Justiça nega autorização para adolescente atuar como influenciadora digital
Da Redação com Ascom Publicado em 22 de julho de 2026 às 22:08
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil/Arquivo
Continua depois da publicidade
Continue lendo
A 1ª Vara da Infância e Juventude da Capital indeferiu o pedido de autorização judicial para que uma adolescente de 13 anos produzisse e divulgasse conteúdo monetizado nas redes sociais como influenciadora digital.
A decisão foi proferida pelo juiz Adhailton Lacet, que também determinou medidas protetivas e acautelatórias para fazer cessar a exploração comercial da imagem da adolescente.
O pedido havia sido formulado pela mãe da adolescente para regularizar a atuação da jovem na produção de conteúdo para plataformas como YouTube, Kwai, TikTok, Instagram e Facebook.
Segundo os autos, a adolescente já atuava no meio digital há cerca de três anos e obtinha rendimentos que chegavam a aproximadamente R$ 6 mil mensais.
Ao analisar o caso, o magistrado destacou que a Constituição Federal proíbe o trabalho de menores de 16 anos, salvo na condição de aprendiz a partir dos 14 anos.
Segundo ele, a autorização judicial prevista para atividades artísticas não se aplica ao trabalho habitual de influenciador digital com finalidade de engajamento e monetização.
“A atividade exercida pela adolescente configura evidente trabalho como digital influencer (influenciadora digital). A produção contínua de vlogs de rotina, desafios, e a exposição diária para engajamento e monetização nas plataformas Kwai, TikTok, YouTube e Instagram distanciam-se do conceito de atuação artística. Trata-se de autêntico trabalho infantil publicitário e de engajamento, o qual é terminantemente vedado pela ordem constitucional”, destaca a sentença.
A decisão também levou em consideração uma inspeção judicial realizada nos canais mantidos pela adolescente.
Conforme constatado, havia conteúdos considerados inadequados para a idade, incluindo adultização precoce, referências indiretas a conteúdos sexualizados e romantização de relacionamento entre adolescentes, além de comentários de terceiros nesse sentido.
“A exposição da adolescente a roteiros com linguagem inadequada, a romantização de relacionamentos aos 13 anos e as referências a pautas de erotização infantil configuram nítida adultização precoce e hiperexposição”, ressalta o magistrado.
Para o juiz, a rotina de gravações imposta à adolescente, com atividades às sextas-feiras à tarde e sábados durante todo o dia, compromete o direito ao lazer, descanso e vivência de uma adolescência livre da pressão algorítmica e de performance laboral.
A decisão também apontou que os rendimentos obtidos pela adolescente superavam a renda do núcleo familiar, situação que poderia caracterizar exploração econômica indevida do trabalho e da imagem da jovem.
A sentença citou ainda a Resolução nº 687/2026 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que estabelece regras para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.
Segundo a decisão, a norma não autoriza a exploração econômica indevida de menores nem a participação em conteúdos que possam violar seus direitos.
Como consequência do indeferimento do pedido, o juiz proibiu os genitores de explorar comercialmente a imagem da adolescente nas redes sociais como influenciadora digital ou criadora de conteúdo.
Em caso de descumprimento, foi fixada multa diária de R$ 1 mil, sem prejuízo de eventual responsabilização administrativa e criminal.
A decisão determinou ainda o envio de cópia integral do processo ao Ministério Público do Trabalho (MPT), para investigação sobre possível trabalho infantil ilícito nas plataformas digitais.
Também foi determinada a comunicação ao Conselho Tutelar da residência da adolescente, para acompanhamento periódico da família, orientação aos responsáveis sobre a proibição do trabalho infantil e encaminhamento da jovem para suporte psicológico contínuo na rede pública de saúde, com o objetivo de minimizar os impactos decorrentes da exposição já sofrida.