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Já não me incomodo com rótulo de técnico retranqueiro, diz Mano Menezes

Da redação com Folhapress. Publicado em 19 de setembro de 2018 às 10:26.

Foto: Reprodução/ torcedor.com

LUIZ COSENZO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Há quase três anos no comando do Cruzeiro, Mano Menezes, 56, carrega o rótulo de retranqueiro. Se o adjetivo já incomodou o técnico, agora não o perturba mais.

É o que diz o cruzeirense em entrevista, lançando mão de números para definir que o seu time é “organizado”, mas não defensivo.

“Já me incomodei mais. Hoje, não me incomodo. O Cruzeiro fez gols em todos os jogos da Copa do Brasil até agora e tem o melhor ataque da Libertadores. Uma equipe que tem o melhor ataque não só se defende. Ela é uma equipe organizada”, afirma.

Em oito partidas no torneio sul-americano, o time fez 17 gols. Já no Brasileiro, sem escalar em vários jogos a formação titular, marcou apenas 19 em 25 jogos e tem o terceiro pior ataque da competição.

Independentemente do rótulo, ele declara que manterá a forma de jogar diante do Boca Juniors, nesta quarta (19), às 21h45, em La Bombonera, pela partida de ida das quartas de final da Libertadores.

Na entrevista, Mano Menezes também comenta as recentes discussões com outros técnicos. Para ele, os bate-bocas foram “cutucadinhas” que fazem parte do futebol.

O comandante do Cruzeiro afirma ainda que o futebol brasileiro não é corporativista, mas defende que haja barreiras para profissionais estrangeiros atuarem no país.

LEIA A ENTREVISTA:

PERGUNTA – Qual é a estratégia para enfrentar o Boca Juniors e toda a mística da Bombonera?
MANO MENEZES – O grande segredo é o time do Boca. A Bombonera é mais mística porque o Boca faz questão de divulgar isso, de querer que o adversário se intimide quando joga lá. Se você não jogar, dificilmente vai ganhar lá. Você não pode se omitir de jogar. Quando o Boca está bem é difícil jogar lá, assim como é difícil enfrentar o Santos quando ele está bem na Vila, como era enfrentar o Grêmio do Felipão no Olímpico, o São Paulo do Telê [Santana] e do Muricy [Ramalho] no Morumbi.

PERGUNTA – Como você analisa o seu momento no Cruzeiro?
MANO MENEZES – É minha segunda passagem. Nas duas vezes que assumi, o Cruzeiro estava numa situação dramática. O elenco, porém, sempre foi de muita qualidade. As reações aconteceram em cima de uma reorganização. Nesta temporada, demos um salto, porque foi possível manter a maioria dos jogadores e acrescentar mais alguns, dentro do que tínhamos planejado.

PERGUNTA – Por que você decidiu ficar no Cruzeiro no fim do ano passado, quando recebeu uma proposta do Palmeiras?
MANO MENEZES – Eu sempre preguei que a continuidade é algo diferenciado para os treinadores. Já tinha saído uma vez do Cruzeiro para ir à China porque não tinha como dizer não. Não seria correto eu voltar para o Cruzeiro e, de novo, não dar sequência ao trabalho. No ano passado, ganhamos a Copa do Brasil, fizemos um bom Brasileiro. Então, a tendência de fazer um trabalho de evolução e brigar pelo título era grande. Se aborto o trabalho de novo e saio, estaria jogando fora o que ajudei a construir.

PERGUNTA – Você se incomoda com o rótulo de retranqueiro?
MANO MENEZES – São rótulos criados para diminuir as coisas que são bem feitas. Já me incomodei mais. Hoje, não me incomodo. A imprensa precisa evoluir, assim como os jogadores e os técnicos. Eu acredito muito em equipes organizadas, e as minhas são assim. Quando você vê um time meu jogando, vai ver essa organização. O Cruzeiro fez gols em todos os jogos da Copa do Brasil até agora, tem o melhor ataque da Libertadores. Uma equipe com esses números não só se defende.
A França ganhou a Copa jogando de maneira organizada. A Croácia jogou também dessa maneira. Não atacando tanto, mas de maneira correta e em momentos certos.

PERGUNTA – Por que os clubes brasileiros dão prioridade para a Libertadores e a Copa do Brasil?
MANO MENEZES – É uma situação que vejo como coerente. Você se classifica para a Libertadores para tentar ser campeão. À medida que avança, é coerente priorizar essa competição porque não é todo ano que se disputa. A Copa do Brasil criou uma situação atípica. Além de ser um atalho com menos jogos para chegar à Libertadores, principalmente para quem entra diretamente nas oitavas, a competição tem uma premiação [aproximadamente R$ 66 milhões para o campeão] bastante diferenciada, que se tornou muito atrativa. No nosso caso específico, não abrimos mão do Brasileiro. Se tivéssemos dois a cinco pontos dos líderes, talvez estivéssemos priorizando mais. É praticamente impossível ganhar as três. O Brasileiro é muito desgastante, você faz viagens longas, com sequência de jogos quarta e domingo, enquanto outros clubes não têm essa sequência.

PERGUNTA – Como vê o nível do futebol brasileiro?
MANO MENEZES – Nossos times estão sempre em formação. Não existe milagre. Você quase nunca consegue fazer uma terceira etapa de trabalho, que é acrescentar um jogo mais bonito ou mais coletivo. Somos heróis, porque a cada seis meses mudamos o time, e a cada três muda o técnico. E quando um jogador nosso fica em evidência, é vendido.

PERGUNTA – Como você analisa o trabalho do Tite na seleção?
MANO MENEZES – A seleção teve uma evolução grande com o Tite, mas não era, disparada, a melhor do mundo, a ponto de chegar na Copa e ganhar com os pés nas costas, como a gente passou a achar. Tinham outras seleções que poderiam ganhar o Mundial, como a Bélgica, que tem jogadores nos principais times do mundo. A França já vinha de um trabalho de seis anos. Se mantiver o trabalho e evoluir, talvez, na próxima Copa do Mundo, seremos mais felizes e poderemos ganhar como perdemos essa, no detalhe.

PERGUNTA – Em 2012, você teve o seu trabalho interrompido na seleção. Tem o desejo de voltar?
MANO MENEZES – Não é uma coisa que me move mais. O que pode me levar de novo para a seleção será alguma coisa mais significativa do meu trabalho. Se não fizer algo significativo, não tem sentido voltar.

PERGUNTA – Recentemente, você teve pequenas discussões com Renato Gaúcho, Alberto Valentim e Marcelo Oliveira. Como foram essas discussões?
MANO MENEZES – Da mesma maneira que vou jogar em Porto Alegre e, ao empatar com o Grêmio, o Renato não gosta da maneira da minha equipe jogar e dá uma espetadinha, eu tenho o direito de responder. Responder sem ofensa, na categoria. Isso não é briga. São coisas dentro do jogo. É que agora tudo dá repercussão. Não tenho problema com nenhum deles.

PERGUNTA – Os técnicos brasileiros são corporativistas?
MANO MENEZES – O Brasil é o país menos corporativista no futebol. Nós recebemos bem todos os estrangeiros. Inclusive, já escolhemos estrangeiros como o melhor jogador do país. Em outros lugares isso não aconteceria. Com os técnicos acontece a mesma coisa. Mas temos opinião também. Por exemplo, existem barreiras para os treinadores brasileiros trabalharem em outros continentes. Eu acho que para os estrangeiros trabalharem aqui também é necessário [ter barreiras]. Tem que estabelecer os mesmos critérios. É coerência.

PERFIL – Mano Menezes, 56
Natural de Passo do Sobrado (RS), ele começou a carreira como técnico em 1997. Em 2005, assumiu o Grêmio e conquistou a Série B do Brasileiro. Foi bicampeão da competição com o Corinthians, em 2008. Tem dois troféus da Copa do Brasil: Corinthians, em 2009, e Cruzeiro, em 2017. De 2010 a 2012, treinou a seleção brasileira

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