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Jurani Clementino

Jurani Clementino

Jornalista, professor universitário, escritor e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

Baculejo no espetinho de Rosy

Por Jurani Clementino
Publicado em 18 de outubro de 2026 às 11:46

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Acho que tem uma crônica minha no livro Memórias Sertanejas sobre o Espetinho de Rosy que era uma espécie de bar que ficava aqui próximo de casa e vez por outra eu costumava ir lá comer alguma coisa ou tomar alguma cerveja. Geralmente nos finais de semana ou início de noite. E com o tempo fiquei amigo dela e Rosy ficava me contando sobre as intencionalidades dos clientes, muitos deles casados, que iam para corteja-la. Cortejar é um eufemismo, porque eles iam para assedia-la mesmo. Planejar futuros ao lado dela que jamais seriam concretizados.

Tinha também os jovens “barra-pesada” que acabavam ficando todos amigos entre si o que implicava, de certa forma, em menos riscos por ali. E foi nesse bar que eu sofri o meu primeiro baculejo. Pra quem não sabe, baculejo é aquele negócio constrangedor, uma espécie de revista, que a polícia adora fazer nas periferias, e que começa com as frases mãos à cabeça, de costas, virado para a parede… Naquele dia em especial os jovens transgressores que estavam no bar, provocaram e eu que parei ali de bobeira, entrei no pacote de punição. Foi o seguinte, passaram duas viaturas da polícia militar, aquelas D20 grandes e quando cruzaram a frente do bar, esses jovens começaram a gritar. Tipo uma vaia cearense. Os policiais não pensaram duas vezes. Deram meia volta na rotatória e pararam quase em cima das mesas e cadeiras que ficavam na calçada. Saíram tudo de uma vez. Uma coisa meio treinada, sincronizada. Quatro de cada veículo. Todos com armas em punho e apontadas em nossa direção. E já repetindo aquelas frases acima mencionadas. Na parede! De costas! Mãos na cabeça!

Pra minha sorte momentânea, eu estava conversando com a filha da dona do bar. Dava meio a entender que era um casal desavisado que tinha parado ali por um puro acaso. A filha de Rosy ainda permaneceu ali comigo por alguns segundos, mas ao ver toda aquela macharada de costas na parede, deve ter se assustado e correu pra dentro. Foi nessa hora, quando eu estava ali sozinho, abandonado, feito um cachorro que caiu da mudança, que um policial, certamente lendo na minha cara toda essa aflição, falou com certa educação: “Pra parede!”. Ele não gritou. Acho que teve dor de mim. Mas tinha que exercer a sua função e aquela ação não poderia aceitar nenhuma exceção. E eu, com as pernas meio bambas, obedientemente me levantei e coloquei as duas mãos na parede e fiquei de costas para a rua.

Eu sabia como fazer porque eu tinha acabado de ver aquele batalhão de jovens arruaceiros fazendo, há poucos segundos, sob os gritos ameaçadores dos policiais, aquela mesma cena. E eu tinha observado, com certa atenção, para o caso de precisar eu repetir corretamente o ritual. E precisou, muito antes do que eu esperava. Mas quero fazer justiça aqui com o policial que me abordou. Ele teve certa compaixão para comigo. Talvez, reconhecendo a assimetria estética entre eu (que estava ali bem vestido, branco, penteado e com cara de intelectual, completamente desajeitado de costas pra rua e de frente pra parede com as mãos acima da cabeça), em relação aos demais que estavam, embora na mesma posição, quase todos descamisados, assanhados e cheios de tatuagens. Assim o PM logo me fez uma revista simples e me autorizou a sentar. Enquanto os outros policiais catucavam os bolsos dos shorts dos jovens, as mochilas e qualquer outro objeto que eles traziam.

Não sei quanto tempo aquilo demorou, mas para mim, demorou uma eternidade. Eu já tinha pensado, inclusive, como seria se algum conhecido meu, por pura infelicidade minha, claro, estivesse passando na rua e testemunhando aquela abordagem. Depois ficava imaginando se enquanto eu estivesse ali sentado, e aquele monte de policiais revistando tudo ao meu lado, um vizinho ou um amigo chegasse para saciar sua curiosidade natural e desse de cara com o professor no meio daquilo tudo. Bom, mas pelo que sei, ninguém passou. Ou se passou e viu, não comentou comigo por pura piedade. Eu é que geralmente conto essa história quando me perguntam sobre situações constrangedoras. Mas no final das contas os jovens nem eram tão arruaceiros, transgressores ou “barra-pesada” assim. Pareciam, mas não eram. Ou se eram, sabiam muito bem enganar a polícia.

Porque depois do baculejo, ou seja, da revista, os polícias entraram nas viaturas e saíram cantando pneu. E eu continuei lá, pensando sobre o que tinha acontecido. Até hoje não sei exatamente o que aconteceu. Mas aconteceu que eu estou lembrando. Essa história é antiga. Deve ter uns doze, quinze anos. Faz muito tempo que o Espetinho de Rosy deixou de existir. Esses dias, inclusive eu encontrei a filha dela no shopping e perguntei pela mãe. Ela me disse que Rosy está bem, casou, não quis mais saber de bar e hoje trabalha como Uber. Tempo, tempo, tempo, tempo.

 

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