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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Relatório divulgado pela organização não governamental Repórteres sem Fronteira (RSF) destaca o combate à desinformação e o incentivo à educação midiática como medidas para garantir um jornalismo íntegro e de confiança pelos próximos 10 anos. O documento recém-lançado contribui para os debates sobre a profissão, lembrada nesta terça-feira no Brasil, como o Dia do Jornalista (7).
A instituição apresenta quatro cenários hipotéticos sobre onde estará o jornalismo no Brasil daqui a uma década, além de seis estratégias possíveis para que a sociedade possa contar, ao fim desse período, com um jornalismo íntegro e de confiança. Os cenários, construídos pelo Laboratório de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Lab-GEOPI) da Unicamp para a RSF, se diferenciam pelo domínio das plataformas digitais, pelo fortalecimento do jornalismo, pela alta fragmentação da informação e até pelo fim da atividade jornalística.
Segundo Sérgio Lüdtke, coordenador de Projetos da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e editor-chefe do Projeto Comprova, o futuro tende a ser uma combinação desses cenários, e não um modelo isolado. Ele integrou o comitê consultivo do projeto.
As estratégias propostas incluem tornar o método jornalístico amplamente difundido, enfrentar a desinformação, fortalecer redes de cooperação entre veículos e universidades, diversificar modelos de financiamento, investir em educação midiática e defender a regulação do jornalismo.
De acordo com a entidade, os desafios atuais passam pela falta de clareza entre conceitos como notícia, opinião, desinformação e propaganda, especialmente em um ambiente político polarizado. Soma-se a isso o fato de que as pessoas tendem a reforçar suas convicções com base em conteúdos selecionados por algoritmos das redes sociais.
Para Artur Romeu, diretor do escritório da RSF para a América Latina, o método jornalístico é central para a compreensão da realidade e para o debate público, sendo essencial à qualidade democrática.
Na avaliação de Samira de Castro, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, o cenário mais provável é o de domínio das plataformas digitais. Ela destaca que, atualmente, tanto grandes veículos quanto mídias independentes dependem dessas plataformas para distribuir conteúdo, o que torna o jornalismo refém de políticas algorítmicas pouco transparentes.
Artur Romeu reforça que o jornalismo tem passado a operar dentro de regras estabelecidas por grandes empresas de tecnologia, tornando-se dependente desses canais de distribuição. Esse processo, chamado de “plataformização”, contribui para a desvalorização do jornalismo, que passa a competir diretamente com desinformação e propaganda.
Sérgio Lüdtke alerta ainda que o avanço da inteligência artificial pode intensificar esse cenário, substituindo jornalistas em atividades como apuração e produção de textos.
Além disso, o relatório aponta outros riscos, como a polarização política, a concentração histórica da mídia no Brasil, o baixo nível de educação midiática e a insuficiente escolaridade da população. Também são citados problemas do cotidiano da profissão, como a desregulamentação, a precarização das redações, perseguições a profissionais — especialmente mulheres —, censura, autocensura, substituição de jornalistas por influenciadores e a priorização de conteúdos superficiais em busca de audiência.
O documento defende maior atuação do Estado na regulação das plataformas digitais, no apoio à atividade jornalística e na garantia de acesso à informação, especialmente em regiões consideradas desertos de notícia. Também destaca a importância da aproximação com universidades, tanto para atualizar a formação dos profissionais quanto para ampliar a educação midiática.
Uma das propostas é a criação de selos de confiabilidade, que indiquem ao público que determinado conteúdo jornalístico passou por processos rigorosos de apuração e verificação.
O relatório ressalta que essa agenda não é apenas dos jornalistas, mas de toda a sociedade, ao garantir o direito de acesso à informação livre, plural e confiável.
Nesse contexto, o documento destaca o papel da Agência Brasil e de agências estaduais como importantes centros de curadoria e distribuição de informações verificadas, com grande alcance e capacidade de abastecer veículos locais e hiperlocais.
A organização Repórteres sem Fronteira tem sede em Paris, conta com 14 escritórios regionais e uma rede de correspondentes em cerca de 150 países. Além do Brasil, um estudo semelhante foi realizado na França. Segundo Artur Romeu, os resultados são bastante próximos, indicando que os desafios e possibilidades do jornalismo estão ligados a tendências globais.
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