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Vanderley de Brito: Os caça-títulos

Vanderley de Brito. Publicado em 16 de janeiro de 2020 às 10:36

Hoje de manhã, no frescor de um sol tímido, da janela eu observava a Serra de Bodopitá, cordilheira que enlaça o horizonte sul de minha Campina Grande. Se formos procurar ver as coisas por diferentes perspectivas, poderíamos encarar poeticamente esta Serra como uma arte talhada pelo cinzel de um escultor divino e colossal, mas, na crueza da realidade, nada mais é do que um paredão de entulhos, espólio de algum movimento geológico pré-cambriano. Como já dizia Chaplin, “a vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe”.

Nesse raciocínio, por correlação temática, ou ambivalência, me veio à lembrança um tipo de gente que na minha época chamávamos “denorex”, que parece, mas não é (podem procurar a respeito no Google), que são os conhecidos caça-títulos (sem eufemismo), uns ridículos muito comuns nos meios intelectuais.

Preocupados em ser alguém importante na vida a qualquer custo, os caça-títulos vivem de colecionar pomposos certificados, seja de sócio de agremiações, associações literárias, títulos-cidadão, membro de comissões analíticas, conselhos editoriais ou qualquer coisa que lhe renda extensão curricular. Esses indivíduos conquistam seus títulos através de subornos, choradeiras e adulações.

Contraproducentes a qualquer instituição, os caça-títulos não acrescentam em nada, depois de titulados desaparecem, adicionam o título ao currículo e transferem sua choradeira e bajulação para outra conquista de título; são insaciáveis. 

Posso até detalhar o arquétipo de um caça-título: É pedante, mimado e boçal. Habitualmente vaidoso e cuidadoso com seu aspecto, sua indumentária, ou melhor, sua fantasia de intelectual e de bom moço, mas sustenta ares de superioridade, de absoluto dono da verdade, adora elogios, mas não admite a menor censura ou contestações, pois fica magoado e transforma-se em vítima. 

Uma das principais características do caça-títulos é querer estar metido em tudo, colecionar tudo pra dizer que tem, ser lambe bolas e subserviente daqueles com poderes de lhe impulsionar os desejos de ascensão, mas para aqueles que não têm o que lhe oferecer é indiferente e até arrogante.

Beatífico e cheio de rapas-pés, um típico caça-título geralmente é simpático a ideologias socialistas. Pousa de certinho demais, é politicamente correto, como dizem hoje, se sente a encarnação de Mahatma Gandhi, dizendo apoiar o casamento homossexual, movimentos negros e feministas, paradas gays, direitos trabalhistas, mas, na prática, não faz o que apregoa como correto e humanitário, pois, enquanto seu discurso defende os trabalhadores, no seu carro só dá carona para o chefe.

Geralmente, estes caça-títulos são de intelectualidade chula e total esterilidade artística, precisam se apoiar na opinião de grupos ou facções, e ainda juram de pés juntos serem convicções suas. Não são propriamente iletrados, são habitué de sebos, feiras literárias, bienais de livros, frequentadores de encontros artísticos e até têm interesse por leitura, desde que não precisem arriscar-se em autores que exijam de sua inteligência um maior esforço abstrativo ou fujam ao teor estético-político da hipocrisia em voga.

Para manterem-se em ativa no universo intelectual, os caça-títulos até escrevem umas xaropadas aqui e ali, textos melosos, cheios de sentimentalismo retórico e êxtases para com as belezas naturais (sem nível poético, é claro). Usam os seus escritos para parecerem bons moços e, sobretudo, para bajular alguém de conceito no meio da intelectualidade, muita vezes gente que só tiveram um aperto de mão num evento público, mas sempre enfatizando que esses são seus queridos amigos para realçar nas entrelinhas seus próprios valores e dar a entender que são bem relacionados. Na verdade, o caça-título é um egocêntrico estrategista, que se utiliza da vaidade alheia para promover sua própria vaidade. 

Sem originalidade, suas produções textuais não têm um estilo definido, são falsetes que, dependendo do interesse de momento, se resumem em gastas liturgias acadêmicas ou contos autobiográficos narrando suas últimas proezas. Mas, na mesma proporção em que não produzem nada de sincero interesse coletivo, os caça-títulos praticamente forçam aqueles de seu circulo a lerem e fazerem comentários elogiosos. Uma crítica negativa, por menor que seja, lhe ascenderá a fúria e o vitimismo. Embora um caça-título nunca tenha coragem de romper amizades, especialmente àquelas que lhe possam ser útil para viabilizar ou endossar um novo título em vista.

Como uma legião, esse tipo asqueroso de indivíduo está disfarçadamente muito presente na sociedade e, como a Serra de Bodopitá, parecem uma arte talhada por um escultor divino, mas, na verdade, não passam de entulhos.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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