Vanderley de Brito: O Açude Verde

Vanderley de Brito. Publicado em 21 de julho de 2021 às 12:02

O Açude Velho é um dos principais monumentos históricos de nossa cidade, construído entre 1829 e 1830, veio no sentido de abastecer a então Vila Nova da Rainha com água para consumo humano e animal. Ao longo dos anos, com outras novas formas de abastecimento de água, como chafarizes e depois a água encanada, gradativamente, este açude público foi perdendo a utilidade á que se destinava primitivamente para se tornar um espelho d’água, área de lazer e cartão postal.

De todo modo, mesmo ressignificado, o Açude Velho nunca deixou de ser um símbolo emblemático de nossa cidade, e todos os campinenses, filhos da terra ou adotados, têm um verdadeiro bem querer por este manancial. Por isso, naturalmente, nos últimos meses, a cidade está inquieta em ver este patrimônio paisagístico (o velho Açude) com suas águas esverdeadas.

Foram tantos os reclames, que a Prefeitura de Campina Grande, na tentativa de sanar o inconveniente, mandou que se colocasse um caminhão de aterro fechando a bifurcação que desvia águas do antigo Riacho das Piabas para o Riacho Bacamarte, ali próximo à entrada da Rua Campos Sales, para que o Açude Velho recebesse mais fluxos pluviais e, consequentemente, renovasse suas águas. Mas, infelizmente, não houve chuvas suficientes no inverno deste ano para esta pretensa renovação e, com suas águas paradas, o problema do esverdeamento do manancial foi cada vez mais se agravando.

Andei vendo nos noticiários que a Prefeitura de Campina Grande, preocupada com o manancial, no último dia 30 de junho firmou uma parceria com a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) para a elaboração de um projeto de análise, revitalização e limpeza das águas do Açude Velho. A ideia me pareceu providente, mas ao longo das entrevistas da equipe técnica da UEPB, o que me deu a entender é que eles não têm a menor ideia de como resolver o problema. Segundo a professora do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade, que está à frente dos trabalhos, o problema do esverdeamento das águas é a carga de esgoto que o manancial recebe e a estiagem prolongada, que impede a renovação das águas.

Estes podem sim ser parte do problema, mas eu acho que esta equipe deveria ter pelo menos um historiador para demonstrar a equipe de Engenharia Sanitária e Ambiental que o Açude Velho recebe esgotos há décadas, tem passados por repetidas estiagens e nunca se registrou o esverdeamento de suas águas, portanto o problema não pode ser apenas este. Outra coisa, nas entrevistas, a equipe trata o Açude Velho como sendo uma lagoa de estabilização, com a função de reter sólidos da água para que seu sangradouro conduza águas sem sólidos para o curso adiante, mas o Açude Velho deságua para o Canal do Prado, que é também um captador de esgotos e, portanto, o curso do riacho continua recebendo outros sólidos e, em suma, o Açude Velho, definitivamente, não é uma lagoa de estabilização, é um lago urbano cujas únicas funções práticas são de espelho d’água e área de lazer e embelezamento.

Mas, voltando à problemática do esverdeamento das águas do Açude Velho: A equipe da UEPB fala em introduzir ali plantas ornamentais para manter a qualidade da água e em realizar tratamentos em pequenas áreas para ver como se comporta estas áreas para que se possa ir implementando as ações no lago todo, ou seja, não fazem a menor ideia do que vão fazer para minimizar os danosos efeitos que este manancial está sofrendo. Mas a ideia ficou bonita no pawerpoint e até já elaboraram um processo licitatório para adquirir os insumos necessários.

Eu não sou químico, mas sou historiador, e acho que o que faltou a esta equipe foi exatamente procurar a raiz (a historicidade) do problema. O Açude Velho já foi muito mais poluído do que é hoje, teve até fedentinas terríveis, mortes de peixes e ficou infestado de baronesas, mas nunca teve as águas verdes como agora. Este processo de esverdeamento das águas é inédito na história do Açude Velho, portanto, alguma coisa recente está acontecendo.

Vamos então a provável origem deste problema: Para quem não lembra, há poucos anos nós passamos por um colapso de água em todo o Compartimento da Borborema, quando o Açude de Boqueirão registrou uma marca histórica de apenas 2,9% da sua capacidade de armazenamento. A solução deste problema foi Transposição do São Francisco. Porém, como toda ação tem uma reação, em pouco tempo a água começou a chegar nas torneiras apresentando um cheiro e sabor insuportáveis, o diagnóstico foi que certas algas vindas do Rio São Francisco liberaram toxinas nas águas de Boqueirão, que, embora sem comprometimento à saúde pública, alteram as características de potabilidade do manancial. O problema só foi resolvido um ano depois, quando a equipe técnica da CAGEPA adicionou carvão ativado na rede de tratamento para neutralizar os efeitos das toxinas.

Pois bem, durante um ano, a toxina que chegou às nossas torneiras, chamada geosmina, consequentemente foi lançada nas redes de esgoto e chegou ao nosso Açude Velho, que, diferente do Rio São Francisco, é um manancial de água parada e poluída. Neste período de três anos em estagnação, em reação com os nutrientes, principalmente compostos advindos do despejo de efluentes domésticos, os microrganismos se proliferam contribuindo para a floração de cianobactérias, que é uma espécie de alga. Portanto, não é água do Açude Velho que está verde, é um tapete de alga que está revestindo a superfície do manancial, e só tende a aumentar.

Uma boa peneira para retirar as algas minimizaria o verde, já quanto a substância orgânica que está causando a proliferação das algas e, consequentemente, o esverdeamento do Açude Velho, pode ser consideravelmente minimizada com carvão ativado granular e outros produtos químicos, como o sulfato de alumínio, cloro e ácido fluossilícico. Mas é também fundamental que investimentos sejam feitos para a redução da carga poluidora de nosso histórico Açude Velho.

Como já disse, não sou químico. Mas acredito que este referencial histórico possa realmente estar associado ao esverdeamento das águas do Açude Velho, e vale a pena se realizar análises laboratoriais com esta perspectiva.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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