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Jornalista, professor universitário, escritor e membro da Academia de Letras de Campina Grande.
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Meu bisavô materno, seu Raimundo Guedes de Oliveira, foi um dos fundadores da comunidade do Queixada. Na verdade, o sogro dele, seu Laurentino, chegou por aquelas terras quase inabitadas e se hospedou com a família debaixo de uma oiticica porque não tinham uma casa para morar. Depois começaram a trabalhar naquelas terras, ganhar a confiança dos patrões e construíram um barraco onde puderam viver com o mínimo de conforto. A origem da família Guedes de Oliveira seria a Paraíba, mas quando meu bisavô chegou ao Queixada ele veio com a mãe, os irmãos e o padrasto da região de Olho D’água dos Correias, que fica lá para as bandas do pé da Serra de São Nicolau, já na divisa com o município de Cedro.
Chegando no Queixada, começaram a trabalhar nas terras da família Henrique, grande detentora daquelas propriedades. Além de trabalhar no roçado ele também criava muito bode e porco. De morador foi aos poucos adquirindo terras, construindo casas e constituindo uma família bastante numerosa.
Raimundo Guedes nasceu em 1899, portanto no apagar das luzes do século XIX e no alvorecer do século XX. Na seca de 1932, para não morrerem de fome, ele alimentou a família com sementes de mucunã. Não sei se vocês conhecem essa planta trepadeira da família das leguminosas que produz umas vagens e pelo formato arredondado e escuro é também conhecida como “olho de boi”. É uma semente bastante resistente e dentro daquela casca dura há uma massa com muito potencial energético e nutritivo. Basta você consultar a internet que vai identificar o uso da mucunã para melhorar o humor, aumentar a energia, a força, além do tratamento do mal de Parkinson.
Para coletar as tais sementes, meu bisavô saía do Queixada, dirigia-se até a serra de São Nicolau, colhia as mucunãs, trazia e a segunda esposa dele retirava a casca, triturava e fabricava cuscuz e angu da massa extraída das sementes e dava para as crianças. Esses produtos eram consumidos com leite de cabra.
A história familiar de meu bisavô foi marcada por muita luta, mas também por sucessivas tragédias. Seu Raimundo Guedes foi casado três vezes. Com a primeira esposa, de nome Aiá, – que era sua prima legítima, não teve filhos. Foi um casamento breve que durou apenas dois anos e sobre o qual ele não gostava de falar. Quando ele chegou ao Queixada, no início do século XX, já era um jovem viúvo. Sabe-se que a primeira esposa tirou a própria vida, e o motivo dessa tragédia teria sido o desejo de comer um arrasto de bode. Aiá estava grávida e disse que queria comer essa iguaria, meu bisavô, que sempre andava muito ocupado com a luta no roçado, pediu que ela aguardasse até o fim de semana, quando ele teria mais tempo para abater o animal. Decepcionada com a proposta do marido, Aiá aproveitou a ausência de meu bisavô e enquanto ele estava no roçado ela amarrou uma corda no telhado da casa, colocou no pescoço e tirou a própria vida. Quando ele chegou em casa encontrou tudo fechado, olhou pelas brechas da janela e viu o corpo da esposa dependurado. Quebrou a porta para entrar, mas já era tarde demais.
Com a segunda esposa, dona Maria Ferreira Lima, minha bisavó, a relação foi mais duradoura, mas também terminou de forma trágica. Dessa união nasceram onze filhos. Dona Maria faleceu no ano de 1947 por complicações no parto. Após dar a luz a uma criança que já nasceu sem vida. Dona Maria teve uma forte hemorragia e também não sobreviveu. A imagem que mais marcou aquela despedida foi ver mãe e filho dividindo o mesmo caixão.
A terceira e última esposa de meu bisavô chamava-se Vicência Maria de Jesus, mas todos a conheciam por Dona Ceci. Era uma mulher viúva, forte, corpulenta, e trabalhava como costureira. Passava o dia cortando e emendando pedaços de tecidos que eram transformados em calças e camisas. Quando casou com meu bisavô, dona Ceci já tinhas duas filhas: Bibia e Moça. E ainda tiveram mais sete filhos, somando assim dezoito filhos dele e duas filhas dela. Dona Ceci era diabética e naquela época não havia muito acesso aos medicamentos para controlar as consequências da doença. Foi perdendo os movimentos e perto de falecer dependia dos outros para se deslocar de uma parte a outra da casa. Morreu em 20 de dezembro de 1977.
Seis anos depois em três de setembro de 1983, por volta de cinco horas da tarde, meu bisavô faleceu vítima de problemas cardíacos, aos 84 anos de idade.
Mesmo depois da morte de meu bisavô, um antigo costume iniciado por ele, ainda sobreviveu até a chegada da energia elétrica e da televisão: todas as noites, as pessoas da comunidade se reuniam na calçada de sua casa, para esperar a chegada do vento Aracati. Eu ainda criança me recordo muito bem dessa época. Depois que a TV chegou todo mundo foi seduzido pela caixinha de luz mágica e se isolando em suas residências. O Aracati perdeu, de certa forma, o seu encanto e a sua magia.
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