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Engenheiro Eletrônico, MBA em Software Business e Comércio Eletrônico, Diretor da Light Infocon Tecnologia S/A e Diretor de Relações Internacionais da BRAFIP – Associação Brasileira de Fomento à Inovação em Plataformas Tecnológicas.
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Fui “provocado” por Kival Weber (de Curitiba, ex-Presidente da Sociedade Softex) amigo de longa data, a escrever um texto sobre o “China Office”, que este ano completa 30 anos de sua instalação. A coluna de hoje é o resultado dessa “encomenda” de Kival.
No contexto da crescente globalização da indústria de TI (Tecnologia da Informação) na década de 1990, uma iniciativa pioneira surgida em Campina Grande, na Paraíba, colocou o Brasil entre os primeiros países latino-americanos a buscar uma presença estruturada, no mercado tecnológico asiático.
A iniciativa, denominada de “China Office” – um escritório criado pelo CGSoft – Núcleo Softex de Campina Grande, vinculado à Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PaqTc-PB), com o “objetivo de apoiar a internacionalização de empresas brasileiras de software e tecnologia”.
O projeto nasceu em 1996, em um momento em que a China iniciava sua transformação em potência tecnológica global.
A iniciativa contou com apoio de instituições brasileiras como a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o então Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).
Na China, a parceria foi estabelecida com o Ministério da Ciência e Tecnologia chinês (MOST), permitindo a instalação de uma operação permanente em Beijing (Pequim).
30 anos da abertura do “China Office” (II)
O “China Office” foi concebido/instalado em uma época em que o mercado chinês ainda era pouco conhecido pelas empresas brasileiras. Enquanto muitos países concentravam seus esforços comerciais nos Estados Unidos e na Europa, a iniciativa paraibana apostava no potencial de crescimento da Ásia.
A ideia era criar uma estrutura de apoio capaz de facilitar a entrada de empresas brasileiras de software (principalmente) naquele mercado, fornecendo informações estratégicas, apoio institucional, prospecção de negócios e organização de missões empresariais.
Entre 1996 e 2000, o escritório que foi instalado e gerenciado durante o período em que esteve em funcionamento, pelo Prof Dr. Telmo Araújo (já falecido e que nomeia merecidamente, o CITTA – Centro de Inovação e Tecnologia Telmo Araújo, citta.org.br) e pela Profa Dra. Francilene Garcia (atual presidente do Conselho de Administração da Embrapii – Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial), desempenhou um papel relevante na promoção da tecnologia brasileira no continente asiático.
Durante esse período, aproximadamente 120 empresas brasileiras de TI e de base tecnológica, tiveram a oportunidade de apresentar produtos e serviços, a potenciais clientes e parceiros na China e em outros países da região.
As ações desenvolvidas foram amplas e inovadoras. Destacando-se a realização de três edições do “Asia Software Brazilian Meeting (ASBM)”, rodadas internacionais de negócios voltadas à aproximação entre empresas brasileiras e asiáticas; a participação de empresas brasileiras em quatro feiras internacionais de tecnologia realizadas na China e uma em Singapura; além da organização de quinze missões técnicas e comerciais, que levaram dezenas de empresários brasileiros ao país asiático.
30 anos da abertura do “China Office” (III)
Outro diferencial e um dos principais objetivos do projeto, foi a “produção de inteligência de mercado”. O “China Office” editava boletins informativos sobre oportunidades e tendências do mercado chinês, além de produzir catálogos em mandarim, contendo informações sobre cerca de 90 produtos e serviços de software desenvolvidos por empresas brasileiras, especialmente as voltados para o agronegócio.
Essa iniciativa representou um esforço pioneiro de adaptação comercial e cultural, para facilitar a entrada de produtos brasileiros em um ambiente de negócios bastante distinto daquele encontrado no Ocidente.
Os resultados alcançados pelo escritório ultrapassaram a promoção comercial. Um dos principais desdobramentos foi a criação, em Campina Grande, do TecOut Center – Centro de Internacionalização de Software –, implantado com apoio da Sociedade Softex e da FINEP.
O centro foi concebido para apoiar empresas brasileiras em seus processos de inserção internacional, aproveitando a experiência acumulada pelo China Office, ao longo dos anos em que esteve funcionando.
O modelo mostrou-se tão relevante que serviu de referência para a criação de uma estrutura semelhante na cidade chinesa de Zhaoqing, fortalecendo ainda mais a cooperação tecnológica entre os dois países.
Sob uma perspectiva histórica, o “China Office” pode ser considerado uma iniciativa visionária. Em meados da década de 1990, a China ainda não ocupava a posição de liderança tecnológica que possui atualmente.
30 anos da abertura do “China Office” (IV)
A iniciativa de estabelecer canais de cooperação com a China, surgiu a partir da nossa percepção e de outros profissionais/empresários comprometidos com a “internacionalização” das empresas brasileiras de base tecnológica e do “expressivo potencial estratégico do mercado chinês”, muito antes dessa visão se tornar consenso. Antecipando assim, um movimento que ganharia força nas décadas seguintes.
Hoje, a China figura entre os maiores polos globais de inovação, abrigando gigantes tecnológicos e liderando investimentos em áreas como IA (Inteligência Artificial), telecomunicações, computação avançada e manufatura digital.
A experiência do “China Office” também demonstra a capacidade de instituições localizadas fora dos grandes centros econômicos brasileiros, de liderar iniciativas de alcance internacional.
A partir de Campina Grande, reconhecida nacionalmente e internacionalmente, por sua tradição em ciência da computação, engenharia e inovação, foi possível construir uma ponte tecnológica entre Brasil e Ásia, em um período no qual a internacionalização do setor brasileiro de software ainda dava seus primeiros e tímidos passos.
Mais de duas décadas após o encerramento de suas atividades, o legado do “China Office” permanece bastante relevante. A iniciativa antecipou estratégias de internacionalização que hoje fazem parte das políticas de inovação e exportação do setor de tecnologia do Brasil, demonstrando que a combinação entre visão de futuro, pensamento estratégico, recursos humanos adequados, cooperação institucional e investimento em conhecimento de mercado, pode gerar resultados duradouros para o desenvolvimento tecnológico nacional.
Leia a coluna anterior:
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