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Educação e Ciência

Quando a inclusão ensina a enxergar possibilidades em escolas municipais de João Pessoa

Da Redação com Secom/JP
Publicado em 7 de setembro de 2026 às 9:30

EDUCACAO JOAO PESSOA TECNOLOGIA

Foto: Secom/JP

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Há coisas que parecem pequenas até o dia em que deixam de ser impossíveis. Ler uma placa. Descobrir a cor de uma roupa. Identificar uma embalagem. Conferir uma nota de dinheiro. Ler um livro que não está escrito em Braille. Usar o celular sem precisar pedir ajuda.

Para muitos, são ações tão corriqueiras que passam despercebidas. Para estudantes com deficiência visual, porém, cada uma delas pode representar uma conquista de autonomia.

É nesse território, entre a Inteligência Artificial e a possibilidade de fazer sozinho, que a Rede Municipal de Ensino de João Pessoa vem ampliando as ferramentas de inclusão. Nas escolas, equipamentos de tecnologia assistiva passam a fazer parte da rotina de estudantes com deficiência visual, criando novas formas de aprender, interagir e acessar o mundo.

Na Escola Municipal General Rodrigo Otávio, no Bairro dos Estados, uma das referências nesse atendimento, óculos inteligente, notebooks, impressoras Braille, linhas Braille, lupas eletrônicas, leitores de tela, scanners com voz, máquinas de escrever em Braille, acionadores e outros recursos integram o cotidiano dos estudantes.

A escola atende cerca de 60 alunos já diagnosticados com alguma deficiência, além de outros em processo de investigação, e possui um universo de mais de 100 estudantes que demandam um olhar diferenciado.

A tecnologia que cabe na vida

Pedro Paulo tem 16 anos, é aluno do 7° ano e conhece bem essa transformação. Ele utiliza diferentes recursos de tecnologia assistiva, entre eles a linha Braille e os óculos Orcam Myeye 2.0, equipados com tecnologia de reconhecimento. Mas, no dia a dia, há uma ferramenta que se tornou especialmente importante: o leitor de tela do celular.

“Uso a linha Braille, tenho os óculos e os recursos naturais. Gosto muito de cada um. Fora o leitor de tela do celular, que é o que eu mais uso no dia a dia. O que eu mais preciso é dos óculos para ler livros e matérias e do leitor de celular, que uso em todos os lugares”, conta.

A diferença, para ele, não está apenas na facilidade proporcionada pelos equipamentos. Está na liberdade que veio junto com eles. “A minha vida se tornou mais simples, porque antes tinha que pedir às pessoas para ler para mim ou fazer coisas que eu não conseguia, como ler no celular”, relata.

A frase talvez seja uma das melhores traduções do que significa tecnologia assistiva quando ela cumpre seu papel: não fazer pelo estudante, mas permitir que ele faça. Com os óculos, Pedro consegue acessar informações que antes dependiam da ajuda de alguém.

“Você consegue enxergar o mundo com os óculos?”, pergunto ao entrevistá-lo. A resposta vem acompanhada de uma lista de possibilidades: notas de dinheiro, placas, embalagens, cores. É uma nova forma de acessar o que está ao redor.

EDUCACAO JOAO PESSOA

Foto: Secom/JP

Entre o Braille e a inteligência artificial – Professor da Escola General Rodrigo Otávio, Adriano Barbosa de Lima acompanhou de perto essa mudança. Há 13 anos na escola, ele conhece uma realidade em que estudar sendo uma pessoa cega exigia enfrentar barreiras que hoje podem ser reduzidas pela tecnologia. Ele faz um exercício de imaginar como teria sido sua própria trajetória se esses recursos existissem quando ele era estudante.

“Se na minha época fosse disponibilizado para mim o que é disponibilizado hoje para os alunos, se hoje eu estivesse na educação, eu teria uma outra profissão”, afirma.

Não é uma crítica ao passado. É a dimensão da transformação que ele testemunha no presente. Para o professor, as condições de estudo e acesso ao conhecimento são hoje muito maiores do que aquelas disponíveis para sua geração.

Por isso, a tecnologia não aparece como substituta do conhecimento básico, mas como uma ferramenta que amplia possibilidades. O diretor pedagógico Márcio Diniz reforça que o domínio do Braille continua essencial. Um equipamento pode descarregar, quebrar ou simplesmente não estar disponível em outro ambiente. A autonomia precisa sobreviver para além da tecnologia.

“É necessário que eles dominem a escrita e a leitura em Braille para que eles possam seguir sua vida acadêmica com mais tranquilidade e com a eficiência que eles demonstram ter conosco. A gente sabe do potencial que eles têm. Eles possuem a deficiência visual, mas eles não têm limites para a aprendizagem.”, explica.

Ler um livro de outro jeito 

Entre os estudantes com acesso a inclusão na rede pública de ensino de João Pessoa está Luísa Gabriela, de 12 anos, aluna do 7º ano. Ela também utiliza os óculos de tecnologia assistiva.

Para a garota, uma das experiências mais marcantes foi poder ler um livro convencional com o auxílio do equipamento. Luísa conta que gostou de descobrir uma maneira diferente de entrar em uma história que antes precisaria estar adaptada ao Braille. “Eu me sinto privilegiada”, diz.

A experiência, aparentemente simples, revela uma dimensão importante da inclusão: ampliar as possibilidades de acesso sem retirar do estudante aquilo que já funciona. Com o equipamento, Luísa também passou a conseguir identificar notas de dinheiro. Isso significa, por exemplo, poder ir ao mercadinho, comprar um chocolate e conferir se o troco está correto. É autonomia traduzida em uma situação cotidiana.

Uma escola que cuida – Tecnologia é meio. Autonomia é o objetivo. Diego Araújo, diretor de Tecnologia da Informação e Comunicação (DTIC) da Secretaria Municipal de Educação e Cultura (Sedec), chama atenção para um ponto fundamental: a inteligência está incorporada aos equipamentos e permite o reconhecimento de padrões e informações do ambiente. Mas o recurso precisa estar associado ao trabalho pedagógico, ao Braille, à mediação dos professores e a outras estratégias de aprendizagem.

“A própria tecnologia muda rapidamente. A rede já trabalha com equipamentos como o OrCam MyEye 2 e reconhece que novas versões e soluções surgirão à medida que a tecnologia avançar. Por isso, a inclusão também exige atualização permanente”, afirma.

Para Diego, entretanto, existe algo que nenhuma especificação técnica consegue medir: o momento em que o equipamento deixa de ser apenas um objeto e passa a fazer diferença na vida de uma criança.

Ele conta que uma das maiores motivações do trabalho é encontrar um estudante acompanhado da mãe, recebendo o equipamento e agradecendo porque aquilo passou a fazer diferença em sua rotina. “Quando a gente vê o resultado, vê essas crianças produzindo ciência. Isso é motivador”, resume.

É também por isso que a educação, para ele, não pode ser pensada apenas como preparação para o futuro. As crianças são o presente e é no presente que precisam ter acesso às oportunidades.

“Esse tipo de ferramenta potencializa nossa capacidade de fazer qualquer coisa, inclusive ler, escrever, e para os deficientes visuais, eles conquistam uma independência que nunca sonharam em ter. Muda totalmente a relação que aquela pessoa tem com o mundo”, coloca Diego.

Quando enxergar ganha outro significado – No fim, talvez a palavra ‘enxergar precise mesmo ser ampliada. Para quem vê, enxergar parece estar ligado exclusivamente aos olhos. Para quem utiliza uma tecnologia assistiva, enxergar pode significar receber uma informação, reconhecer uma possibilidade, escolher sozinho, atravessar uma rua com mais segurança, conferir o próprio dinheiro, escolher uma roupa, ler uma história. Pode significar não precisar perguntar.

Pedro resume essa mudança de maneira simples: antes, muitas coisas dependiam da ajuda de outras pessoas. “Hoje faço a maioria das coisas sozinho”, diz.

É nessa pequena palavra, “sozinho”, que a tecnologia revela sua maior potência. Porque inclusão não é fazer pelo outro. É criar condições para que o outro possa fazer. E quando uma escola entrega uma ferramenta capaz de transformar dependência em autonomia, não está apenas ensinando uma nova maneira de ler o mundo. Está ampliando o mundo que aquele estudante pode alcançar.

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