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Visitando Patativa do Assaré

Jurani Clementino. Publicado em 9 de setembro de 2018 às 12:20

Há aproximadamente vinte anos, quando estava concluindo o Ensino Médio, na Escola Maria Afonsina Diniz Macêdo, as professoras de Geografia, Elcilândia Carlos e Biologia, Antonieta Máximo, organizaram uma excursão com os alunos para o município de Santana do Cariri. A ideia era visitarmos o Museu Paleontológico do Cariri e ver os peixes, além de outros pequenos animais fossilizados, nas rochas daquele município. Foi uma viagem rica em descobertas que nenhuma sala de aula seria capaz de substituir. Após a visita, quando já estávamos na estrada de volta, decidimos parar na cidade de Assaré e visitar o recém-inaugurado memorial ao seu maior poeta, Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa. Mas isso não bastava, decidimos então ir a casa dele que ficava algumas ruas depois do memorial.

Patativa estava velhinho, já tinha mais de noventa anos e aquela seria uma oportunidade única de ver, em vida, um dos maiores poetas populares desse país. Chegamos a casa dele por volta de uma, duas horas da tarde. Fomos informados por uma de suas filhas, que Patativa estava dormindo. Resolvemos, então, esperar que ele acordasse. Permanecemos perambulando pelas ruas de Assaré, até que, algum tempo depois, o poeta acordou e resolveu receber aquele grupo de alunos. Não sei por que cargas d’água eu havia rascunhado uma poesia e, com toda a coragem e atrevimento de um jovem estudante apaixonado por literatura, passei a ler aquelas versos de pés-quebrados pra nada mais nada menos que Patativa do Assaré.

Sentado numa cadeira de balanço, camisa azul, óculos escuros e cara fechada, ele me ouvia com dificuldade porque já estava quase surdo. Fiz essa transcrição literal porque, além de me lembrar perfeitamente daquele dia, ainda guardo, com carinho, a foto em que todos os alunos estão, literalmente, ajoelhados aos pés do poeta enquanto eu, corajosamente, recitava meus versos. Guardei aquele papel e procurava essa poesia há meses sem sucesso. Esses dias minha mãe enviou um cadernos meu de anotações onde ela tinha uma copia manuscrita dela. Veja o que dizia um dos versos:

Cante lá que eu canto cá”

Disse o velho Patativa

Pra falar dos imigrantes

Narrou “A triste partida”

Quantos versos ele fez

Que nos deram voz e vez

Poeta, d’alma cativa.

Ao final, ainda tive a ousadia de perguntar o que ele tinha achado. Patativa parou um pouco, pensou e disse em tom conclusivo: “É, tá rimando”. Aquele tá rimando valia mais do que qualquer coisa nesse mundo. Escutar um “tá rimando” de Patativa do Assaré era tudo o que um menino velho, barrigudo e remelento que escrevia poesias, queria ouvir. Foi a minha consagração pública. A consagração de um quase poeta sem noção.

Depois pedi que ele assinasse aquele texto porque alguma coisa me dizia que nunca mais iria vê-lo. Eu estava certo. Três anos depois, em junho de 2002, aos 93 anos Patativa do Assaré faleceu. Esses dias conversando com a professora Elcilândia e comentando essa viagem ela me disse que aquelas excursões eram de uma irresponsabilidade enorme porque a gente não se preparava pra essas aventuras. Mas concordou comigo que visitar Patativa naquele dia foi a melhor coisa que fizemos. Conclusão, um pouco de loucura e atrevimento, de vez em quando, é enriquecedor.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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