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Vanderley de Brito: O que faz e para que serve um instituto histórico?

Vanderley de Brito. Publicado em 23 de janeiro de 2020 às 21:32

O Instituto Histórico de Campina Grande (IHCG) é uma sociedade civil, sem fins lucrativos e de Utilidade Pública municipal, tendo como receita apenas a contribuição dos sócios, a título de anuidade, além de doações e convênios, para promover, fomentar e desenvolver estudos sobre Campina Grande, bem como, na condição de casa de memória, reunir documentos, livros e peças museológicas que remontem a História da cidade.

Sua sede deve servir à sociedade campinense interessada em desenvolver ou conhecer a História local.

No conceito de institutos históricos, o IHCG foi criado em 24 de janeiro de 1948, portanto está completado 72 anos neste mês e ano.

Os fundadores foram os historiadores Elpídio de Almeida, Epaminondas Câmara e Hostensio Ribeiro, que reuniram um grupo de intelectuais da época em torno desse projeto. Todos já são falecidos, com exceção de Leônia Leão, que hoje é nonagenária e, infelizmente, sofre do Mal de Alzheimer.

Desde sua fundação, a cada década o IHCG vem agregando ao seu quadro de sócios os militantes da geração em curso, e, ao longo destes mais de setenta anos, importantes historiadores, estudiosos e jornalistas de nossa cidade estiveram envolvidos com este projeto.

De todo modo, o IHCG só teve sede uma vez, em meados da década de 70, quando o prefeito Evaldo Cruz lhe cedeu o prédio onde hoje funciona o Museu Histórico da cidade.

A propósito, o museu foi criado e montado pelo IHCG e servia como museu e sede do Instituto, porém com a morte de João Tavares, que era o presidente e Dom Quixote da época, o IHCG entrou em inatividade, perdendo sua referência de sede, e só veio a ser reestruturado nominalmente entre 1997 e 2000, por iniciativa de Amaury Vasconcelos, e depois, a partir de 2012, a administradora Ida Steinmüller reavivou o projeto, que é este que existe até hoje.

Durante os últimos sete anos em que o IHCG vem reestruturado em sua quarta versão, andou desalojado, mas em luta constante para adquirir um edifício sede, porque uma casa de memória, o nome já está dizendo, “casa”, precisa de um teto para funcionar.

Entre inúmeros, ordinários e variados entraves, com a continuidade do trabalho abnegado e apaixonado de nossos dirigentes, em fins do ano passado (2019), finalmente conseguimos o comodato do terceiro andar do Edifício Vereador Anézio Leão, que estava sem utilização há anos e se enquadra nos parâmetros de importância do IHCG, em termos de localização, imponência e historicidade, pois havíamos recusado outras ofertas que diminuíam a relevância do projeto.

Desde então, de modo sistemático, estamos em processo de instalar o Instituto neste espaço.

Primeiro instalamos uma porta para segurança do andar, depois encomendamos o letreiro para identificar o Instituto no seu novo endereço e agora estamos determinando a setorização dos espaços e também iniciando o trabalho de higienização e encaixotamento do acervo para trazer e acomodar na sede.

Portanto, está em curso uma das maiores mudanças que o IHCG já experimentou ao longo de seus 72 anos.

Para fazer apenas um breviário do quanto ainda é necessário para que a sede possa funcionar nos padrões técnicos de Instituto Histórico; tem de se fazer a lavagem e dedetização do andar, o Corpo de Bombeiro e o CREA devem ser acionados para emitirem seus respectivos laudos, o processo de comodato tem de ser acompanhado até sua conclusão, o auditório precisa ser adaptado para as sessões e eventos, necessita-se contratar um contador para a realização da transferência de domicílio junto a Receita Federal, o acervo mobiliário e documental deve ainda ser transferido, alojado, tombado, e um catálogo do acervo ainda precisa ser elaborado para orientar visitantes e pesquisadores.

Todo esse trabalho não pode ser feito de qualquer modo, é preciso metodologia e um cronograma.

Aliás, mesmo antes de adquirirmos a sede já vínhamos metodicamente trabalhando com este objetivo.

Partindo do princípio de que era preciso primeiro sensibilizar a sociedade para com o projeto, intensificamos nossa participação nas redes sociais e eventos da cidade para a promoção do Instituto, sua importância e o caráter memorialista que o rege.

Com esse trabalho intenso, de transparência e demonstração de compromisso para com a memória da cidade, conseguimos a simpatia e reconhecimento de boa parcela da sociedade, que nos oferecem apoio e confiança, mas essa credibilidade é mais pela abnegação e dinâmica de nossas atividades do que propriamente pelo projeto IHCG.

Pois, a bem da verdade, poucos sabem essencialmente o que é e para quê serve um instituto histórico.

Culturalmente, Campina Grande é uma cidade pragmática que não se importa com sua memória, está sempre em frenético desenvolvimento sem tempo para olhar para trás ou se prender a conservadorismos, de modo que a proposta de nosso Instituto Histórico pareceu ser novidade dos tempos atuais, o que não é.

Os institutos Históricos são mais que centenários e estão presentes em quase todos os estados do Brasil.

O Instituto Histórico Brasileiro, por exemplo, foi criado em 1838, e ainda no período de Império foram criados o de Pernambuco, o de Alagoas e o do Ceará.

Ainda no século XIX foram criados o da Bahia, de São Paulo e de Santa Catarina.

O Instituto Histórico Paraibano, que funciona em João Pessoa, foi fundado em 1905 e funciona até hoje, bem como os inúmeros outros criados em tempos do século XX por todas as regiões do país.

A maioria deles desamparados pelos poderes públicos, a quem deveria caber o dever de preservar a história e a memória local.

Portanto, os institutos históricos não são modismos de momento, para que se possa ter uma ideia, o Instituto de Campina Grande foi o segundo instituto municipal criado no Brasil, só perdendo para o de Petrópolis, fundado dez anos antes, em 1938. Mas mesmo assim poucos campinenses tomaram ciência da existência e funcionamento do IHCG e, exatamente por conta dessa desinformação, o mesmo teve tanta dificuldade em se firmar na cidade.

Assim, não é exagero afirmar que essa nossa aquisição de sede para o IHCG é um marco histórico para a cidade, pois, apesar de septuagenário, somente agora o Instituto de Campina Grande poderá ter perpetuidade assegurada e funcionamento condigno.

Devo dizer, porém, que não é vexame desconhecer a função dos institutos históricos, pois a desinformação e desinteresse por esse tipo confraria é notória até entre as autoridades acadêmicas.

Em Campina Grande, o pragmatismo cultural impede à compreensão para com o idealismo, especialmente o idealismo rememorativo, que, insurreto, segue na contramão da tendência futurista, modernista e desenvolvimentista da cidade.

O que faz e para que serve um Instituto histórico? Essa é a questão que pretendemos elucidar aqui. Porém, devo salientar que é mais fácil dizer o que não faz e para quê não serve esse tipo de organização civil.

Pois, um Instituto Histórico é uma casa que tem livros, mas não é biblioteca; tem peças museológicas, mas não é museu; tem documentos, mas não é um arquivo, ao passo que é tudo isso simultaneamente. Para sintetizar, o Instituto Histórico de Campina Grande é um centro de estudos, memória e pesquisas sobre nossa municipalidade.

Um núcleo que deve reunir fontes para estudos históricos, geográficos, genealógicos, sociológicos, antropológicos, arqueológicos, urbanísticos, arquitetônicos, econômicos, cartográficos, tecnológicos, naturalistas, culturais e tudo de interesse para se conhecer os fundamentos, tendências e projeções de nosso município como um todo.

Diferentemente de uma biblioteca, que atende as necessidades de alunos dos ensinos fundamental, médio e concorrentes de exames de ENEM e concursos, o centro documental do IHCG deve atender ao pesquisador de terceiro grau, com biblioteca, hemeroteca e arquivo para promover o desenvolvimento e ampliação de estudos da história local através de novas monografias, teses e artigos científicos, bem como de estudiosos avulsos que venham desenvolver livros, matérias jornalísticas, crônicas, maquetes, ensaios, roteiros, apontamentos ou qualquer meio informativo para ampliar e instigar novos conhecimentos de interesse local.

Por exemplo, estudar as funções do Açude Velho em cada período do desenvolvimento da cidade ou as famílias que dominaram o cenário político ou econômico local em tempos distintos, ou seja, dissecar temas específicos ou gerais que venham desconstruir erros históricos, com novas teorias em fundamentos documentais ou trazer à tona novas perspectivas interpretativas para nossa história colonial, imperial e republicana.

Outras funções do IHCG são: recolher doações de documentos diversos da cidade, para guarda, zelo e disponibilização, e fomentar o interesse pela historicidade local, promovendo discussões mais profundas através de encontros, palestras, cursos, seminários, exposições, mesas redondas, comemorações cívicas, celebração de vultos e publicações sobre temas da cidade.

De um modo geral, o propósito do Instituto Histórico de Campina Grande é edificar a identidade histórica local, reunindo biblioteca e documentos para se pesquisar, escrever e propagar.

Como afirma Gustavo Sobral, não se faz história sem fontes bibliográficas e documentos, não se escreve história sem pesquisa e não se propaga o resultado de pesquisas sem publicações.

Enfim, o Instituto Histórico de Campina Grande é um grupo de minorias ativas, todos voluntários, consoantes no ideal de produzir matérias-primas duradouras para o desenvolvimento e manutenção da memória local, que, apolíticos e sem fins lucrativos, põem sua capacidade intelectual a serviço de uma causa coletiva.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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