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Virgílio Brasileiro

Josemir Camilo. Publicado em 27 de outubro de 2017.

Por Josemir Camilo de Melo (*)

Sábado (21/10/17) estava eu impactado pela partida do grande poeta pernambucano, Marcus Accioly, quando um dos seus admiradores campinenses, o professor e crítico literário, José Mário da Silva me informa, nas redes sociais: “Parte Dr. Virgílio Brasileiro. Amigo querido, Médico Consagrado, Cidadão Exemplar, Apaixonado Incondicionalmente por Campina Grande. Imensa Saudade do Amigo Virgílio Brasileiro. Que o Senhor conforte a família enlutada”. Pegado, assim de supetão, as lágrimas me vieram aos olhos e ao amigo Zé Mário, só respondi: “Não! Só lágrimas, uma coroa delas para o último “causer” campinense!” E como numa estranha coincidência, relembro de imediato, as ligações destes dois mundos, através destes dois insignes partintes, quase ao mesmo tempo. Relembro, como apaixonado Virgílio era pelo Recife, onde conheceu o IMIP. E concluo, naquele momento de choque e tristeza, que, na certa Virgílio (que tem nome de poeta), o humanista, foi se encontrar com Accioly, o poeta humanista!

Vai-se o presidente de honra (de direito) do Instituto Histórico de Campina Grande, o pai da memória campinense, da memória médica, sobretudo; mas de ações também fora de seu campo, como, no passado, a introdução do curso de língua Russa, no Centro de Humanidades, da antiga UFPB-Campus II (hoje, UFCG)

O homem que tinha soluções humanísticas para os problemas sociais brasileiros, mas pensava pontualmente, pensava a sua cidade, soluções para Campina e falava. Virgílio necessitava de um auditório, mas não perdia tempo em encontrar um ouvinte que fosse. Isto era no sindicato dos professores da UFCG, e era no Calçadão, na Praça da Bandeira, e no Sebo Cata Livro, de Ronaldo Andrade. Era o ‘causer’ (do mesmo modo como fora, segundo a memória da cidade, o grande Hortênsio Ribeiro) e, tal era sua fome de passar adiante sua elucubrações e tantas eram, que muitos ouvintes sucumbiam ao cabedal de informações analíticas. Passava pílulas de otimismo para longo prazo, enveredando também em soluções urbanísticas (problema com o Capitólio, por exemplo), patrimoniais, onde parecia ter a única solução. Diante do cabedal de informação e sapiência, cabia a nós, humildes ouvintes apreciar seus conhecimentos; a poucos, lhes subia a inveja de ter seus pontos de vistas vencidos pelo ‘causer’.

Algumas vezes lhe incentivei a pôr suas memórias no papel e seus conhecimentos médicos e sociais, e que seu lugar era em nossa Academia de Letras. Modesto, nunca invejou o Jardim de Academus.

Virgílio (como nos tratávamos, como membros da mesma corporação universitária) formou-se pela UFPE, e acompanhou toda a obra do Dr. Fernando Figueira, fundador do IMIP, no popular ‘bairro’ dos Coelhos, no Recife, especializando-se também fora do pais, como no Chile e na França. Sabendo que eu era do Recife, a conversa se facilitava na cartografia social daquele bairro e porque também cheguei a utilizar aqueles serviços, que não ficara só no plano da medicina materno infantil. Algumas vezes estive lá no IMIP, sendo atendido ou acompanhando parentes; conhecidos, de Campina, também me contaram do sucesso em tratamento oncológico de crianças daqui da cidade.

Hoje, tentando juntar os cacos de conversas, busco no site do IMIP dados concretos, que cimentem a nossa oitiva. “Fundado em 1960 por um grupo de médicos, liderados pelo Professor Fernando; Figueira, seu mentor, o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando…”. Aí estava a ‘escola’ do Dr. Virgílio Brasileiro. A morte do seu grande mestre, Prof. Fernando Figueira, no dia 1º de abril de 2003, deve ter abalado Virgílio. Conversava sobre a herança humanística deixada por esta Escola de medicina, baseada nos princípios da solidariedade, fraternidade e respeito aos mais carentes, (como divulga o seu site).

Parte o grande pediatra de Campina Grande! As conversas no Café Aurora terão uma grande lacuna. Passo pela Praça dos Pombos, passo mais triste, buscando o mestre, que já não nos assiste!

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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