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Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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O alagoano Jacinto Silva (nome artístico de Sebastião Jacinto da Silva, 1933-2001) e o pernambucano Onildo Almeida são os compositores do coco intitulado “Gírias do Norte”, lançado em 1961 pela cantora pernambucana Marinês (nome artístico de Inês Caetano de Oliveira Farias, 1935-2007), no álbum “O Nordeste e seu ritmo”.
Nessa gravação, acompanhada por um trio de forró, a emissão vocal de Marinês, conhecida como “A Rainha do Xaxado”, se destaca pela potência, afinação, ritmo e dicção clara, características essas que manteve até o fim da carreira artística.
Duas décadas depois, o próprio Jacinto Silva registrou uma nova versão da música em seu álbum “Gírias do Norte”, lançado em 1981. Nessa gravação, o compositor e cantor imprimiu ao coco uma sonoridade atualizada, ampliando o instrumental, sem, no entanto, alterar a essência da composição, conferindo-lhe apenas uma nova vitalidade rítmica.
Em janeiro de 1984, “Gírias do Norte” foi gravada pelo cantor baiano Xangai (nome artístico de Eugênio Avelino Lopes Souza), durante uma apresentação no Teatro Castro Alves, em Salvador (BA).
“Gírias do Norte” faz parte da lista de músicas que compõem o álbum “Arquivo III”, lançado pela cantora paraibana Elba Ramalho, em 2000.
Em 2001, Xangai e o Quinteto da Paraíba lançaram um CD, intitulado “Brasileirança”, no qual o coco “Gírias do Norte” foi incluído, sob um arranjo que mistura, de forma equilibrada, o popular e o erudito.
Nessas e nas gravações sucedâneas de “Gírias do Norte”, para além do ritmo e da musicalidade, o que mais desperta a atenção do ouvinte é o teor da letra bem-humorada.
Nela, o personagem Zé do Brejo teria convidado o cantador para marcar uma quadrilha na festa de casamento da filha de Pedro Bento, o que ele fez, misturando comandos franceses com expressões abrasileiradas e nordestinadas, como “alavantiú”, “chá de dama” e “anarrariê”.
Perguntado por que cantava assim, ele teria respondido:
– “É que minha língua não dariá/ Esse negócio de dizer alavantiú/ Changê dama anarriê/ Posso me atrapalhariá …”
A chave para compreender por que expressões derivadas do francês aparecem na letra da música está na maneira como as quadrilhas chegaram ao Brasil. Inspiradas nas danças de salão francesas dos séculos XVIII e XIX, elas foram gradualmente adaptadas pelas populações rurais nordestinas e, depois, migraram para o ambiente urbano.
Quem é nordestino e presenciou ou participou das antigas quadrilhas, logo entenderá o sentido irônico da letra, identificando nela a inventividade dos compositores ao ampliar os sentidos das palavras mediante a fusão de duas línguas, modificando sons e significados para transformá-los em expressão artística.
Talvez, por isso, mais de seis décadas após sua primeira gravação, “Gírias do Norte” continua sendo lembrada no cancioneiro nordestino. Expressões como “alavantu”, “anarriê”, “balancê” e “changê” sobreviveram por gerações nas quadrilhas juninas, muitas vezes sem que seus usuários soubessem sua origem francesa.
“Alavantú” vem da expressão “en avant tous”, que significa todos para a frente. “Anarriê” vem de “en arrière”, que significa “para trás”. “Balancê” origina-se de “balancez”. “Changê” deriva de “changez”, ordem para que os casais troquem de par. E a própria palavra quadrilha deriva de “quadrille”, estilo de dança coordenada por um puxador que anuncia a sequência de passos a serem executados pelos pares.
Neste contexto, só não entendo, até hoje, por que os compositores escolheram o título “Gírias do Norte”, já que o universo retratado na letra está claramente associado às tradições das quadrilhas nordestinas.
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