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Vanderley de Brito: Quando bárbaros invadiram o Teatro Municipal

Vanderley de Brito. Publicado em 5 de maio de 2020 às 10:15

Era um daqueles momentos surreais da vida. Lá estava eu, no palco do Teatro Municipal, trajado de Papa, para encenar uma peça que escrevi. É isso mesmo. Pra quem não sabe, eu também sou ator e dramaturgo. Só não esperava um dia voltar aos palcos.

Iniciei ainda adolescente minha carreira no universo teátrico, isso por volta de 1985, no Teatro de Bolso Procópio Ferreira, no Rio de Janeiro. Depois, quando cheguei em Campina Grande, em 1988, ingressei numa companhia de teatro infantil chamada “A Turma do Aladim”, onde fizemos apresentações nos teatros, no Forrock, em quase todas as SABs da cidade e até animamos festinhas de aniversários. Com uma dinâmica impressionante, depois partimos para as turnês pelo interior do Estado, com atuações em muitas cidades. Cheguei a ter o privilégio de me apresentar no mais antigo palco da Paraíba, o histórico Teatro Minerva, de Areia, inaugurado em 1859. 

Mas tudo um dia se acaba e tive de interromper minha trajetória mambembe em princípios da década de 90 porque, como todos sabem, teatro não dá dinheiro. Cuidei em casar, esquecer o teatro e tentar levar uma vida “normal”, mais estável. 

Passaram-se os tempos, e eu não contava com o velho adágio popular de que: “filho de peixe, peixinho é”, e muitos anos depois meu filho Erik, com 14 anos na época, resolveu por conta própria ingressar no mundo dos palcos. Fui assistir todas as suas peças e acompanhei sua evolução, tanto no teatro quanto no cinema, bem como a sua carreira de historiador, pois, confirmando outra vez o adágio, ele também se formou em História. 

Até que, certo dia, ele me disse que estava interessado em montar uma peça de conteúdo histórico e me desafiou a escrever um texto para transportá-lo aos palcos. Foi então que escrevi a peça “A invasão dos bárbaros”. Ele me ajudou com os entrementes técnicos, como inserir no texto as marcações, objetos de cena e as deixas para a iluminação e a sonoplastia.

O enredo trata sobre o instante fugaz em que o huno Átila, que pretendia invadir Roma, conversa em reserva com o Papa Leão I e o pontífice o convence a desistir da invasão. A História não revela o teor desta conversa, mas utilizei ponderáveis argumentos para suscitar uma hipótese, pois, como dizia Flamel: “sempre resta um pouco de luz, mesmo nas mais profundas trevas”, e utilizei do discurso comédia para encenar o suposto episódio.

De algum modo, a peça transcende o nível episódico, ela brinca com a curvatura do tempo, um jeito anedótico de instigar a reflexão, tão zombeteiro, bem a meu estilo, que, quando encerrei o texto percebi que somente eu poderia representar o Papa. Sem querer, o papel foi feito pra mim, até minha barba branca coadunava com o personagem. 

Os ensaios foram hilários, havia muita coreografia e os atores tinham liberdade para adicionar novos elementos à cena.  Para o elenco convidei meu irmão Delírio Brito, experiente ator e um dos melhores comediantes que já conheci, ele fez duplamente os papeis do Imperador romano e do general uno Orestes. Igualmente com dois papeis, Erik Brito fez um soldado da guarda romana e também representou o bárbaro Átila. Minha filha Shirley Brito, estreante em palcos, fez o papel do notário, que era um filho bastardo do Papa. Foi uma boa troca de experiências, um palco com dois veteranos quase cinquentões e dois jovens com menos de vinte anos. Por se tratar de uma peça em família denominamos o projeto de “Companhia de Teatro os Britous”.

O figurino foi de Rayane Ribeiro, a maquiagem e cenário foi encargo de John Paulino, a locução coube a Sheila Dias Farias, a sonoplastia a Alexandre Pedro e a peça “A invasão dos bárbaros estreou no Teatro Municipal Severino Cabral com duas apresentações, nos dias 10 e 11 de julho de 2014. Não lotamos o teatro, mas conseguimos mudar hábitos, pois barbarizamos trazendo para a arena teatral campinense um público bem diferenciado, sobretudo de empresários, memorialistas, alunos e professores universitários. 

Pisar nos bastidores do teatro novamente, foi uma experiência indescritível. Sentindo a essência daquela catedral cênica, cujas paredes exalam um velho e simpático cheiro, desses cheiros que parecem prestes a falar, pelo espelho do camarim, emoldurado de luzes, me vi envolto no magno personagem do Papa Leão I, com traje ostentoso, prestes a determinar o rumo da história do mundo ocidental e atrair risos. O teatro é magia, faz verbo da barbárie e da utopia. Em suma, foi desse modo que os bárbaros invadiram o Teatro Municipal de Campina Grande, mas se a História ocorreu exatamente como sugere ou roteiro… jamais se soube.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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