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Vanderley de Brito: Para ser honesto com a História…

Vanderley de Brito. Publicado em 7 de novembro de 2019 às 12:46

Nas últimas semanas venho, juntamente com a memorialista Ida Steinmüller, desenvolvendo uma pesquisa sobre o levante do Quebra-Quilos em Campina Grande. Já consultamos uma copiosa bibliografia, algumas até de época, na busca de compreender as minúcias desse movimento para um trabalho que estamos produzindo. A leitura de documentos para produção histórica requer muito bom senso, isenção conceitual e honestidade, para não se deixar levar por dogmas ou se render à hipocrisia do “politicamente correto”, tão em voga ultimamente. 

Historiar com honestidade incomoda àqueles que ostentam ares professorais e vivem de fama, chavões e pedantismos, mas não se ocupam em rever as fontes à luz de novos entendimentos. Àqueles que, ao invés de promover a História, buscam se promover às custas da História. Incomoda também àqueles que usam a História para fabricar eventos, heróis e mártires adequados aos seus interesses e ideários.

Em 2014, um grupo militante do Movimento Negro de Campina Grande, formado por Jair Barbosa Araújo, Moisés Alves e Evaldo Batista dos Santos, resolveu promover uma homenagem à participação da etnia negra na história de Campina Grande, com objetivo de mandar erguer uma estátua a João Carga d’Água numa praça da cidade. O projeto foi aprovado pela subcomissão de Memória e História do Sesquicentenário de Campina Grande, coordenado por Giovanna de Aquino, e uma escultura foi inaugurada na Praça da FIEP, às margens do Açude Velho, em homenagem ao negro que, supostamente, seria o símbolo da resistência negra e “herói” do Quebra-Quilos. Convém ressaltar que o monumento, de um homem franzino, não condiz com o homenageado, que, segundo quem o conheceu, era um “brutão até na estrutura”.

Na verdade, o negro João Vieira da Silva foi um comerciante bem sucedido, vendia água do Açude Novo em jumentos carregados de pipas na cidade, um negócio rendoso numa época em que Campina não tinha água encanada, e seus clientes eram pessoas de cabedal, uma vez que os pobres iam buscar eles mesmo sua água no açude público. João é considerado como o líder e mártir do movimento Quebra-Quilos, mas ele participou somente do primeiro protesto em Campina Grande, talvez por casualidade, pois não há registros de ter seguido com o movimento. De vítima da sociedade ele não tinha nada. Segundo relatos de época, o negro possuía um sítio na área do Açude Novo que ocupava toda a dimensão das atuais ruas Frei Caneca e Otacílio de Albuquerque, com casa de farinha e curral onde ordenhava suas vacas leiteiras, usava sapatos, que não era utensílio de pobre, e possuía também escravos. O monumento que historicamente condiz com o João Carga d’Água é o suntuoso túmulo erguido em mármore, na alameda principal do cemitério do Monte Santo, onde repousam seus restos mortais. O túmulo está quase de frente ao do Coronel Alexandrino Cavalcanti de Albuquerque, que foi o homem mais rico e poderoso da Campina Grande novecentista. No túmulo de Carga d’Água consta que o mesmo faleceu em idade bem avançada para a época, aos 70 anos, em 1911. Se fosse um pobre, morreria bem mais cedo e estaria numa vala comum, sem epitáfio ou localização precisa.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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