Vanderley de Brito: Um museu submerso nas águas do Açude de Boqueirão

Vanderley de Brito. Publicado em 8 de maio de 2021 às 13:15

O nome da cidade de Boqueirão se originou de um grande corte na Serra do Carnoió por onde flui o rio Paraíba.  Neste local, onde se forma o Boqueirão, já em fins do século XIX, o pesquisador campinense Irenêu Joffily já sugeria um represamento do Rio para a formação de um grande açude. Entretanto, a construção desta barragem só veio a ser realizada entre 1950 e 1956 pelo DNOCS, por iniciativa do então Ministro José Américo de Almeida, com objetivos de abastecer a cidade de Campina Grande, gerar energia elétrica e perenizar o rio Paraíba. O açude Epitácio Pessoa, ou de Boqueirão, como é mais conhecido, foi inaugurado em 16 de janeiro de 1957, juntamente com a adutora, pelo então Presidente da República Juscelino Kubitschek.

Quantos sítios arqueológicos teriam sido submersos pelas águas que se acumulam neste açude? Segundo consta, a bacia hidrográfica do açude de Boqueirão cobre uma área de 12.410km2 ao longo do Paraíba, abrangendo atualmente os municípios de Boqueirão, Barra de São Miguel e Cabaceiras.

Esta questão se baseia no fato de que, muito antes da construção da barragem e inundação da área, já século dezessete temos registros de inscrições rupestres na área hoje submersa, pois neste ano o frade catequista Martinho de Nantes, que durante oito meses viveu catequizando os indígenas aldeados na fazenda de Antônio de Oliveira Ledo, que ficava no dito boqueirão, comenta ter encontrado no ano de 1660 uma grande pedra sobre a qual estava gravada a imagem de uma cruz e na parte inferior um globo, ao lado duas figuras que não podiam ser distinguidas por causa do musgo, e uma espécie de rosário gravado. Sem dúvidas, o capuchinho se deparou com registros paleoíndios nesta rocha em terras boqueirãoenses.

Outro registro ocorreu em julho de 1905, quando o pesquisador José Fabio da Costa Lira realizou uma viagem de exploração na região e verificou, na margem direita do Rio Paraíba, três léguas ao oeste do povoado de Boqueirão, um monumento rochoso com uma grande quantidade de inscrições indígenas. Uma légua abaixo deste local, na margem esquerda do rio, viu também diversos caracteres gravados num lajedo e, na fralda da Serra do Carnoió, banhada pelo Paraíba, identificou outros caracteres gravados no interior de uma furna.

Estes registros, e outros mais que seria exaustivo numerar aqui, comprovam que a área hoje submersa pelo represamento do Rio era infestada de registros gráficos deixados por povos bem anteriores à chegada dos europeus ao nosso continente, documentos de extremo valor histórico que narram de algum modo as capacidades de abstração dos primitivos habitantes de lugar.

Com a recente criação do Instituto Histórico e Geográfico de Boqueirão, uma iniciativa do professor Laudemiro Lopes e outros interessados na memória local, como os historiadores Paulo da Mata e Mirtes Salpino, um rascunho destes registros seria de grande valia como acervo do imaginário primitivo da terra.

Na Barragem de Itaparica, construída no Vale médio do São Francisco, entre Bahia e Pernambuco, antes da construção da barragem e da hidrelétrica, a CHESF promoveu, entre 1982 e 1988, um projeto de salvamento arqueológico no trecho do vale que se encontrava dentro da cota de inundação, onde foram levantados diversos sítios rupestres e realizado inúmeros resgates arqueológicos, enquanto que em Boqueirão, cujos primeiros levantamentos topográficos iniciaram-se em 1948, não houve nenhum procedimento de resgate, fotografias ou levantamento. Uma imprudência que acabou por submergir um precioso patrimônio deixado pelas sociedades primitivas da região, deixando-nos, apenas, mais uma grande lacuna nos estudos históricos da região.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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