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Vaqueiros e boiadas

Jurani Clementino. Publicado em 11 de janeiro de 2019 às 11:35

Aos primeiros sinais de chuva no sertão, o gado precisava ser retirado das roças e deslocado para outra região. É que os agricultores iniciavam ali o plantio de produtos como arroz, feijão, milho, algodão…  Me recordo que a gente acordava com o aboio dos vaqueiros e o barulho dos chocalhos da boiada que saía do curral tangida por homens de chapéu de couro e gibão, montados em cavalos e mulas cuidadosamente selados. Quando o sol dava os primeiros sinais e o dia clareava, aquela tropa de animais já estava na estrada. Era um longo percurso de aproximadamente cento e setenta quilômetros, ou quase trinta léguas, entre os municípios cearenses de Várzea Alegre e Jaguaribe. O gado era levado para essa região por volta do mês de fevereiro, quando já havia pasto para os animais nas terras jaguaribanas que alguns produtores rurais varzealegrenses haviam adquirido praquelas bandas.

Eram viagens demoradas que levavam dias. Os vaqueiros eram contratados pelos donos dos animais que rateavam os custos entre si. Os animais dos sítios Juazeirinho, Rebeira, Queixada e Lagoa dos Nunes que pertenciam as famílias Guedes, Nunes e Custódio e somavam aproximadamente 300 cabeças seguiam cortando estradas por dentro de riachos, cidades, vilarejos e atravessando fazendas quase desertas. Ao sair de Várzea Alegre, passavam por Cedro, Vila do Feiticeiro, Limas Campos, Orós, até chegarem ao município de Jaguaribe. Quem conduzia aquela boiada eram duas vacas velhas, experientes nesses trajetos e apelidadas de Amazonas e Rio Grande. Lideres do rebanho, elas tomavam a frente do gado logo que o vaqueiro abria a porteira. Até quando precisavam passar por dentro das cidades, essas duas vacas não decepcionavam. Entravam e saiam de rua em rua sem precisar da orientação do vaqueiro. No percurso existiam algumas paradas planejadas, locais de descanso e pernoite com grandes currais à beira da estrada. Essas paradas serviam para que os vaqueiros, os animais de montaria e a boiada matassem a fome e descansassem um pouco. E quando deixavam os ranchos e retomavam o percurso eram Amazonas e Rio Grande quem guiavam o rebanho em direção ao destino final.

Por isso arriscaria dizer que está errado quem acredita que é o vaqueiro quem conduz a boiada. Na verdade é a boiada quem conduz o vaqueiro. Durante décadas, seu Zé Gomes, morador do sítio Panelas foi o vaqueiro oficial do meu bisavô Raimundo Guedes. Ele era um homem alto, moreno, de pouca conversa. Fez tanto esse serviço e passou tantos anos manejando aquela boiada que conhecia todas as manias dos animais. Pouco antes de falecer, costumava visitar os velhos conhecidos do Sítio Queixada. Sentado numa cadeira de balanço na calçada da casa de Pedro de Doge e Mariinha, seu Zé Gomes observava de longe os bichos pastando na roça e traduzia a rotina deles. Sabia a hora da bebida e da comida.

Ao que me recordo, ultimo vaqueiro oficial a tanger o gado entre Várzea Alegre e Jaguaribe foi Néu Guedes. Às vezes meus irmãos, meu pai e alguns outros amigos do sítio seguiam a boiada até a comunidade Aba da Serra, já na divisa com o município de Cedro. De lá Néu seguia viagem com três ou quatro ajudantes até o destino final. Nos últimos quinze, vinte anos, quando os proprietários mais antigos foram falecendo, os filhos e herdeiros preferiram vender as terras e dá fim a criação. Achavam aquilo trabalhoso demais e pouco lucrativo.

Jurani Clementino

Campina grande – PB 09 de janeiro de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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