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Benedito Antonio Luciano

Benedito Antonio Luciano

Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

Manifesto

Por Benedito Antonio Luciano
Publicado em 8 de abril de 2026 às 8:04

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Em 1967, em meio à tensão geopolítica que dividia o mundo em dois blocos ideológicos opostos, capitalismo e comunismo, a intérprete brasileira Elis Regina gravou a canção intitulada “Manifesto”, composição de Guto Graça Mello (Augusto César Graça Mello) e Mariozinho Rocha (Mário Gomes da Rocha Filho).

Naquela oportunidade, a música popular brasileira (MPB) vivia o auge da chamada fase dos festivais, iniciada em 1965. No Brasil, era um tempo de censura e polarização ideológica, o que resultava no engajamento político de alguns artistas.

Talvez, por isso, os primeiros versos de “Manifesto” soem como um aviso irônico destinado aos que cobravam que toda música tivesse necessariamente uma carga política de esquerda: “A minha música não traz mensagem/ E não faz chantagem ou guerra fria/ E nem fala em ideologia”.

Assim, ao negar qualquer conteúdo político, a letra passa a falar de política, mesmo quando pretende negá-la ou escondê-la: “Eu vim apenas para lhes falar/ De uma grande perda/ Que eu não sei/ Se é de direita ou da esquerda”.

Nos versos seguintes, algumas palavras-chave são mencionadas, explorando a ambiguidade entre amor e política: “camarada”, “companheiro”, “mandato”, “cassado”, “deportado”, e as cores “vermelha”, “verde” e “amarela”.

Tais versos e o jogo metafórico das palavras, revelam uma simbiose sofisticada entre lirismo amoroso e ironia política, construindo uma espécie de discurso duplo: “Ó camarada, companheiro, amigo/ Ela foi embora/ E, o pior/ que foi contigo! ”.

E prossegue, falando de três golpes: um político, um violento e outro sentimental. “Para mim foi um grande golpe/ Não sei se de Estado ou armado/ Ou talvez de coração”. Estes versos desmontam o drama histórico ao reduzi-lo à dor pessoal, afetiva.

Como consequência, afirma o eu lírico: “Só sei dizer que a dor foi muito grande/ E a minha vida inteira transformou-se/ Numa enorme agitação”.  À época, a palavra “agitação” era muito empregada em discursos sobre subversão. Assim, o conflito amoroso é transposto para o cenário político vigente.

Nos três versos seguintes, o discurso do eu lírico é o de um político que teve o mandato cassado e foi deportado para viver longe do país: “Já que assim termina o meu mandato/ Pois eu fui cassado e deportado/ Pra bem longe de você”.

Depois da ironia, a canção é finalizada de forma lírica: “Ó minha amada, quero lhe dizer/ Que sem o seu amor/ Eu posso até morrer – laialaiá/ Ó minha amada, eu quero lhe dizer/ Que sem o seu amor/ Eu posso até morrer”. O “laialaiá”, que aparece na gravação de Elis Regina, introduz leveza, suaviza a tensão e reforça o caráter mordaz da canção.

Neste contexto, uma leitura crítica da letra de “Manifesto” e uma audição atenta permitem perceber a sutil ironia como estratégia discursiva em um ambiente de transição, em que alguns compositores da MPB começavam a sofisticar suas metáforas para abordar temas delicados, sem resvalar para o comprometedor plano panfletário.

Por fim, é oportuno ressaltar a qualidade dos arranjos instrumentais, a extensão vocal de Elis Regina, sua dicção perfeita e interpretação dramática, valorizando cada verso, alternando momentos de contenção com explosões vocais carregadas de ênfases e significados.

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