Economia

Brasil acaba mais de 320 mil vagas de gerente e diretor em poucos anos

Da Redação*
Publicado em 17 de fevereiro de 2026 às 20:34

carteira de trabalho

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

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O topo da pirâmide corporativa brasileira está ficando mais estreito.

Enquanto o mercado de trabalho geral mostra sinais de aquecimento, um movimento silencioso de “enxugamento” eliminou 322 mil vagas de alta gestão (gerentes e diretores) entre 2020 e 2026.

O fenômeno reflete uma mudança drástica na forma como as empresas operam na era pós-modernização.

Dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que em 2025 o saldo das contratações para esses cargos de liderança ficou negativo em 112,3 mil postos.

O movimento mostra um descolamento do mercado de trabalho como um todo: nos últimos seis anos, foram geradas 9 milhões de vagas com carteira assinada no Brasil, 1,2 milhão delas em 2025.

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Os cortes de vagas de gerência e diretoria vêm se intensificando desde 2023, quando foram eliminadas 89,6 mil dessas ocupações; em 2024, foram cortadas 98,3 mil.

O encolhimento no número de líderes pode ser explicado por algumas razões, e uma das principais é o caminho sem volta da horizontalização dentro das empresas, que reduz a quantidade de níveis hierárquicos nas grandes corporações.

Esse processo já vinha acontecendo na década passada, mas ganhou fôlego em meio ao forte impulso recente da digitalização, que facilita a fiscalização e gestão, permitindo que menos gerentes supervisionem mais pessoas.

“Nos anos 1980 e 1990, havia estruturas extremamente verticalizadas e compartimentadas. Isso foi mudando”, diz Leonardo Berto, gerente regional da consultoria de recrutamento Robert Half.

“Hoje há menos áreas generalistas, e mais especialistas, mais líderes de projetos. Os processos passaram a ser mais modernos e integrados”, diz.

A pandemia acabou estimulando esse processo com a melhoria nas infraestruturas tecnológicas das companhias, com grandes avanços no desenvolvimento de softwares de gestão.

“Muitas empresas reduziram seus corpos diretivos afunilando níveis, reduzindo em um, dois e até três escalões para cortar custos”, diz Lucas Oggiam, diretor executivo da Michael Page. “Antes, uma pessoa se dedicava somente a uma atividade, e hoje não é estranho que se dedique a duas. Acumula-se mais responsabilidade em menos indivíduos.”

Mas esse é apenas um dos aspectos que explicam os cortes das posições de liderança. Outro motivo é o efeito da taxa de juros elevada por um longo tempo sobre as empresas brasileiras. Desde fevereiro de 2022, a taxa básica de juros (Selic), hoje em 15% ao ano, está em dois dígitos.

“Em um cenário de juros altos e restrição de investimentos, você prioriza as funções essenciais, colocando em primeiro lugar a manutenção das operações”, diz Berto.

“Já em um cenário positivo, em que vai investir, a empresa provavelmente está gerando novos empregos, e isso exige liderança estratégica.”

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Para os especialistas, a decisão de cortar cargos de gerência e diretoria acaba sendo muito influenciada pelo cenário macroeconômico.

“Nos últimos anos, o mundo ficou de ponta cabeça por causa da Covid, e o mercado se ajustou, focando na rentabilidade e na gestão de caixa. Isso, com os juros altos, tem sido um desafio para parte das empresas”, diz Oggiam.

Outro ponto é que muitas multinacionais sofreram com uma sucessão de crises que se acumularam nos últimos anos.

Além da pandemia, houve a invasão da Ucrânia pela Rússia, os conflitos no Oriente Médio e, mais recentemente, a imposição de tarifas a produtos importados pelo presidente americano, Donald Trump.

Quando empresas americanas ou europeias decidem eliminar determinados cargos, essas medidas costumam ser replicadas por suas filiais no Brasil.

“Após a pandemia, as cadeias de suprimentos começaram a se desestabilizar, e isso levou ao achatamento das estruturas”, diz o especialista da Michael Page. “Houve uma cadeia de fatores que fizeram com que as empresas tivessem que optar pela sobrevivência, cortar a mão para não cortar o braço.”

Apesar dos cortes de cargos de liderança, a avaliação é que esses gerentes e diretores não ficaram sem emprego. Para Berto, há uma redistribuição de vagas, com as pessoas encontrando outros caminhos de carreira.

“A mão de obra passou a ser absorvida de outras formas, como em funções de consultor ou analista, que envolvem algum nível de liderança”, diz. “Além disso, muita gente não segue mais um caminho linear e tradicional de carreira.”

*Com informações de Maeli Prado/Folhapress

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