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Padre e psicólogo.
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Ao longo da Semana da Oitava da Páscoa três verbos se tornaram destaques na Liturgia da Palavra: “Ver”, “Crer” e “Testemunhar”. A sequência dos testemunhos repetia aquilo que Maria Madalena disse: “Vai dizer aos meus irmãos: subo para o meu Pai e vosso Pai, ao meu Deus e vosso Deus (…). Vi o Senhor e ele me disse isto” (Jo 20, 17b. 18b).
O cenário de desolação e da descrença de todos é descrito com a imagem de comunidade “com portas fechadas com medo dos judeus” (v.19). E o evangelho diz que o oposto da fé é o medo.
Jesus Ressuscitado se coloca no meio deles e, mostrando suas feridas, lhe traz a paz e os envia em missão: “Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (v.v. 20-21). O ressuscitado confirma que somos uma família (20, 17) e envia em missão, depois de lhes conceder o dom do Espírito (v 22)9. É preciso continuar a missão de Jesus e lutar contra o pecado do mundo.
O Evangelho para este Domingo da Misericórdia (Jo 20,19-31) traz-nos o episódio de Tomé, com suas dúvidas em relação ao evento da ressurreição, mas, também, pondo em dúvidas o testemunho dos outros: “Se eu não tocar, não acredito” (v. 25).
Tomé é um discípulo corajoso. Foi ele que disse “Vamos também nós morrer junto com ele” (Jo 11, 16), mas não acredita. Ele quer tocar nas feridas para crer.
Talvez se Tomé tivesse chegado naquela casa e encontrado as portas abertas e um povo corajoso para testemunhar contra o pecado do mundo, tivesse sido mais fácil para crer. Porém, ele percebe que os outros estão com medo e com portas fechadas, mesmo tendo dito: “Vimos o Senhor!” Talvez, a descrença de Tomé tenha sido mais pela falta de testemunho dos outros. Não basta dizer que “Vimos o Senhor”, nossa condição humana é muito exigente, ela precisa compreender com gestos concretos que, de fato, vimos.
Tomé não quer só ver o ressuscitado, mas também quer ver as feridas. Ele quer ver uma comunidade empenhada no testemunho que mostre Jesus Ressuscitado. O Papa Francisco disse, certa vez: “Não precisamos duma igreja sentada e desistente, mas duma igreja que acolhe o grito da humanidade e uma igreja que suja as mãos para servir o Senhor” (Homilia na conclusão da Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, 27 de Outubro de 2024).
Mostrar as feridas é, também, denunciar o que o pecado do mundo fez com Jesus e faz com todos. Tocar nas feridas é a ação missionária daqueles que crêem. Nesse sentido podemos fazer um elogio à coragem de Tomé, de pedir para ver o Senhor, mas tocar nas suas feridas. Não basta se alegrar pelas muitas adorações ao santíssimo (Vimos o Senhor), pois, a profissão de fé exige o tocar nas feridas da humanidade, exige ainda mais apresentar nossas feridas por causa da evangelização.
Jesus acolhe, em sua misericórdia, a fraqueza de Tomé. A necessidade de provas é sempre um mecanismo de defesa do ego contra a angústia da incerteza é uma tentativa de controlar o desamparo. Faz parte da nossa fragilidade humana. É aqui que entendemos a grandeza da misericórdia de Deus que acolhe-nos mesmo na duvida.
Tocar nas feridas é sinal pascal da proximidade amorosa de Deus que faz-nos crer tocando em suas dores e nas dores da humanidade, que ele carrega consigo. O Cardeal Walter Kasper nos ensinou que ao tocarmos nas feridas do mundo, tocamos nas próprias chagas de Jesus. O Senhor Ressuscitado vai até o precipício das nossas incertezas, dores, marcas, para dizer-nos que é possível ter paz em meio a tudo isso. São João da Cruz, em sua obra “Chama de Amor Viva”, descreveu as feridas como “toques” de amor divino que abrem a alma para Deus.
Quando tocamos nas chagas de Cristo, com fé, encontramos não provas palpáveis e mensuráveis, mas o porto seguro de uma paz interna, como um mar agitado que logo se acalma. O “shalom” é dom do Espirito Santo que reconcilia a humanidade com Deus e a paz messiânica autêntica.
A fé exige crer com o coração, com os olhos e ouvidos abertos e também com as mãos. Tocar é a uma realidade existencial que move a esperança, a fé e a caridade. Uma igreja de portas fechadas e com medo de ir além, por uma falsa prudência ou por seguir conveniências humanas não testemunha a realidade da ressurreição.
“Mais o mundo ainda tem medo de Jesus que tinha tanto amor”, cantou padre Zezinho na canção “Um certo Galileu”. Jesus foi crucificado porque fazia o bem, porque nos ensinou que a face de Deus é a misericórdia, que Deus ama a todos e que é Pai de todos. Hoje, temos medo de dizer isso. Corremos o risco de fazer teologia e espiritualidade de portas fechadas sem tocar nas feridas do mundo. Trancafiados dentro de nossas instituições e burocracias abrimos feridas de descrenças para quem está dentro e fora.
Temos medo de abrir as portas (ad extra) e, como mecanismo de defesa, reduzimos o evangelho a um mero sistema teológico e doutrinal (do pode e não pode), como arma de defesa de nossa incapacidade de compreender a grandeza do evangelho (ad intra). O “ir além” parece ser uma pedra de tropeço e não a pedra fundamental da evangelização (cf. Sl 117(118), 22).
A primeira leitura (Atos 2, 42-47) testemunha que Igreja ,que aprendeu a tocar nas feridas, é a mesma que sabe lutar contra o pecado do mundo: “Os convertidos eram perseverantes em ouvir os ensinamentos dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações (…). Todos os que abraçavam a fé estavam unidos e colocavam tudo em comum, vendiam seus bens e repartiam o dinheiro entre todos (…), tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração”.
Que o Espirito Santo nos de a força do testemunho e que faça renascer um povo novo que como Jesus, passou por este mundo fazendo o bem. Este é o dia que o Senhor fez para nós. Alegremo-nos e Nele exultemos!” (cf. Sl 117(118), 24).
Boa Semana!
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