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Paraíba
Foto: Divulgação
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Uma expedição paleontológica ao município paraibano de Sousa (a 430 quilômetros de João Pessoa) revelou o que parece ser, até agora, a maior pegada de dinossauro já encontrada no Brasil.
A pegada tridáctila (com três dedos) tem 60 centímetros de comprimento, da ponta da garra até a borda posterior da planta do pé, e 63 centímetros de largura, de um dedo a outro.
A marca sugere que o animal que passou por ali há 140 milhões de anos era um dinossauro carnívoro de grande porte, possivelmente um abelissauro –grupo de dinossauros carnívoros que se diversificaram na América do Sul.
O icnofóssil, nome dado aos vestígios de organismos que viveram no passado, foi encontrado na zona rural, a cerca de 15 quilômetros do centro da cidade. Ele está localizado em um afloramento (exposição da rocha na superfície) conhecido como Floresta dos Borbas, pertencente à formação Antenor Navarro (Cretáceo Inferior), da bacia do Rio do Peixe, entre os estados da Paraíba e Ceará.
Além da pegada com três dígitos, outras foram identificadas no mesmo local, segundo o paleontólogo Fábio Cortes Faria, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Encontramos outras pegadas de tamanho considerável, uma de 40 centímetros, outras bem menores, mas essa realmente nos chamou atenção pelo tamanho”, disse ele, coordenador da expedição.
Integram a equipe de campo o arqueólogo João Henrique Rosas e o geógrafo Rogério dos Santos Ferreira, da empresa Rastro Arqueologia (responsável pelo imageamento), Francisco Fredson de Sousa, bombeiro militar e estudante de pós-graduação de paleontologia da UEPB (Universidade Estadual da Paraíba), e Paulo Abrantes de Oliveira, também pós-graduando da UEPB.
Segundo Faria, a expedição é parte de um projeto maior chamado Preservação do Patrimônio Geopaleontológico e Arqueológico da Bacia do Rio do Peixe, com apoio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Paraíba.
“Tivemos a felicidade de encontrar essa pegada já no final do dia, enquanto trabalhávamos com fotografias para gerar modelos 3D em outro sítio. No dia seguinte, o professor Ismar [de Souza Carvalho, da UFRJ] confirmou ser a maior pegada de dinossauro terópode já encontrada no Brasil”, afirmou ele.
A pegada está em uma via de acesso a uma propriedade particular, onde passam carros, motos e animais que podem danificar o registro. “Após a descoberta, conversamos com a prefeitura [de Sousa] para tentar desviar a passagem de carros, animais e motos para evitar danos à pegada”, disse Faria.
Carvalho afirmou que a pegada tridáctila com dedos proeminentes não se assemelha com nenhuma outra já encontrada para o Cretáceo Inferior da região, que é estudada há pelo menos 102 anos. “A primeira associação que é possível fazer, pensando no intervalo temporal e nos grupos de dinossauros que viveram ali, seria um abelissaurídeo ou abelissauroidea, que é um grupo maior de abelissauros.”
Ainda de acordo com Faria, a produção dos modelos tridimensionais desta e de outras pegadas já encontradas no Vale do Rio do Peixe vai contribuir para a formação de um acervo digital acessível para toda a população.
Bruno Navarro, pesquisador do Museu de Zoologia da USP (Universidade de São Paulo), que não participou da expedição, sugere cautela na classificação taxonômica a partir de uma única pegada. “Na base do Cretáceo, os abelissauros ainda não tinham atingido um porte tão grande, sendo mais provável que fossem outros dinossauros terópodes, como carcarodontossauros ou espinossaurídeos.”
Segundo ele, só será possível atribuir a pegada de Sousa a um nível taxonômico conhecido, como família ou até mesmo gênero comparando com material ósseo do pé de integrantes dos grupos. A estimativa é que o membro do dono da pegada tivesse entre 278 cm e 326 cm, afirmou.
“Não é possível estimar o tamanho inteiro do animal nesse caso, o que temos é uma estimativa da altura do membro. E por isso afirmar, agora, que é a maior do Brasil é arriscado. O ideal é primeiro ter o artigo descrevendo formalmente.”
Os paleontólogos disseram que pretendem fazer a análise minuciosa da pegada e apresentá-la em um artigo que deve ser submetido a uma revista científica. Eles consideram, porém, que a divulgação do achado pode ajudar a valorizar a região e a impulsionar o projeto de preservação do patrimônio geológico de Sousa.
“É uma ciência cidadã, pois, para conseguir fazer a preservação efetiva das dezenas de locais que têm pegadas fósseis na região, precisamos contar com a participação efetiva da população naquele local”, afirmou Carvalho.
* ANA BOTTALLO (FOLHAPRESS)
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