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Vanderley de Brito: O incrível Balduíno Lélis

Vanderley de Brito. Publicado em 1 de setembro de 2020 às 9:49

Foto: acervo pessoal

No início do decênio de 1950, Balduíno Lélis, um jovem e perspicaz caixeiro viajante, de espírito inquieto, se inicia no fascinante universo do conhecimento científico. Movido por um halo de romantismo, se deixa encantar pela arqueologia e dá início a um dos momentos históricos mais dinâmicos da pesquisa do passado em território paraibano.

Era uma arqueologia incipiente, é certo, amadora, pueril, a base de improvisos, colhendo dados, ora precisos, ora falhos, sobre os mais diversos aspectos do passado pré-histórico da Paraíba, mas que atendia aos paradigmas do conhecimento da época e hoje são fontes ricas e importantes para o estudo de nossa arqueologia e paleontologia regional.

Ao lado de seu mestre, o emérito Leon Clerot, este jovem e indomável pesquisador investiu toda sua energia e capital na busca de um passado distante cujos testemunhos resplandeciam ignotos por onde quer que fossem, e, juntos, construíram a mais áurea época da arqueologia clássica paraibana.

Encerrado o apogeu do período que convencionamos chamar de “Era Clerot”, com a morte de seu patrono, o jovem Lélis permaneceu escovando fósseis e sondando vestígios dos homens pré-cabralinos, nunca abdicou ou rarefez o mister, e ainda hoje, apesar de já passar dos oitenta anos, é um exímio pesquisador e referência das mais nobres para todas as gerações emergentes de estudiosos da área.

Eu mesmo, periodicamente, visito em consulta este veterano arqueologista na cidade de Taperoá para (como ele mesmo diria) esmolar conhecimentos. É sempre aprazível ouvir seus sóbrios ensinamentos, proferidos de modo pausado, quase solene, com enigmáticas ressonâncias shakesperianas, sobre arqueologia e, sobretudo, acerca de fatos históricos dessa ciência no âmbito regional. Um perfeito orador, ora soberbo, ora fleumático, seus conhecimentos parecem infinitos e abrangem várias áreas do conhecimento simultaneamente – tão completo quanto possível. Criando panoramas virtuais e transpondo os limites cronológicos, Lélis, com dotes de hipnótico, parabolista e de gênio, mostra faces extraordinárias e imprevisíveis da arqueologia. Embora às vezes exagere na imaginação e é prudente ao ouvinte guardar as devidas ressalvas.

Seus conhecimentos extrapolam qualquer área científica, é exímio conhecedor de arqueologia, paleontologia, etnografia, museologia, arquitetura, tupinologia, cultura, cinema, artes e até língua portuguesa. Para aqueles intelectuais de seu grupo etário, ele é louco. Outros o consideram folclórico, alegórico e um perfeito animador de plateias. Também há aqueles que o acham um cínico e muitos o consideram fascinante. Contudo, em meio às críticas, num ponto seus algozes e admiradores são unânimes: Balduíno é extraordinariamente sábio.

Não há como desdenhar. Esse velho pesquisador paraibano, surreal por excelência, é de uma inteligência digna de admiração, pois, mesmo sem cursar qualquer academia formal é, indiscutivelmente, um dos maiores insignes do patrimônio intelectual de nosso Estado.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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