Fechar

Fechar

Historiador analisa evolução do futebol de Campina na década de 70

Da Redação com Ascom. Publicado em 18 de agosto de 2018 às 10:43.

Foto: ascom

Foto: ascom

O professor de história, Francisco Ramos, fez um trabalho sobre a evolução do futebol de Campina Grande na década de 70 e início de 80. Confira os principais pontos da pesquisa, na qual ele entrevistou ex-jogadores, ex-dirigentes e atuais.

Procuramos mostrar o futebol profissional em Campina Grande durante a década de 1970 e início de 1980, nossas fontes pesquisadas foram obras literárias sobre o surgimento do futebol no Brasil e no mundo, entrevistas, como também documentários de sites da web, utilizados como representação teórica do futebol profissional campinense nos anos 1970.

Nesse sentido, nosso trabalho analisa a participação dos jogadores oriundos da cidade, que se dedicavam as suas equipes com garra e amor. Fazendo levantamento das seguintes indagações: Por que os dirigentes do Treze Futebol Clube e do Campinense Clube investiam em seus jogadores da base? Por que o bairro de José Pinheiro era considerado um “celeiro de craques” de Campina Grande?

É lamentável termos de ver hoje um grande comércio dentro do futebol profissional, pois os “empresários” negociam os jogadores em sua fase embrionária para a prática desta modalidade, afastando dessa maneira o atleta de sentir o carinho pela camisa do seu time.

O conteúdo que será abordado na pesquisa irá veicular o futebol profissional em Campina Grande – PB de 1970 a 1980. O futebol neste período era praticado com amor, garra e não havia o interesse exacerbado pelo dinheiro, pois a participação dos “empresários” dos atletas era apenas para auxiliar nas negociações, os quais ficavam com um percentual financeiro, diferente de hoje, que ficam com quantias fabulosas.

Um dos principais “empresários” deste período, Janos Tatray (in memoriam), fez o seguinte relato: “Nunca ganhei dinheiro com futebol, não fiquei rico, (…) Olha pra mim, se eu tivesse ganhado dinheiro estava desse jeito, morando onde eu moro?” 1 . As agremiações investiam nos jogadores da base que, após se destacarem como profissionais eram negociados com outros clubes da região do Nordeste em particular, angariando dessa forma receitas para seus times, por serem detentores de seus atestados liberatórios.

Por que será que os dirigentes do Treze Futebol Clube e do Campinense Clube investiam em seus jogadores da base? Porque o bairro de José Pinheiro era considerado o maior “celeiro de craques” de Campina Grande? Hipoteticamente, os diretores dos clubes profissionais campinenses investiam nos atletas da base devido à paixão e pelo orgulho que os mesmos sentiam por estas agremiações, e não visavam receber salários altíssimos, como também se transformavam em investimentos para os times.

O bairro de José Pinheiro, devido a sua grande população e por ser o maior da zona leste da cidade, como também possuir uma das principais praças de futebol, o Estádio Municipal Plínio Lemos, despertava o interesse dos jogadores amadores das localidades circunvizinhas. O futebol é capaz de reunir todas as pessoas sem haver distinções de classe social, como também envolve todos os meios de comunicação, os atletas de renome tornam-se ídolos e referência para as crianças, adolescentes e jovens que pretendem tornarem-se craques e terem uma vida promissora como jogadores.

Desde criança, nos campos e nas quadras, nas ruas, praças e nas escolinhas de futebol, vemos jogadores e torcedores. Tudo isto também existia na cidade de Campina Grande, excetuando as escolinhas de futebol, pois ainda não havia na cidade, na década de 1970 e no início de 1980, onde o sonho desses jovens era o de tornarem-se profissionais. Muitos atletas amadores da periferia campinense foram revelados neste período e se profissionalizaram nas três equipes principais da cidade. Pois, segundo Goff (1990, p. 426):

“O estudo da memória social é um dos meios fundamentais de abordar os problemas do tempo e da história”. No que se refere à abordagem, trata-se de uma pesquisa bibliográfica a partir de levantamentos de referências já publicadas em trabalhos científicos sobre o futebol, como também entrevistas. Serão utilizados dados divulgados nos sites da web sobre documentários em relação ao tema. Procurou-se, com interferência nesses levantamentos de dados e demais matérias disponíveis, tentar esclarecer o futebol profissional na cidade paraibana de Campina Grade durante os anos de 1970 a 1980.

Foto: face/Edvaldo Araújo: Ex-jogadores Paulo César, Capilé e Edvaldo Araújo

A HISTORICIDADE DO FUTEBOL EM CAMPINA

O futebol foi introduzido em Campina Grande no ano de 1913, quando Antônio Fernandes Bioca trouxe a primeira bola de futebol e, juntamente com alguns amigos, organizou um grupo que começou a praticar num pequeno espaço onde hoje se localiza a Rua João Pessoa, no centro da cidade. Surgindo dessa maneira as duas agremiações profissionais da cidade, o Campinense Clube e o Treze Futebol Clube.

Na década de 1970, foram criadas duas torcidas organizadas na cidade de Campina Grande a Torcida Organizada da Raposa (TORA), do Campinense Clube, e a Galera Unida do Galo (GUGA), da agremiação Treze Futebol Clube.

Todas tinham o mesmo objetivo de incentivar os atletas de seus clubes. E mesmo sem as equipes contarem com os famosos jogadores medalhões, ou seja, aqueles que eram contratados com salários altíssimos, os torcedores sentiam as mesmas emoções com os jogadores formados nas bases.

Ao ser indagado sobre as disputas das partidas do Treze Futebol Clube e do Campinense Clube nos anos 1970, quando esses clubes eram formados apenas com jogadores que subiram de suas bases, o torcedor Paulo do Peixe, que vivenciou esse momento, faz o seguinte relato: “Eram jogos disputados com amor a camisa naquela época ninguém beijava escudo do time para aparecer como hoje e dava o máximo pela sua equipe”. Outro torcedor deste mesmo período, Cícero Ramos, afirma o seguinte:

Eram formados pelos jogadores prata da casa dos bairros de Zé Pinheiro e do São José eles jogavam com raça, garra e amor à camisa, diferente dos jogadores de hoje que jogam pensando no dinheiro e os atletas pertenciam aos clubes que lhes formaram e não aos empresários como hoje.

Diferentemente de hoje, onde alguns torcedores só apoiam seus clubes se os mesmos fizerem contratações de jogadores renomados, como também de algumas torcidas organizadas que só procuram fazer desordens dentro e fora dos estádios de futebol. O Campinense Clube, em 1972, com jogadores formados em sua base, além de consagrar-se bicampeão paraibano de futebol, chegou a ser vice-campeão da Série B do Campeonato Brasileiro deste mesmo ano.

No nosso campo de visão, valia muito mais o titulo Paraibano e era até natural pensarmos assim, naqueles anos 70. Talvez por isto, a competição tenha caído completamente no esquecimento e na cotação de valor dos rubronegros por 26 longos anos.

É uma de suas maiores façanhas em sua história, pois era um clube formado com jogadores oriundos da cidade de Campina Grande – PB, conhecido como o time de “Zé Pinheiro”, pois a maioria do elenco morava neste bairro, os jogadores recebiam salários baixíssimos e conseguiram chegar tão longe. Isto prova o amor e a vontade de vencer por parte desses atletas profissionais. Por que os dirigentes dos clubes profissionais de Campina Grande – PB, na década de 1970, optaram em investir nos jogadores “prata da casa”, ou seja, de sua base?

O ex-jogador profissional que atuou no Treze Futebol Clube e no Campinense Clube, Sandoval, faz o seguinte comentário sobre o investimento dos dirigentes nos atletas da base: Antigamente se dava muito valor a base que era chamada o time de São José (Treze) e o time de Zé Pinheiro (Campinense), na época que eu joguei o elenco era formado quase cem por cento pela base tinha um ou dois jogadores talentosos com experiência que servia para nos orientar dentro de campo. A gente jogava muito por amor e tínhamos uma fidelidade à camisa que vestia seja ela do Galo ou da Raposa, o salário era pouco e quando os dirigentes atrasavam o pagamento ninguém fazia greve e continuava os treinamentos. Neste período prevalecia a garra, o amor e a dignidade do atleta profissional pela profissão que o mesmo escolheu, mas por outro lado os dirigentes que investiam nas categorias de base do clube recebiam retorno financeiro quando negociavam estes jogadores para outros centros do país.

O ex-supervisor do Campinense Clube, José Santos (“Super Zé”), o qual exerceu esta função de 1968 a 1977, onde conquistou cinco títulos consecutivos, ou seja, o Penta campeonato paraibano de futebol de Profissionais, indagado por que o bairro de José Pinheiro foi considerado o “celeiro de craques” da cidade neste período, por ter revelado muitos atletas para a equipe profissional, o mesmo faz a seguinte explanação:

O Campinense tinha sempre uma grande equipe de amadores, tinha o Flamengo de Zé Pinheiro e o Atlético de Santo Antônio esses times formavam muitos atletas na época. Em 1968 eu fui convidado para ser diretor de esporte de amadores do Campinense e consegui o tri campeonato de amadores da cidade. A gente selecionava os jogadores na quarta- feira e quinta-feira Zé Ireno que era treinador do sub 20 treinava antes dos profissionais e ficavam alguns para completar a equipe principal e assim foi formando o Campinense onde 80 por cento eram jogadores do bairro de Zé Pinheiro exemplo de Bidoreco, Vavá, Deca, Valnir, Pedrinho Cangula,Miro, Ivo e Dão que com 16 anos de idade foi titular no Campinense. Hoje a gente sente muito porque os principais clubes profissionais da cidade não investem mais nos jogadores amadores.

Neste período, além das equipes amadoras citadas pelo supervisor José Santos, a zona leste contava com as equipes do Paraná, do bairro de Monte Castelo, do Onze da Vila, do bairro Castelo Branco, do Confiança e do Renascença, do bairro de José Pinheiro, esta última forneceu os jogadores Jairo e Pedro Furacão para a equipe do Treze Futebol Clube.

As equipes do Treze Futebol Clube e do Campinense Clube desistiram das disputas do Campeonato Paraibano de Futebol Profissional de 1970 sob alegação de prejuízo em suas finanças e optaram em participar do Torneio Mistão 70, promovido pela Liga Campinense de Futebol (LCF) paralelo à competição oficial promovida pela Federação Paraibana de Futebol (FPF). Veja a reportagem do blog do Campinense:

O meia Assis Paraíba surgiu da base do Treze Futebol Clube na década de 1970 e em 1974 foi negociado com o time do Tiradentes, que na época era uma das melhores equipes do Nordeste. No ano seguinte ele foi transferido para o Sport Clube do Recife e foi considerado o melhor jogador em sua posição, e no ano de 1979 foi convocado para a Seleção Brasileira.

Em 1975, aconteceu uma cisão entre os dirigentes do Campinense Clube, liderada pelo empresário Lamir Motta, e formaram o time da Sociedade Desportiva Borborema (O Gavião). Veja a reportagem de Retalhos Históricos de Campina Grade: A noite de 11 de outubro de 1975 foi marcante para a Desportiva Borborema, quando uma programação selou a fundação da nova agremiação futebolística, numa reunião solene com direito a girândolas, balões e coquetel à imprensa e convidados.

Nela, constaram ainda a eleição da primeira diretoria e assinatura da escritura do terreno. Com as cores branco, azul e vermelha e adotando como símbolo um gavião. Com a eleição e a posse dos dirigentes, o clube partiu para a formação de seu elenco Pelo menos 12 atletas foram contratados, boa parte deles da Portuguesa de Desportos. Sílvio e Jorge Luiz, goleiros, Tinteiro, Bispo, Mazinho, Radar.

Os dirigentes da Desportiva optaram em contratar jogadores que atuavam no Sudeste brasileiro e na primeira participação no Campeonato Paraibano de Futebol Profissional em 1976 conquistou o vice-campeonato, perdendo a decisão para o Botafogo, em disputa na cidade de João Pessoa. Isto provou a força dos ex-diretores do Campinense Clube, que eram membros da alta burguesia campinense e fazia jus à denominação de dirigentes cartolas. Investiram suntuosas quantias em contratações de atletas que recebiam salários fora da realidade do futebol da cidade.

No final da década de 1970, a diretoria do Campinense Clube passa a investir em jogadores de outros centros do Brasil, deixando de lado a maioria dos jogadores da base. O atleta Tetéu, um dos poucos que subiram para o time profissional, relata o seguinte: “Parou de investir na base porque muitos só tinham interesses em negociar com os jogadores de outros estados do que investir nos chamados prata de casa, pois demorava formar o jogador”. Alguns dirigentes passaram a fazer agiotagem na comercialização com jogadores intermunicipais e interestaduais. Mostrando dessa forma os capitalistas que eram.

Dois jogadores da base do Campinense deste período abandonaram suas carreiras e enveredaram por profissões distintas no caso de Evandro Reis e Capilé, o primeiro optou pelo mundo da comunicação tornando-se jornalista e o segundo trilhou pelo caminho da música como cantor.

Em 1973, um grave acidente aconteceu com a equipe do Treze Futebol Clube, quando retornava de um jogo amistoso realizado no estado de Pernambuco. O ônibus que transportava o time trezeano acabou batendo em um caminhão carregado de pedras e o jogador Josa (in memoriam) perdeu as duas pernas, deixando o mesmo impossibilitado de seguir sua brilhante carreira. O atleta surgiu da base do clube, a qual era conhecida como o Galinho.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta pesquisa foi de fundamental importância no histórico do futebol profissional na cidade de Campina Grande – PB durante a década de 1970, pois relatou que os jogadores profissionais jogavam com bastante garra e amor nas suas equipes, e não estavam preocupados em receber salários altíssimos, se comparados aos pagos atualmente. E os clubes eram detentores de seus atestados liberatórios, podendo negociá-los e ficar com o lucro da transação comercial, gerando dessa forma receitas em suas finanças.

Por este motivo os dirigentes do Treze Futebol Clube e do Campinense Clube acharam por bem investir nos atletas da base. Os “empresários” dos atletas neste período tinham apenas a função de intermediários para negociá-los com outras equipes e não obtinham lucros exagerados como hoje.

Atualmente qualquer jogador de futebol tem um representante encarregado de fazer sua transferência para qualquer equipe que ofereça vantagens para ele. Na negociação o mesmo recebe comissão milionária.

O trabalho contribuiu no resgate da memória do futebol profissional campinense deste período, pois revelou o afeto e a bravura destes profissionais da bola e o interesse dos diretores em investir nos atletas da base das duas maiores equipes da cidade. Desta forma propomos aos leitores refletir e se interessar por obras que retratem essas temáticas, para poder analisar mais o valor dos jogadores em processo de transição entre categoria de base e profissional.

Matérias Relacionadas
Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube