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Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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Na tarde quente de uma sexta-feira, em 1º de agosto de 1980, deitado em uma rede, ouvi os acordes de uma melodia executada ao violão por João Dantas, um africano natural da Guiné-Bissau, que à época estudava na UFRN e morava em um apartamento, em Natal (RN), onde me recebeu como seu convidado.
Ao ouvir aqueles acordes, tomado pela força expressiva da melodia ancestral, munido de lápis e papel, compus, quase imediatamente, a letra da música que intitulei “Viver (Um sonho de liberdade) ”.
Quando ele parou de tocar, bati à porta do quarto onde se encontrava e perguntei se poderia entrar. Diante de sua anuência, perguntei-lhe se aquela música já possuía letra. Ele respondeu-me que não.
Em seguida, apresentei-lhe a letra tal como acabara de compor, explicando que aqueles versos surgiram na minha mente diretamente da melodia que ele acabara de executar, como se já estivessem nela inscritos, à espera de serem revelados.
Foi dessa escuta atenta e dessa interação entre a melodia executada e a palavra escrita que surgiu a canção “Viver”, cuja letra transcrevo a seguir:
É um dia poder viver,
Sem sofrer.
É um dia poder sonhar,
Sem dormir.
É como poder partir
E ficar.
É como poder somar,
Sem perder.
E o que se junta e se dá
É viver! É viver! É viver!
Nem tão longe,
Nem tão perto,
A questão é só viver.
Se a barra está pesada,
Não se deve esquecer
Que o povo está sofrendo
E precisa de você.
Volte logo, volte logo,
Há tempos que não sentimos
O vento solto a soprar;
Pelas ruas, pelos becos,
Pelo sertão, pelo mar.
Pelas ruas, pelos becos,
Pelo sertão, pelo mar.
À noite, João me convidou para conhecer o pesquisador Grácio Guerreiro Barbalho, professor vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte e membro fundador da Associação Brasileira de Pesquisadores de Música Popular.
Ao chegar à casa do professor Grácio, fomos gentilmente recebidos e conduzidos a um ambiente singular, onde ele mantinha cerca de oito mil discos de 78 rpm, catalogados, preservados e dispostos lado a lado em estantes de madeira, além de um gramofone em plena condição de uso e mais de mil partituras. Tudo ali evocava um estúdio de gravação, com piso, paredes e teto projetados para preservar a qualidade acústica.
Em meio às conversas iniciais, João fez, de maneira despretensiosa, referência à composição que havíamos criado naquela tarde. O comentário despertou a curiosidade do pesquisador, que perguntou se gostaríamos de deixar um registro gravado dessa composição.
Concordamos prontamente, e o registro sonoro foi feito em um gravador de rolo AKAI, na voz de João Dantas, acompanhado por ele mesmo ao violão, sem a minha participação vocal. Achei melhor assim, para preservar o sotaque do parceiro africano.
Concebida em um tempo de travessia — histórica e existencial —, a letra de “Viver (Um sonho de liberdade) ” projeta o sonho de liberdade como experiência compartilhada, em que viver deixa de ser um mero ato de subsistência para tornar-se um gesto consciente de resistência e esperança.
Forjada na parceria entre um africano e um brasileiro afrodescendente, a canção transcende fronteiras geográficas e simbólicas, inscrevendo-se como expressão de uma sensibilidade comum que une margens do Atlântico na afirmação de que viver é, sobretudo, sonhar, resistir e agir fraternalmente.
Atenção: Os artigos publicados no ParaibaOnline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo ao exercício da pluralidade de opiniões.
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