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Você foi muito ao Girassol?

Josemir Camilo. Publicado em 15 de fevereiro de 2018 às 7:51

Josemir Camilo de Melo (*)

(Por Júlia Kissy França Bandeira)

Posso dizer, sem intenção de soar arrogante, que fui eu quem mais foi ao Girassol!

Eu fui ao Girassol quando ainda era à La Carte, quando os pratos eram de barro e eu escrevia as comandas com uma caligrafia recém-alfabetizada, atendendo os clientes com janelinhas no sorriso.

Eu fui ao Girassol no lançamento do Guaraná Diet! Que emoção! E na sua retirada, claro, por que, dentre tantas outras “porcarias”, Tetê se recusou a servir “esses produtos químicos” aos clientes. Está para abrir, um restaurante onde o próprio proprietário (com a licença da aliteração) diz ao cliente: “Você colocou muita comida. Coloque metade neste pires e vá completar o espaço do prato com salada!” E olhe que nesta época já era self-service no quilo! Salada não pesa! Mas, enfim, a intenção era essa…

Eu fui ao Girassol que tinha um pé de carambola no quintal. E um de mamão também. Era assim que eu comia estrelinhas fazendo bolhas com os galhos-canudos e o detergente estrategicamente furtado da cozinha. Ah! A cozinha! Quantos aromas! E aquela mesa gigante no centro, da altura dos meus olhos e que, gentilmente, ia abaixando com o passar dos anos para me revelar os sabores em cima dela.

Eu fui ao Girassol quando, na mesma calçada, abriu, imponente, o La Suissa. Que competição injusta! Mas que na verdade era uma simbiose perfeita. Sinceramente, o que seriam deles sem nós?!? Que direito tem você de comer seu brigadeiro, sua torta, seu pudim, se não almoçou o seu brócolis? É igual à salada: pesa menos (pelo menos, na consciência.)

Eu fui ao Girassol quando mudamos de casa, quando com preguiça ajudei na arrumação e comemos pizza no final (por que essa sim foi a parte memorável!). Tão memorável quanto as mil e quinhentas placas que o restaurante teve ao longo dos anos, por que a lâmpada queimou, por que a chuva derrubou, por que o pintor fez errado, por que ficou torta, por que enferrujou, por que ficou pequena demais, grande demais… Até que a pintamos, nós mesmas. E ficou linda!

Eu fui ao Girassol em todas as refeições, embora só o almoço fosse servido aos “mortais”.

Eu fui ao Girassol quando, com fome, abria a geladeira de minha casa e uma voz superior vinha da sala dizendo: “Não coma isso ou aquilo por que é do restaurante!” E a única opção que restava eram cinquenta maçãs na gaveta dos legumes… Quantas vezes você abriu a geladeira da sua casa e viu cinquenta maçãs? Você já teve, na sua fruteira, trinta laranjas? Não é todo dia que a gente esbarra com dez abobrinhas de vez!

Eu fui ao Girassol também, quando eu chegava do trabalho à noite e encontrava aquela quentinha com o que eu mais havia gostado do almoço… O frango grelhado e os legumes gentilmente viravam canja!

Eu fui ao Girassol quando ainda abria aos sábados.

Eu fui ao Girassol quando minha avó sentava numa mesa no fundo e fazia um crochê. Quando todo mundo da família entrava e saia ao ponto de você achar que está em casa ou achar que é de casa quem não é. Mas que no fundo, acaba sendo.

Eu fui ao Girassol com amigos por que eles achavam o restaurante o máximo quando eu, no fundo, torcia pra que eles quisessem ir no Chinês, pra eu poder dar uma variada…

A verdade é que eu fui ao Girassol antes mesmo dele abrir!

Eu fui ao Girassol quando ninguém sabia o que era centeio, tofu, feijão azuki, e tudo isso que os inocentes chamam de novidade hoje. (E eu, inocente por muitos anos, achando que caldo verde era só verde…) Suco verde?!? Bebo há 37 anos! Detox é modismo. E painço não é só comida de passarinho, não! Missô, lentilha, shitake, gergelim, farinha de arroz… Isso tudo, na minha opinião, é comida que demorou a chegar ao supermercado!

Eu fui ao Girassol e sentei em todas as mesas e em todas as cadeiras!

Eu fui ao Girassol e peguei autógrafos de celebridades. E almocei com todas as célebres pessoas que o frequentaram desde o início. Que me achavam uma graça quando criança ou apenas não tinham outro lugar pra sentar quando eu era adolescente e sentavam ali mesmo, torcendo pra que eu virasse adulta.

Eu fui ao Girassol e encontrei o amor da minha vida! Num intervalo temporal de uns 20 anos, é verdade. Mas estávamos todo o tempo lá. O tempo, o tempo todo dando um tempo pra que a gente se visse no tempo certo.

E aí o tempo passou…

Eu fui ao Girassol quando metade dele se foi. E minhas metades correram barulhentas pelo salão até as metades das portas se encontrarem… Prefiro pensar que não fechou. Assim, eu sempre posso continuar indo. Todas as vezes que eu comer bem. E vou continuar fugindo, cada vez que eu quiser um brigadeiro, uma torta, um pudim! E indo, e saindo, e voltando correndo, e jogando tudo pra cima, e retornando, e escapando de novo… (Isso se chama efeito sanfona!)

Por que o bom do Girassol é isso: ela vai te dar uma bronca, mas você sempre pode voltar!

Volte sempre!

Gratos por 30 anos de preferência!

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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