Fechar
O que você procura?
Blogs e Colunas
Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
Continua depois da publicidade
Desde que o ser humano começou a habitar o planeta Terra, alguns desses viventes procuraram fixar sinais de sua passagem efêmera como forma de deixar um legado à posteridade.
Muito antes das primeiras escritas cuneiformes em blocos de argila ou em papiros, muito antes da invenção do papel e das prensas, assim como das telas digitais, as superfícies rochosas já serviam de suporte para a denominada arte rupestre, caracterizada por cenas de caçadas e registros simbólicos preservados em sítios arqueológicos.
Ali, nas cavernas e paredões, o gesto de riscar, desenhar, esculpir ou gravar não tinha o caráter de afronta ou de vandalismo, mas sim uma forma de comunicação, de rito e de preservação da memória.
Séculos depois, a escrita rudimentar e as garatujas migraram das rochas para os pergaminhos, das paredes dos templos para os livros, e destes para os jornais, revistas e, nos dias atuais, para os meios eletrônicos.
Ainda assim, a parede nunca perdeu completamente a sua função de suporte artístico, seja para belos murais, seja, lamentavelmente, para atos de pichação. É nesse ponto que se impõe uma distinção necessária entre o chamado grafite e a pichação.
O grafite, quando bem elaborado, muitas vezes pode ser utilizado para revitalizar espaços urbanos degradados pela ação de pichadores. Por outro lado, a pichação, na forma como se apresenta nos espaços urbanos, não respeita o pacto social da boa convivência, agride o visual, não é bela e não traz, em si, qualquer mensagem edificante.
No Brasil, assim como em outros países, as pichações se espalham por praças, viadutos, monumentos históricos, portões residenciais, muros e até placas de sinalização de trânsito — estas últimas, com risco potencial à segurança pública.
Nas universidades públicas é comum ver pichações que estão longe de representar a continuidade da nobre arte deixada pelos ancestrais, pois esteticamente são precárias e não passam de repetições obsessivas de slogans descolados do mundo extra-acadêmico. Na maioria dos casos, a pichação trata-se apenas de afirmações individuais ou de militância feita à revelia do interesse público.
Sob o ponto de vista social, há de se compreender que o espaço público é um bem coletivo, construído com recursos públicos ou privados, e que a degradação desses espaços representa prejuízo material, empobrecimento paisagístico e, não raras vezes, desrespeito à memória histórica.
Assim, do traço rupestre que buscava dialogar com o sagrado ao spray apressado que fere a estética, há um abismo ético e simbólico profundo. Enquanto as inscrições pré-históricas são protegidas e vistas como patrimônio da humanidade, a pichação contemporânea continua a desafiar os gestores públicos e a sociedade civil.
Afinal, cada cidade é guardiã de sua história e de sua memória — e cabe a todos decidir se quer ser um livro legível ou um amontoado caótico de rabiscos sem sentido.
Atenção: Os artigos publicados no ParaibaOnline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo ao exercício da pluralidade de opiniões.
Continua depois da publicidade
© 2003 - 2026 - ParaibaOnline - Rainha Publicidade e Propaganda Ltda - Todos os direitos reservados.