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Jornalista, professor universitário, escritor e membro da Academia de Letras de Campina Grande.
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Os artistas brasileiros, filhos da Bahia, irmãos e nascidos no Recôncavo Baiano: Caetano Veloso e Maria Bethânia, ganharam, no último domingo, o Grammy Mundial da música com o álbum “Caetano e Bethânia ao Vivo”. Com isso, Maria Bethânia, que foi a primeira cantora brasileira a vender um milhão de discos, em 1978, torna-se agora, aos 79 anos, a primeira intérprete da música popular brasileira a ter também esse prêmio em casa. Caetano já tinha dois Grammy Awards e ganhou o terceiro.
Mas o que me chamou a atenção foi a forma como eles receberam a notícia. Enquanto os grandes nomes da música mundial como a Lady Gaga, Billie Eilish, Olivia Dean, Justin Bieber, Sabrina Carpinter, Lola Yong estavam em Los Angeles, nos Estados Unidos, acompanhando a premiação, Caetano estava em casa, deitado na cama e assistindo desenho animado com o neto Benjamim. Maria Bethânia, por sua vez, estava em sua cidade Natal, Santo Amaro da Purificação, em pleno recôncavo, para celebrar a Lavagem de Nossa Senhora da Purificação, tradicional festa religiosa da cidade.
Os dois irmãos ficaram sabendo da vitória no Grammy 2026, porque a mulher e empresária de Caetano Veloso, Paula Lavigne, transmitiu a notícia ao marido que estava de pijama em cima da cama. E ao invés de gritar, festejar e celebrar a vitória, Caetano disse apenas: legal. E depois comunicou a conquista para a irmã Bethânia numa ligação via celular. Ela, aparentemente nem sabia que a premiação estava acontecendo. E perguntou com uma simplicidade de quem nada havia ganhado: “E já aconteceu? Eu nem me lembrava! Mas que beleza, hem!” E depois riu. Ou seja amigos, humildade, simplicidade e talento não fazem mal para ninguém.
Mas para chegar a esse estágio de equilíbrio e controle emocional Caetano passou, ao longo da carreia, por alguns estresses. E alguns deles foram respondidos nas letras de suas composições. Vou contar apenas um aqui. Na década de 1980 Caetano travou um embate polêmico e repleto de acusações com o jornalista carioca Paulo Francis, um correspondente que vivia deslumbradamente em Nova Iorque e de lá fazia seus comentários depreciativos sobre a cultura e o povo brasileiro. Ele costumava tecer muitas críticas, principalmente aos artistas baianos. O estopim maior foi quando Caetano entrevistou, em 1983 para a extinta Tv Manchete, o Mick Jagger da banda de rock inglesa Rolling Stone e Francis fez duras críticas a performance do baiano enquanto entrevistador. Numa famosa entrevista, acho que à Tv Cultura, Caetano se referiu a Paulo Francis como “Bicha amarga e recalcada”.
Bom, mas conta a história que em 1989, Caetano estava em Roma, acordou saiu às ruas e viu os carros empoeirados, perguntou a um amigos italianos de onde vinha aquela areia e esses amigos disseram que era terra trazida do deserto do Saara pelo vento. Foi nessa hora e, espantado com essa descoberta, que Caetano pegou caneta e papel e começou a compor a letra de Reconvexo especialmente para ser gravada por sua irmã Maria Bethânia, no álbum “Memória da Pele” lançado daquele mesmo ano. É uma canção que escancara o orgulho de ser brasileiro e acima de tudo de nascer e pertencer a Bahia
A música faz muitas referências ao povo e a cultura baiana. Por exemplo, cita a “novena de Dona Canô”, que era a mãe de Caetano e Bethânia; fala da “a elegância sutil de Bobô”, um atacante do time do Bahia, que se destacava pelos gols e pelo refinado toque de bola; além de citar “o Olodum balançando o Pelô”, um dos blocos afro mais importantes de Salvador, o Olodum que desce o Pelourinho durante o Carnaval… A letra ainda chama Salvador de “Roma Negra” para apontar a cidade enquanto um lugar da religiosidade afro-brasileira, mas também da resistência da negritude e de turismo étnico.
Ainda nesta canção, Caetano Veloso faz referências a artísticas universais, como a risada do artista visual de pop-art e diretor de cinema estadunidense Andy Warhol; “o suingue de Henri Salvador”, cantor, compositor e guitarrista francês de jazz e ao “preto norte-americano forte, com brinco de ouro na orelha”. Para pessoas como o Paulo Francis e tantas outras que vivem por aí esbanjando arrogância e estrelismo, seja em Nova York ou nos cafundós dos Judas, Caetano apenas afirma: “meu som te cega, careta, quem é você?”.
Jurani Clementino – Campina Grande – PB 04 de fevereiro de 2026
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