouvido. Que suas Palavras tem vida (cf. Jo 6, 58). O Pai e Filho vivem numa boa harmonia (cf. Jo 10,30). O amor do Pai fez Jesus crescer, com segurança e equilíbrio, dentro de um mundo hostil que O levará para cruz.
Padre Zezinho diz numa bela canção: “Mas o mundo ainda tem medo de Jesus, que tinha tanto amor” (Canção. Certo Galileu). O mundo enraizado na montanha do egoísmo tem medo dos ensinamentos de Jesus. Por isso, ainda hoje, continua a Lhe oferecer um falso self. Quantos ainda hoje falam de Deus, mas promovendo ódio, divisão, exclusão e guerras. Aqui reside o falso self utilizado por pessoas e grupos para instrumentalizar a pessoa de Jesus.
“Jesus aproximou-se, tocou-os e disse: ‘levantai-vos, não temas!” (v. 7). O evangelho de hoje nos chama a conversão (metanoia) nos convidando a uma mudança na forma de ver a Jesus, a nós mesmos e ao mundo, tirando as máscaras (falso self) para compreender a verdade de Cristo e a nossa (verdadeiro self).
Curamo-nos da ferida do pecado (pessoal ou eclesial) quando saímos da lógica restrita do “fazer muita coisa” para “ser” filhos amados. A religião sem transfiguração é apenas um “falso self bem educada”. E ISSO NÃO É ESPIRITUALIDADE.
“Sai da tua terra, da tua família, da casa de teu Pai e vai para onde eu te mandar. Farei de ti um grande povo” (Gn 12, 1-4a). Aqui começa uma grande história de salvação: uma ruptura que simboliza o abandono das expectativas alheias para assumir nossa identidade, nossa vida, nossa vocação. É um convite diferente daquela canção que diz: “tua família, volta para ela” (Tua Família. Anjos de Resgate, 2002).
A “benção” prometida se manifesta quando Abraão deixa e ser um reflexo das expectativas de uma linha humana para se tornar autor de uma história pessoal que faz a historia da salvação acontecer. Ele não pode ser eco de um passado ou linhagem, por isso seu nome muda: Abrão…Abraão. Ele decide caminhar para sua própria essência.
Afastar para se revelar. O novo homem precisa deixar de ser um acessório para responsabilizar-se de sua vida e vocação. A Terra prometida e o Tabor é o lugar da transparência, da luz interior sem filtros.
Por fim, é preciso dizer que o convite para sair da vida cômoda para uma boa autonomia (Verdadeiro self) não deve ser entendido como um chamado para irmos a outro tipo de montanha que é sinal de tentação e fracasso: A MONTANHA DO EGOÍSMO (Falso self). A tentação de só escutar a si mesmo. De amar só a si mesmo. Amar só o que tem. Só amar a minha família e meu grupo. A tentação de, na convivência com os outros, não ser “sal” da terra “luz” do mundo; mas gostar de curvar os outros à nossa glória e vaidade pessoal e de grupos (auto-referencialidade), esta não é a montanha onde o Senhor quer nos levar.
Para onde estou indo? E para onde estou querendo ir?
Boa semana!
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