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Edjamir Sousa Silva

Edjamir Sousa Silva

Padre e psicólogo.

Aprender a reconhecer Jesus

Por Edjamir Sousa Silva
Publicado em 19 de abril de 2026 às 15:30

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O evangelho para este domingo (Lucas 24, 13-35) nos põe no caminho com dois discípulos que vão para Emaús. O texto nos coloca dentro de um contexto pascal: da morte para vida, das trevas para luz, da tristeza para a alegria. Em meio a esta narrativa há uma palavra que desejamos meditá-La neste domingo: RECONHECER.

Semana passada, fechando o ciclo da Oitava da Páscoa, dizíamos que três verbos ficaram muito presente ao longo dos primeiros dias pascais: “ver”, “acreditar” e “testemunhar”. Ao conjunto destes verbos acrescentamos RECONHECER.

Reconhecer vem do latim recognoscere, formada pelo prefixo “re” (novamente, outra vez) mais “cognoscere” (conhecer, saber). Significa, literalmente, trazer à mente de novo, voltar a conhecer ou identificar.

Os discípulos de Emaús estão presos ao trauma do evento da cruz e não conseguiam trazer à mente, de novo, Jesus Ressuscitado. Só no gesto familiar do partir o pão é que a resistência cai e eles podem finalmente perceber que a verdade já estava ali caminhando com eles, mas precisavam de um sinal concreto, como Tomé também pediu, para saber juntos como “cognoscere”.

Aqueles que tinham e tem proximidade com Jesus sabiam/sabem as palavras e os gestos que Lhes são tão próprios: mansidão, humildade, propagador da paz, lavava os pés como gesto de serviço humilde e não presunçoso, não gostava de ser comparado com as autoridades perversas do mundo, era sutil, muito acolhedor; mesmo sendo Deus, não se vangloriava de seu poder, nunca quis estar acima de ninguém, mas ao lado; não era apático ao sofrimento dos pequenos e excluídos, ao contrário, amava conviver com estes.

O texto de hoje acaba sendo mais uma catequese de “quem era Jesus” e como “identificá-Lo”.

No evangelho de Lucas, o caminho é sempre pedagógico. É no caminho da vida que Jesus, se aproxima e faz o discípulo reconhecê-Lo através de sinais que são tão próprios Seus e da Nova e Eterna Aliança.

Em nossa cultura, há uma forte tendência, advinda de alguns grupos cristãos enraizados na teologia do Antigo Testamento, interpretando Jesus aos moldes de um messianismo davídico.

Davi foi uma figura aceitável na cultura judaica, pois era um grande líder soberano e militar. Corajoso e grande rei que lutava em nome do “Senhor dos Exércitos”. Assim como Deus é soberano, poderoso, rei, comandante supremo (esses eram adjetivos atribuídos a YHWY no período final do tempo dos Juízes (1 Sm 1, 3)) Davi era  também apresentado assim. Aqui reside um messianismo davídico, esperado e desejado, que Jesus, o Cristo de Deus, fez cair por terra.

Há muitas versões de Jesus, no meio cristão, que contrasta muitas vezes, radicalmente, ao jeito Dele ser. Por isso, é fundamental voltar à sua mensagem, refazer o caminho, para compreender e reconhecê-Lo de novo. O Cristo do Evangelho não é mais reconhecido por tantos véus de doutrinas, pregações, rubricas, interesses mesquinhos de nosso tempo. Qual o Cristo entrou em teu caminho?

A impressão que temos, em nosso tempo, é que existe um Jesus transitando no caminho das pessoas, que já não partilha mais o pão, que não pensa mais na paz, não tem compromisso com a fraternidade, um Cristo imaturo e puritano, que não se identifica mais com os excluídos, mas com os senhores, tiranos e opressores. É um “senhor dos exércitos” birrento, arrogante, narcisista e desumano. Qual o Cristo entrou em teu caminho?

“Os olhos dos discípulos se abriram e reconheceram Jesus no partir o Pão” (Lc 24, 31). Isso tocava a sensibilidade e a identidade dos primeiros cristãos (cf. Atos 2, 42). Cuidar, acolher o outro, partilhar, louvar na simplicidade e alegria (cf. Atos 2,47b) parece ter sido esquecido ou mesmo distorcido em muitos lugares.

Há pregações que beneficiam a auto-referencialidade do pregador (um culto a sua personalidade) e não o Projeto Salvífico de Deus, anunciado por Jesus.

Não queremos mais a coerência com o Evangelho, mas o que vamos ganhar com isso: prestígio, dinheiro, notoriedade, etc. Há cristãos que já não sentam mais na mesa da eucaristia para se encontrar com Jesus, mas com aquele “pregador famoso” e as ideologias de seus ídolos: os novos “Senhor dos Exércitos”.

A cruz é a grande pregação do amor radical: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho” (Jo 3, 16). Mas, os discípulos ficaram confusos com aquele sinal.

A cruz não é um sinal de dolorismo, mas de amor. Este sinal se alinha a outros tantos sinais da vida de Jesus que é preciso voltar a reconhecê-Lo para poder segui-Lo e testemunhá-Lo.

Os discípulos reconheceram Jesus, porque sua mensagem de “partilha”, que é mensagem de “amor fraterno”, é para sempre. Ela entra em todos os lugares, momentos e situações da vida humana.

Os sinais do amor de Deus se multiplicam nas muitas e novas situações atuais, mas nunca perde o essencial que a Tradição deve testemunhar. Esse é o caráter dinâmico da verdade: onde reina o amor, Deus ai está.

Amar e seguir Jesus, em pleno século XXI, não é repetir fórmulas teológicas vazias, esquemas de poder veterotestamentários para justificar guerras e exclusão de pessoas, retornar aos hábitos de piedade do Sinédrio.

O Espírito de Deus, que recebemos no batismo, reconfigura o discípulo à vida nova em Jesus Cristo.

“Como sois lentos para entender” (Lc 24, 25). Jesus não se torna um peregrino-forasteiro para quem reconhece Seus sinais de amor. Muitos grupos pretendem ressuscitar este messias “davídico e senhor dos exércitos” do que acolher Jesus, o príncipe da paz.

O sofrimento de Cristo, aos moldes do “Servo Sofredor”, que Jesus acolhe como sua identidade, derruba qualquer projeto de revanchismo, triunfalismo, de destruição; de matar quem não acredita, como nós acreditamos. Essa é a chave de leitura para reconhecer Jesus Ressuscitado.

Precisamos resgatar a memória do Deus que se identifica com os pequenos e não com os grandes; com os excluídos e não com os que excluem. Essa é mais uma noite da história que precisamos caminhar com Jesus: “Fica conosco, Senhor!” (Lc 24, 29).

Em Lucas, os muitos caminhos de Jesus nos levam a uma mesa. A mesa é o lugar da partilha, da fraternidade e do acolhimento. A mesa e o pão são para todos. Igualdade e fraternidade é o Projeto de Deus pelo qual Jesus foi odiado, perseguido e assassinado.

O Cristo, crucificado não é um fantasma e nem sua mensagem é uma fantasia. Entorno desta mesa, permitam-me perguntar mais uma vez: Qual o Cristo entrou em teu caminho e sentou na tua mesa?

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Um elogio a Tomé

 

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