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Presidente Lula na ONU: “Brasil não cabe no quintal de ninguém”

Da Redação*
Publicado em 22 de setembro de 2026 às 14:41

lula presidente

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

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“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, disse o presidente Lula (PT) na ONU, nesta terça-feira (22), em discurso marcado por constantes referências contrárias à interferência externa na América Latina. Sem mencionar nominalmente os Estados Unidos, o presidente falou reiteradamente sobre as ações do governo de Donald Trump.

“Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais”, disse o petista. “Diferências ideológicas não devem ser obstáculo para integração entre vizinhos. A democracia está em xeque”, seguiu, após mencionar interferências praticadas pela “maior potência militar do mundo”, os EUA.

O tema permeou sua fala e voltou com maior clareza ao final. Lula mencionou as eleições do próximo dia 4, nas quais concorre à reeleição e tem no senador Flávio Bolsonaro (PL) o seu maior adversário. Afirmou que o país terá um pleito transparente e competitivo.

“Um pleito no qual os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão”, seguiu. E acrescentou, em referência indireta à família Bolsonaro: “Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país.”

“Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”, continuou o presidente, que adendou que “a democracia brasileira pertence aos brasileiros”.

Ele não foi aplaudido pela delegação dos EUA presente na plenária das Nações Unidas, ainda que depois, quando Trump discursou na sua sequência, tenha aplaudido o americano, com pouco entusiasmo.

A fala do brasileiro, arredondada com cuidado durante a tarde desta segunda-feira (21), teve forte tom eleitoreiro. Lula fez menção a diversos feitos de seu terceiro mandato em Brasília, como programas de combate à desigualdade de gênero e combate ao crime.

E se referiu a si próprio como “um operário eleito três vezes presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome”.

Nesse sentido, ele também fez breve menção às tarifas impostas por Washington a produtos brasileiros, tema central na mesa de debate dos dois países.

Lula disse que, a despeito do chamado tarifaço, o Brasil bateu novo recorde de exportações este ano. Também lembrou o Pix, ferramenta de pagamentos instantâneos do Banco Central que foi alvo de críticas dos EUA.

Ele abriu os discursos de chefe de Estado no evento, função que cabe tradicionalmente ao Brasil. Como era esperado, também falou sobre o crime organizado, bandeira dos EUA nas Américas:

“O Brasil não subestima o crime organizado. Estamos preparados para enfrentar os criminosos. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas armas.”

Mais uma vez, tratava-se de uma referência indireta a Washington, que tem promovido ataques a embarcações no Caribe, que afirma serem de traficantes.

Lula está entre os chefes de Estado que por mais vezes discursaram na Assembleia-Geral. Hoje em seu terceiro mandato, ele já compareceu ao evento dez vezes —ficou de fora em 2005, na época do escândalo do Mensalão, e em 2010, quando preparava a campanha da ex-presidente Dilma Rousseff para sucedê-lo.

Há temas que aparecem em seu discurso independentemente da agenda doméstica ou internacional naquele ano: a necessidade de reforma do Conselho de Segurança da ONU, o órgão que, com seus cinco membros permanentes com poder de veto tem o maior poder decisório da organização; e a necessidade de combater a fome e pobreza no mundo.

Não foi diferente desta vez. Lula falou longamente sobre o fracasso do Conselho, que descreveu como não cumpridor de seu papel, e do imobilismo global. Lembrou, como é fato, que no ano passado o mundo acumulou o maior número de conflitos desde a Segunra Guerra Mundial. E disse que há uma nova guerra armamentista em curso.

Sobre os dilemais mundiais, fez menção especial ao que ocorre no Oriente Médio, mais especificamente em Gaza, com os ataques de Israel, e no estreito de Hormuz, afetado pela guerra no Irã.

“Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo [de Beyamin] Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza”, disse, ao que logo somou: “[E] civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas.”

Neste ano, sua ida a Nova York se dá sob dois precedentes importantes. O primeiro, a eleição no Brasil daqui a duas semanas. O segundo, a frágil relação bilateral com o governo de Trump, que aplicou tarifas econômicas contra o Brasil, muito maiores que as designadas a outros países, e tem tentado interferir no processo internacional.

Boa parte do que disse na ONU já havia sido adiantado pelo petista em outras declarações dadas em Nova York, em especial a defesa da soberania brasileira contra interferências de outros países.

Na véspera de discursar no plenário, ele se reuniu com adversários de Trump: primeiro, o prefeito de Nova York, o socialista democrata Zohran Mamdani; depois, o senador independente Bernie Sanders. Ele também concedeu entrevista à CNN internacional, quando voltou a chamar o republicano de “imperador” e criticar o que chama de uma guerra econômica em curso no mundo.

A delegação brasileira também recebeu, entre muitos outros, um pedido para se reunir com a líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, feito há mais de uma semana. A delegação de Caracas ficou sem resposta, deixando em aberto a possibilidade de que ainda haja um encontro com o chanceler Mauro Vieira, que segue em Nova York.

O presidente retornou ao Brasil pouco após discursar no plenário da organização para seguir com sua agenda de campanha. Ele não falou com a imprensa.

*com informações de MAYARA PAIXÃO E ISABELLA MENON/folhapress

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