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“Vivencial versus Armorial“

Josemir Camilo. Publicado em 4 de agosto de 2018 às 7:43

Minha memória voou esta semana com uma notícia de impacto na mídia pernambucana: “Teatro pernambucano perde Antônio Cadengue, aos 64 anos” (http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/). Falecia, vítima de infarto, o prof. da UFPE, teatrólogo e escritor, A partir desta notícia, revirei meus papéis e encontrei o momento em que conheci (à certa distância) o jovem e promissor talento, quando dirigiu o grupo Vivencial Diversiones, na peça abaixo descrita. A propósito, mantive, agora, a grafia usada no ‘jornal’, como uma ‘prática revolucionária’, então.

Até bem pouco tempo, recife só conhecia um movimento cultural, de tendências duvidosas, inclusive: o armorial. lá estava a tentativa de se criar uma nova cultura a partir da literatura, da música, da pintura e, por fim, do ballet. tudo, supostamente, popular.

por outro lado, aparecia em Olinda, outro movimento, pouco popular e menos cultural, no sentido tradicional. era um grupo de teatro, cuja base estava na expressão corporal. do teatro a filmes de super-8.

um representava a cultura bem-comportada, para consumo de engravatados, sentadinhos na plateia dos teatros da cidade e mesmo do sul; o outro, a contra-cultura, pretendendo-se marginal, polêmico. nenhum dos dois buscava o público do proletariado, principalmente este último, que por seu caráter de expressividade corporal , desafiava os comportamentos estabelecidos da moral sexual. dos dois, não é preciso dizer que o armorial teve maior público e maior divulgação, mesmo porque acobertado por uma propaganda oficial. não desafiava nada, apenas tentava conciliar o inconciliável: dois tipos de cultura emanados de classes diferentes. o melhor exemplo do fiasco foi o ballet inventado por ariano, onde se tentou utilizar um bumba-meu-boi, dentro de um quadro, onde se previa a fusão do ballet clássico com a manifestação popular.

estes dois movimentos poderiam continuar existindo com seus públicos limitados, mas o grupo vivencial acaba de dar uma virada na escolha de textos para trabalho e, com isto, assumiu uma posição anti-armorial. trata-se da encenação de sobrados e mocambos de hermilo borba filho, adaptação do livro de igual título de gilberto freyre.

apesar de terem sido amigos e trabalhado juntos no teatro pernambucano, em décadas passadas, hermilo e ariano tinham posições diferentes e, até, antagônicas. isto se percebe pelas declarações de um e de outro, e por suas obras, pelo encaminhamento que cada um tentou dar à cultura popular.

hermilo defendia a cultura do povo como um fenômeno em si. jamais tentou extrair erudição do popular. sua riqueza cultural é intrínseca, parecia nos dizer em aula, nada de penetração e transformação por mãos que não a do povo. quem quiser ver o bumba do capitão antônio pereira que vá lá na mustardinha, vê-lo dentro da lama, naquelas ruas apertadas, rodeado de pessoas fedendo a cachaça, a cheiro próprio e de pobreza. era assim a imagem que hermilo tentava nos dar.

já os trabalhos armoriais são uma extração do popular, burilados, eruditizados, para um público de classe média escolarizada, em diante. o que vale, neste movimento, é descobrir as ligações atávicas com a península ibérica, no que existe, latente, no sertão colonial. hermilo e ariano, duas visões diferentes do processo cultural nordestino. qual dos dois ficará como marco da renovação desta cultura?

quanto ao grupo vivencial que encontrou hermilo, podemos dizer que foi um momento feliz, porque, desde há muito, percebia-se a existência destas três forças da intelligentsia recifense, e, porque não dizer, nordestina, embora não se possa prever até que ponto o vivencial se ligou à interpretação hermiliana da realidade proletária. pode ser uma questão de estar na onda, já que o mestre vem sendo o prato do dia dos intelectuais daqui. só o grupo, com seus trabalhos futuros, poderá dizer o que quis fazer com hermilo, ao montar sobrados e mocambos.

esta peça, adaptada do conservador gilberto freyre, coloca as coisas no lugar. já que houve uma visão da casa grande, agora uma da senzala, ou dos mocambos. e, nisto, hermilo já toma posição.

a encenação pelo grupo vivencial, levada a efeito em condições singulares (houve até falta de músicos no acompanhamento das canções), assume, nos parece, o verdadeiro sentido que o autor, amigo dos bumbas e dos mateus, pretendeu colocar ou descobrir na própria obra gilbertiana: a luta de classes, embora num sentido debochado, satírico, sarcástico, de como hermilo assimilava o ponto der vista popular. no que não errou, por sinal. e o vivencial assumiu, completamente, neste sentido, apesar, é evidente, de pequenas falhas dignas de atores não profissionais. a experiência do grupo é totalmente válida e deverá partir para ambientes maiores, a outros teatros, a outros públicos. aliás, à guisa de sugestão, por que não aproveitar a esteira de sucesso de xica da silva e dona flor e transformar sobrados e mocambos em filme, hein Jommard? mas, só, segundo o texto e representação vivencial/hermiliana. (A Marreta, ‘jornal’ incluído na própria peça – de março/abril de 1977).

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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