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Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.
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Relacionamentos começam muito antes do primeiro beijo, do primeiro namoro ou da escolha de alguém para dividir a vida. Eles começam na casa em que nascemos.
Chegamos como completos estranhos, pequenos seres frágeis que viram a rotina de uma família inteira do avesso. Mudam horários, mudam prioridades, mudam noites de sono. E, ainda assim, despertam amor simplesmente pelo fato de existir. Talvez aí esteja a primeira e maior lição sobre relacionamentos: amar é responsabilidade, cuidado, presença e entrega.
Depois vem a infância. A escola. Os primeiros vínculos. A primeira amizade que parece eterna. A primeira briga. A primeira decepção. As afinidades que surgem no recreio, nos trabalhos em grupo, nos jogos, nas descobertas inocentes da vida. E, sem perceber, vamos aprendendo a conviver, a dividir espaços, afetos, dores e alegrias.
Chega então a adolescência, esse território intenso de dúvidas, inseguranças e revoltas sem causa aparente. Surgem as disputas por notas, por atenção, por pertencimento, por namorados, por amigos, por identidade. Tudo é vivido com urgência. Os laços se constroem nos corredores da escola, nas conversas intermináveis, nos esportes, nas festas, nas fugidas para o cinema que rendem castigo… e até isso, curiosamente, cria memória, cumplicidade e vínculo.
A vida segue. Alguns encontros passam. Outros permanecem. Alguns se renovam. Outros se tornam extensão da própria família. Relações construídas na faculdade, no trabalho, na rotina corrida dos dias que levamos pra vida, ou não. E então, um dia, alguém aparece e desperta aquele pensamento implacável e definitivo: “Quero passar o resto da minha vida com essa pessoa.”
E assim começam novos ciclos. Namoro. Noivado. Casamento. Filhos. Novas histórias sendo escritas por outras vidas que também chegarão ao mundo sem saber que o amor, antes de ser sentimento, é construção diária.
Ao longo do período em que trabalhei na Natura, conheci muitas mulheres e muitas histórias. E quem convive intensamente com pessoas acaba se tornando um pouco de cada profissão. Em muitos momentos, fui terapeuta sem diploma. Apenas escutava. E o mais surpreendente era ouvir agradecimentos por algo tão simples: oferecer escuta.
A queixa mais comum vinha quase sempre do mesmo lugar: a solidão dentro do casamento.
O namorado romântico, cuidadoso e parceiro, parecia desaparecer à medida que os anos avançavam. Os filhos, que haviam sido gerados pelo casal, tornavam-se responsabilidade quase exclusiva da mulher. Muitas trabalhavam fora e, ao chegar em casa, ainda precisavam administrá-la, cozinhar, limpar, dar banho nos filhos, acompanhar tarefas escolares, colocá-los para dormir… tudo isso, muitas vezes, sob críticas, indiferença ou ausência de parceria.
E ainda assim eram cobradas emocionalmente, fisicamente e afetivamente, como se fossem fontes inesgotáveis de acolhimento e sustentação, sem que o índice alarmante de suas exaustões fosse notado, e se percebidos, simplesmente ignorado.
O que aquelas mulheres mais desejavam não era luxo, nem perfeição. Era compreensão. Era parceria. Era uma gota de romantismo no cotidiano. Faria bem um pouco de empatia. Porque sedução não nasce às pressas, na solidão de um dia inteiro de ausência emocional. Sedução é construção. É presença contínua. É a pequena planta que precisa ser regada diariamente com cuidado, prioridade e afeto.
Faz toda diferença uma palavra suave, um abraço demorado no meio da casa, uma ligação para perguntar se ela está bem, um pouco de atençao genuina, uma mensagem dizendo: “Pensando em você.” Um gesto de ajuda sem que ela precise ser pedida, pois quando o pedido chega, o limiar foi esbarrado.
São exatamente essas coisas simples, tantas vezes esquecidas, que sustentam os relacionamentos quando o encanto inicial amadurece.
Espero sinceramente que muitos daqueles personagens cujas histórias ouvi, possam, ao ler estas palavras, se enxergar nelas. E que cuidem enquanto há tempo. Cuidem com zelo, cuidem com palavras, cuidem com atitudes.
Sejam parceiros, sejam namorados dentro do casamento. Seduzam ao longo do dia para que a noite encontre terreno fértil para o amor continuar florescendo.
Nenhuma história começa no desgaste. E não há nada mais desanimador do que um tom ríspido ou um apoio omitido.
Relacionamentos são construídos todos os dias. Nos gestos simples, nas pequenas concessões, na disposição de dividir pesos, tarefas, alegrias e dores. Amar nunca foi apenas sentir, amar é participar, é perceber, é assumir responsabilidades sem precisar ser solicitado o tempo inteiro.
Felizmente existem homens que são a antítese de tudo aquilo que adoece um relacionamento. Homens que representam exatamente a versão de companheiro desejada, principalmente pelas mulheres que vivem dupla jornada de trabalho. E também pelas que não vivem, porque o trabalho doméstico, além de só ser percebido quando deixa de ser feito, raramente é valorizado, e por não ser remunerado, acaba perdendo valor.
Conheço famílias numerosas, algo cada vez mais raro nos dias atuais, com cinco, seis filhos pequenos, em que as tarefas são igualmente divididas e a proatividade masculina é digna de louvor. Homens que entendem que cuidar da casa, dos filhos e da rotina não é “ajudar”: fazer parte. Eles colocam o ingrediente indispensável que transforma obrigação em afeto: o amor, e isso é enxergado de longe.
Talvez seja exatamente isso que sustente os relacionamentos verdadeiros: a consciência de que ninguém deve caminhar sozinho dentro daquilo que foi construído a dois. Porque, quando existe parceria, o amor deixa de ser discurso e passa a ser presença diária.
Todo bom relacionamento começa na argamassa delicada do amor, que sempre precisa de reposição. É justamente pelo descuido, pela ausência das pequenas gentilezas e pela falta de presença que muitos casamentos acabam se perdendo no meio do caminho.
Não permitam que o amor sobreviva apenas na lembrança daquilo que um dia foi bonito. Façam dele um lugar seguro, inspirador e digno de ser exemplo para aqueles que ainda irão entrar nessa estrada chamada vida a dois.
Ainda há tempo. Tempo de pedir desculpas, tempo de reaprender a amar, tempo de voltar a enxergar quem caminha ao seu lado não como obrigação da rotina, mas como alguém que um dia foi escolhido entre milhões de pessoas no mundo.
O amor não acaba de repente. Ele vai morrendo aos poucos, nas ausências, na indiferença diária, na palavra dura, no abraço negado, no cansaço ignorado e na falta de cuidado com aquilo que um dia foi prioridade.
Não esperem a perda para reconhecer valor.
Não transformem em saudade aquilo que ainda pode ser presença.
Relacionamentos não sobrevivem apenas de amor, principalmente quando a paixão arrefece, ele sobrevivem de manutenção, parceria, admiração, escuta, delicadeza e intenção diária de permanecer.
Veja a coluna anterior:
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