Fechar

logo

Fechar

Vanderley de Brito: Ontem no Templo da FACMA

Vanderley de Brito. Publicado em 9 de agosto de 2020 às 18:14

Ontem, dia 08 de agosto, na sede da Fundação Artístico-Cultural Manoel Bandeira, a FACMA, ocorreu o evento de eleição e posse da nova diretoria da instituição. O evento foi autorizado pela Curadoria das Fundações, pois a FACMA estava acéfala há algum tempo, e mesmo em tempos de pandemia, era emergencial aclamar um novo presidente. Erik Brito era o indicado.

Embora muito jovem, com 26 anos, o moço, além de historiador, reúne inúmeros talentos artísticos, como teatrólogo, cineasta, guitarrista, ator, romancista e tem prestado importantes serviços à cultura local através a Casa Paisá e também à pesquisa e conscientização patrimonial, como membro do Instituto Histórico de Camina Grande, e anos à frente da presidência da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

Que a escolha foi muito adequada não há dúvidas, pois além de ser um agente da cultura muito ativo, Erik é um sangue novo para esta casa cinquentenária. A cultura de hoje tem novas linguagens que nós, da velha-guarda, não conseguimos assimilar. Mas não é sobre esta aclamação em si que quero falar aqui, este tipo de evento é praxe de instituições, é sobre a singularidade irrepetível deste evento em específico.

Como uma chuva de entrada de inverno, que faz a erva brotar súbita e milagrosamente do solo, o chamado para este evento soou como uma ebulição do espírito para os convocados, que há meses se viam confinados em casa. Uma intimação de Mademoiselle Betinha Marinheiro é irrecusável, mesmo em situações adversas.

Medidas de cuidados foram tomadas. O evento ocorreu no hall de entrada da FACMA, em espaço aberto e ventilado, e, para evitar a aglomeração de pessoas, os convocados vieram em horários diferentes, os mais cuidadosos só cumpriam o ritual de votar, cumprimentar os presentes, o novo presidente, e logo se iam, mas outros, aqueles que realmente precisavam exorcizar a abstinência de espaços culturais, estes chegaram cedo e só saíram nas últimas ressonâncias do evento.

Por mais que me esforce para aproximar o leitor da atmosfera festiva do evento, só mesmo sentindo na alma do próprio palco. Parecia que forças magnéticas, pulsante de energia e vitalidade, envolviam aquela Catedral da Cultura. Era como se ali se reunissem os últimos sacerdotes de Atena, ou um grupo de judeus para um Sabá em tempos de inquisição. Aliás, ontem foi sábado.

Reconhecer gente infectada pelo vírus da cultura é fácil. Como um colarinho clerical identifica um padre, o ser movido pela obsessão de semantizar a arte e o saber, se revela pelo semblante inquieto, principalmente quando se encontra com seus semelhantes.

 O intelectual- idealista, de modo geral, é um ser solitário. Passa a maior parte do tempo em silêncio na falta de interlocutores. Afinal, as pessoas ditas “normais” não alcançam a obstinação por ideais coletivos, principalmente quando esta obstinação vem em linguagem erudita. Falta ler muito para se compreender quem leu muito. Desse modo, quando um intelectualizado se encontra com seus pares, aí as conversas fluem. Não esqueço o brilho nos olhos de Félix Araújo Filho, numa conversa empolgada comigo, Ricardo Bezerra, Erik e os críticos literários José Mário Branco e Elisabeth Marinheiro. Irrequieto como uma criança, ele falava com lirismo e uma eloquência desenfreada.

Nos bastidores do evento, cada grupo em conversa era assim, os rostos refletiam a felicidade do reencontro. Por um tempo fiquei escorado numa coluna do Templo da FACMA a olhar os grupos em animados diálogos, imunes ao Covid-19 e ao mundanismo urbano, como fossem pessoas completamente incorpóreas.

Num palavreado confuso, liturgias acadêmicas, ideias fantásticas, gestos extravagantes e sorrisos espremendo os olhos vítreos nos rostos cobertos de máscara. Como não dava para ver as bocas se movendo, parecia que falavam uma linguagem sensorial. Pra mim, aquele instante ficou eterno.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Vanderley de Brito
Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube