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Vanderley de Brito: Quem quer a cadeira de João Carga d’Água?

Vanderley de Brito. Publicado em 17 de abril de 2020 às 23:31

A praxe do patronato para associações de intelectuais é muito antiga. Escolhem-se ilustres nomes para determinar os assentos e a tradicional ritualização de posse de novos membros é rememorativa ao patrono da cadeira e cercada de ritualística; tem o ato de recepção, o aspirante elogia o patrono na cadeira inscrito, depois vem a babação sobre os ocupantes antecessores e, por fim, assiste a um discurso elogioso sobre si próprio, pronunciado por um membro da casa (é muído pra mais de uma hora). Isso tudo vem seguido do protocolo da entrega da joia, fardão, diploma e a teatralização se encerra com um coquetel oferecido pelo novel, onde todos, muito bem trajados, se confraternizam, tiram fotos e, claro, comem e bebem fartamente. É uma perfeita noite de gala e o novo membro ainda sai imortal dessa.

Quando assumi a presidência do Instituto Histórico de Campina Grande, em maio de 2018, logo percebi que as vagas do mesmo não eram numeradas e também não tinham seus respectivos patronos proclamados. Entretanto, descobri que já havia a intenção do IHCG se adequar ao tradicional sistema e até uma lista de notáveis nomes, aprovados em reuniões, estava disponível para formar o quadro de patronos. Só faltava completar com mais uns dez nomes para se adequar ao número estatutário de vagas e botar a coisa em funcionamento.

Fui analisando cada nome e entre estes figurava o nome de João Carga d’Água, um analfabeto que nunca realizou qualquer produção intelectual para a cidade. Seu nome destoava dos demais historiadores, poetas, cronistas e cientistas, então perguntei a Ida Steinmüller, fundadora do IHCG, o porquê daquele nome estar elencado, e ela me respondeu que foi numa reunião de membros que o nome foi sugerido para se prestigiar um personagem negro e pobre do subgrupo social de nossa história. Diz que o muído foi grande, com o pessoal do estereótipo na defesa desse nome, e ninguém era doido de vetar, senão passaria por excludente e conservador. 

Entendi o cliché. Embora hajam controvérsias, o nome aludido era um perfeito “oprimido” das cartilhas marxistas, e se encaixava como uma luva no perfil do “politicamente correto”, tão em voga hoje em dia.  

Pois bem, comecei a convidar os membros para assumir um patrono, a princípio oferecendo os nomes a alguns sócios que se alinhavam ao patrono por laços de familiaridade ou linha de estudo, por exemplo, a cadeira de Félix Araújo não poderia pertencer a outro que não fosse seu filho, Félix Araújo Filho. Argemiro de Figueiredo ficaria com seu neto Guilherme Almeida, Passinha Agra foi direto para Alarcon Agra do Ó e a cadeira de Anésio Leão foi para sua irmã, Leônia Leão. Outros foram por afinidade direta, como Antônio Bióca, que não teria ocupante mais acertado que Mário Vinícius, e Dom Luiz Gonzaga Fernandes que, convenientemente, foi para o Padre Hachid, nosso representante do clero. 

Depois disso, os nomes restantes foram sendo apresentados aos demais sócios e a briga maior foi pra ver quem ocuparia a cadeira de Elpídio de Almeida, o patrono-mor do IHCG. Cheguei até a lidar com caras feias porque pelo menos três sócios pleiteavam esta vaga, que teve de ser submetida à análise de afinidade e ficou, enfim, para o também médico Evaldo Dantas da Nóbrega.

Foi um processo até fácil essa oferta e entrega informal de patronos aos sócios, afinal tínhamos excelentes produtos: Irineu Joffily, Epaminondas Câmara, Hortensio Ribeiro, Bezerra de Carvalho, Assis Chateaubriand, Amaury Vasconcelos, Raymundo Asfora, Ronaldo Cunha Lima, Christiano Lauritzen, Lynaldo Cavalcanti, Machado Bittencourt, Lopes de Andrade, Lia Mônica Rossi, Vergniaud Wanderley e assim por diante. Todavia, o processo já está quase concluso, os brancos de nomes franceses, cheios de “ypsolones”, foram até disputados na tapa e um nome foi ficando excluído: exatamente o do negro João Carga d’Água, que já deve estar se revirando no túmulo.

Obviamente, consultei os que defenderam ferrenhamente que o nome do negro figurasse na lista de patronos do IHCG, mas, sendo estes professores doutores universitários federais, nenhum se interessou, optaram por um destes nomes da elite branca e opressora. Teve gente que até se ofendeu com minha sugestão, dizendo que merecia ocupar uma cadeira à sua altura na cátedra. Vou fazer o quê? Dei-lhe razão!

Enfim, eu só sei que as cadeiras já estão quase chegando ao final e até aqui ninguém se habilitou a ocupar o assento do lançador de rapaduras. Imaginem vocês o meu desespero! Não posso excluí-lo ou substituir por outro nome, foi uma decisão de reunião e, afinal de contas, eu é que seria acusado de ditador, racista e elitista. De todo modo, tenho que achar um ocupante para a cadeira e estou até pensando em lançar o seguinte edital promocional: “Está vaga a cadeira de João Carga d’Água, o fantástico revolucionário que liderou em Campina Grande a revolta dos matutos contra os doutores. O cara é um mito, tem até uma estátua numa praça da cidade, e quem ficar com a cadeira receberá de brinde adicional um frasco de Óleo de Peroba 200ml,  para conservar, lustrar e renovar a cadeira, protegendo-a contra ação do tempo e deixando um cheirinho agradável de móvel limpo”.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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