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Vassouras de palha carnaúbas

Jurani Clementino. Publicado em 15 de dezembro de 2018 às 10:44

O terreiro da frente da casa de seu Geraldo Varela vivia coberto por palhas de carnaúbas. Expostas ao calor do sol elas deixavam um pó branco espalhado pelo chão de terra vermelha. Depois de secas as palhas eram colocadas dentro de casa e ali começava um engenhoso trabalho de produção artesanal de vassouras. Foi observando a carpintaria paciente de seu Geraldo que descobri que a palha da carnaúba servia para confecção daqueles utensílios destinados a varrer as casas sertanejas.

O processo de produção das vassouras começava com a retirada das palhas do alto daquelas palmeiras. Para isso, seu Geraldo colocava uma roçadeira amolada na ponta de uma vara cumprida que alcançasse o topo das carnaubeiras. Depois levava aquele monte de palhas até sua residência e botava para secar espalhadas no terreiro de sua casa localizada no sítio Lagoa de Dentro. A secagem das palhas demorava de acordo com o clima. No inverno algo em torno de quatro, cinco dias e no verão bastavam vinte e quatro horas. Expostas ao sol, e durante o processo de “afinar” as palhas da carnaúba, elas soltavam um pó, também chamado de cera, que era vendido a um comerciante da vizinha cidade de Lavras da Mangabeira. Possivelmente ia parar na indústria farmacêutica, ou transformada em polimentos e vernizes. Nas zonas rurais, as mulheres também usavam aquele produto para deixar os pisos das casas brilhosos.

As palhas secas eram ‘rasgadas’ numas pontas de ferro fixadas na madeira e que era chamado de “trinca”. O objetivo era deixar aquelas folhas menos dura. Só depois começava o processo final de confecção das vassouras. Eram de dois tipos: costurada – em que quatro palhas são amarradas por barbantes e tem o talo costurado; e virada onde apenas duas palhas são amarradas e depois tem as pontas viradas, presas a uma corda e posteriormente amarradas com um barbante. Dependendo do tipo de vassoura que seu Geraldo produzisse, ele podia chegar até cem unidades diárias. As pessoas se deslocavam até a casa dele para adquirir o produto ou encontrava no comércio ou bodegas das comunidades locais.

Sertanejo disposto e sem preguiça para encarar qualquer desafio, Negão das Vassouras já trabalhou também como marchante e abateu muito animal para os produtores rurais das redondezas. Seguindo a vocação para o artesanato ele também aprendeu a cobrir malas de madeira, bastante usadas para guardar as roupas. Para tal serviço ele usava sacos de cimento vazios. A cola era resultado de um grosso angu de goma e servia para pregar os sacos nas tábuas da mala. Para finalizar, um toque de mestre: pinturas que lembravam desenhos rupestres tornavam aquelas malas atraentes e comercializáveis. Ali se imprimia também uma identidade artística do autor. Em qualquer parte que alguém avistasse aquela mala saberia quem tinha pintado.

Mas, mesmo depois de aposentado, o que ele nunca deixou de fazer, ao longo de seus quase setenta anos, foi produzir as tradicionais vassouras de palha de carnaúba destinadas a varrer casas. Aos sessenta e nove anos, Negão das Vassouras parece um menino. Esses dias uma de suas netas me enviou uma fotografia dele trabalhando. Geraldo varela, ou Negão das Vassouras” Ainda mantem uma cabeleira que alcança os ombros e segue fabricando artesanalmente suas vassouras de palha de carnaúba. Atividade que lhes garantiu a sobrevivência de uma numerosa família composta por nove filhos.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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