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Vanderley de Brito: Os segredos heréticos de Paracelso

Vanderley de Brito. Publicado em 30 de junho de 2021 às 10:05

O famoso alquimista e médico-cirurgião medieval Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, que ficou conhecido na história pelo pseudônimo de Paracelso, faleceu em 1541, aos 48 anos, e três dias antes de morrer chamou um tabelião para redigir seu testamento com instruções para seu enterro, onde especificava que seus restos mortais deviam repousar em ossário tumular encravado numa das paredes da igreja de Santo Estêvão, em Salzburgo, e em seu velório deviam ser entoados os salmos bíblicos 1, 7 e 30.

Paracelso era membro ativo da Ordem Rosacruz, uma antiga sociedade secreta e mística (colégio de invisíveis) que ainda hoje tem membros espalhados pelo mundo inteiro e, a propósito, na Paraíba há mais de 40 anos há organismos da egrégora Rosacruz funcionando em João Pessoa e em Campina Grande.

Sendo, portanto, Paracelso um místico, acreditamos que havia uma mensagem a ser decifrada neste seu último desejo. Em vida, ele foi genial, ousado e irreverente.
Sua história é de uma dinâmica incrível: Com a morte precoce de sua mãe, Paracelso foi criado pelo pai, o médico Dr. von Hohenheim, na cidade de Villach, no sul da Áustria. Na adolescência estudou com os monges do mosteiro de Santo André, na Saboia, onde aprendeu os princípios da alquimia, e formou-se em medicina em 1510, aos 17 anos, na Universidade de Viena. Porém, decepciona-se com a prática da medicina vigente, ele repudiava as chamadas pílulas milagrosas, receitadas à toa para qualquer doença, assim como também não as infusões, bálsamos, unguentos, fumigações, vomitórios e sangrias usuais na época. De espírito inquieto e rebelde, deixou tudo e foi atuar como cirurgião militar em campos de batalha, onde desenvolveu seus próprios métodos de medicina, sendo ele o primeiro a usar venenos em pequenas doses para curar. Paracelso foi precursor da quimioterapia, preparando medicamentos com enxofre, ferro, cobre e mercúrio, e descobriu a existência do sistema imunológico, sendo o primeiro a criar vacinas. Em busca de ampliar e aperfeiçoar seus conhecimentos, depois viajou pelo Egito, Arábia, Terra Santa e Constantinopla, estudando antigos manuscritos e sabedorias populares.

Por onde andava realizava curas espetaculares e, sendo chamado para enfrentar uma epidemia de peste na cidade de Stertzing, salvou centenas de vidas dando aos doentes pãezinhos feitos com um pouco das secreções do próprio paciente, que coletava com a ponta de uma agulha, produzindo anticorpos contra o agente infectante. O sucesso na luta contra a peste o transforma em uma lenda viva e, apesar da fama de mago, suas histórias espalhavam-se de cidade em cidade, de modo que, em 1527, foi convidado a lecionar Medicina na universidade de Basiléia. Paracelso até hoje nos assombra pelos conceitos modernos sobre muitos temas médicos, pois deixou tratados sobre cirurgia, pestes, epidemias, assepsias, o glaucoma e sobre a sífilis, afirmando que esta doença podia ser tratada por via interna com compostos de mercúrio, diagnóstico que só seria comprovado quase quatro séculos depois.

À frente de seu tempo, seus estudos inovadores irritavam os conselhos médicos, além disso ele se recusava a usar adornos e distintivos próprios dos médicos medievais, por isso, como adquiriu fama de feiticeiro, em 1528 quase foi para a fogueira, se vendo obrigado a fugir de Basiléia na escuridão da noite, só com a roupa do corpo.
Estabelecendo-se depois em Colmar, Nuremberg e Saint Gall, ficou rico e famoso, não só como médico, mas também como físico, alquimista, fitoterapeuta, astrólogo e ocultista. Neste tempo, escreveu tratados científicos revolucionários, mas sua mais intrigante obra foi “O tratado da Matrix”, um dos mais belos postulados alquímicos sobre o sagrado feminino. A obra, com mais de cem páginas dedicadas à compreensão profunda da fisiologia da mulher, trata especificamente sobre um órgão sutil e invisível no cume do cérebro feminino que se abre para dois planos diferentes: o plano do espírito e o plano da matéria. Este órgão, que denominou de Matrix, seria o chakra que gerencia todo processo criativo e procriativo da mulher. Na visão paracelciana, a mulher nasce à disposição do universo para servir de ponte aos espíritos que necessitam dela para encarnar. Constantemente, Paracelso irritava a comunidade científica ao criticar publicamente os trabalhos de seus colegas médicos que não consideravam as diferenças entre os sexos no tratamento de doenças e o caráter divino da fisiologia feminina. Paracelso era um rosacruciano, membro ativo da única sociedade secreta no medievo que admitia mulheres, a propósito, em sua simbologia, a cruz representa o masculino e a rosa o feminino.

Os restos mortais de Paracelso descansaram por séculos em seu túmulo, mas no quinto centenário de seu nascimento, em 1993, seus ossos foram exumados e levados para o Museu de História Natural de Viena, quando se percebeu que havia uma fratura no crânio. O fato suscitou a hipótese de que ele havia sido assassinado e cientistas da Faculdade de Medicina Legal da Universidade de Viena decidiram examinar. De fato, havia uma perfuração no crânio, mas o que mais atiçou os peritos foi uma revelação bombástica: a análise das dimensões da bacia e do crânio revelaram que Paracelso era mulher. A descoberta pareceu tão absurda que se resolveu realizar um estudo genético do esqueleto e o exame não deixou dúvidas: as células analisadas possuíam um par de cromossomo X. Paracelso não era um mago, era uma bruxa. Outra informação revelada na análise de seu esqueleto foi que ele(a) possuía uma quantidade considerável de mercúrio no organismo e antes dos cinquenta anos já perdera completamento os dentes, indícios de que experimentava em si mesmo seus tratamentos.

Os resultados deste prognóstico me fazem supor que o fato dele(a) escrever seu testamento três dias antes de morrer, certamente já lhe era previsível à morte eminente. Isso, aliado ao fato de usar seu próprio corpo para experimentos e de possuir um orifício no crânio, pode indicar que ele(a) teria se autocirurgiado, até porque quando foi velado estava com a parte superior da cabeça raspada, e isso gerou a falsa ideia de que era calvo. Será que Paracelso procurava comprovar sua teoria do Matrix em si mesmo?

Outro aspecto interessante neste mistério foram os salmos que deveriam ser entoados em seu velório. O primeiro, chama a atenção para as atitudes justas de sua vida, alegando que nunca foi ímpio, tipo “o fim justifica os meios”; o sétimo salmo pede que Deus o julgue conforme sua justiça e integridade; e o Salmo número trinta, no seu primeiro versículo, diz: “Eu te exaltarei, Senhor, pois tu me reergueste e não deixaste que os meus inimigos se divertissem à minha custa”, como que agradecido por sua condição de mulher nunca ter vindo a público; e no versículo 11 complementa: “Mudaste o meu pranto em dança, a minha veste de lamento em veste de alegria”. Em tempos medievais, com vestes de mulher ele(a) jamais teria vivido a liberdade, as experiências e as glórias que viveu.

Paz Profunda, soror Paracelso!

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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