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Vanderley de Brito: Mecenas em Campina Grande

Vanderley de Brito. Publicado em 8 de junho de 2021 às 8:52

Tum, tum, tum. Sonoras e contínuas batidas me furtavam o pensamento e saí ao quintal para ver do que se tratava. Não parecia nada se batendo ao sabor do vento, era sistemático, como um código Morse. Depois de examinar atentamente, notei que se tratava de um bem-te-vi no telhado, que, com seu bico afiado, batia um grão duro sobre a telha de amianto, como uma bigorna, no intento de parti-lo. Que pássaro astuto! Pensei comigo. Estava eu tão absorto nesta cena que até me assustei quando soou a campainha. Passado o sobressalto, lembrei que devia ser Ida Steinmüller, que previamente me havia telefonado anunciando que passaria em minha casa.

Fui abrir o portão, e lá estava ela, com sua elegante feminilidade de ninfa e permanente inquietude no falar e nos gestos. Ela trazia uma tela, diversos pincéis e tintas, tudo novinho, recém comprado numa destas papelarias chiques. Não pedi nada disso, mas caí na besteira de dizer a ela que pintava quadros e agora ela tinha me intimado a pintar um quadro retratando a fundação de nossa urbe para decorar a futura sede do Instituto Histórico de Campina Grande.

Ela nem entrou, no portão mesmo foi me repassando o material, enquanto balbuciava confusamente algumas recomendações, seus olhos brilhavam como duas turmalinas azuis, mas foi instante fugaz, feito isso, ela entrou no carro e se foi.

Que responsabilidade! Pensei comigo. Havia mais de dez anos que eu não pintava uma tela e também sou pintor leigo. Como Giordano Bruno, que, sem nunca ter olhado por um telescópio descobriu que inúmeros planetas giravam em torno de seus sóis, eu também desenvolvi a pintura sem nunca cursar uma escola de arte. Espero ter mais sorte que ele, pois no ano da graça de 1600 o herético Bruno foi queimado vivo por isso. Coitado!

De todo modo, como fui incumbido de uma missão que não fere a santa fé, resolvi botar logo mãos à obra, mas primeiro tive de resgatar dos guardados a minha velha caixa de tintas, pois Ida não sabe comprar material de pintura, trouxe um monte de coisa cara, acrylic colors de madame, tão amadoramente sofisticados que eu não poderia efetuar quaisquer efeitos de essência pictórica em uma tela. Removi minha jurássica caixa de pintura do fundo de uma gaveta, que nunca mais eu tinha aberto, e logo senti aquele velho e simpático cheiro de terebintina, aroma de inefável prazer pra mim, cheiro de ateliê. Como era de se esperar, algumas tintas já estavam fossilizadas, outras, mesmo curtidas, ainda davam para aproveitar. Com uma tesoura tosquiei os pinceis trazidos por ela para lhes dar minhas condições de uso, e então chegou a hora de rascunhar a lápis na tela o momento a ser retratado, cuja base documental estava descrita numa carta oficial de 1699, mas para converter um texto em imagem eu precisaria também usar da imaginação, pois, com tantas lacunas, não é possível reconstituir o passado sem o auxílio da fantasia. Como já dizia o historiador alemão Theodor Mommsen: “a fantasia não é somente a mãe da poesia, mas, igualmente da historiografia”.

Fiquei contemplando a tela em branco, arquitetando a cena na mente, mas não saía um risco sequer, senti como se estivesse apagada a luz da alma. Corri pela casa um olhar ansiado, buscando algum objeto que pudesse me inspirar, mas o que me veio no pensamento foi a recordação de cena recente, a imagem daquela mulher de tempera fidalga me entregando aquele material de pintura, e só então me ocorreu que aquilo, de certo modo, foi uma cena de mecenato. Coisa tão rara hoje em dia. Daí meu pensamento divagou por esta temática.

O termo “mecenas” se aplica a pessoa que dá proteção e apoio financeiro aos artistas, literatos, cientistas e filantrópicos. O termo alude o político romano Caio Mecenas, que foi conselheiro do Imperador Otávio Augusto e tinha o hábito de patrocinar trabalhos de poetas romanos. De todo modo, o mecenato teve maior destaque no período renascentista, quando vários artistas, como Leonardo da Vinci, Rafael, Michelangelo, Montaigne e outros, foram apadrinhados por membros da burguesia. Os mecenas mais destacados deste período foram as famílias Sforza, Médicis e os papas Júlio II e Leão X, que contribuíram para a realização de grandes obras artísticas.

O mecenas é movido por uma ebulição do espírito que visa tão somente impulsionar a arte, está ligado a um momento de efervescência cultural e os mecenas são, geralmente, pessoas de posses que decidem patrocinar o trabalho de artistas e escritores sem a intenção de obter retorno. Em Campina Grande, talvez o primeiro mecenas que se registra na história foi Ernani Lauritzen, filho de Christiano Lauritzen, o dinamarquês que trouxe os carris da via férrea para nossa cidade. Neto do Coronel Alexandrino Cavalcanti de Albuquerque, Ernani nasceu em berço de ouro e foi o maior incentivador das artes em nossa cidade, dando apoio a poetas, teatrólogos e carnavalescos, abria espaços no jornal de sua família para os cronistas e poetas, patrocinou revistas, investiu dinheiro em movimentos culturais, como cavalhadas, topas de boi, cantorias, retretas, carnavais de rua, e fundou inúmeros clubes literários, dentre os quais o Grêmio Renascença 31, para o qual construiu o prédio do Pavilhão Epitácio para sediar o Grêmio.

Outros mecenas ricos e importantes para as artes de nossa cidade foram Newton Rique, Assis Chateaubriand e Edvaldo de Souza do Ó, com especial destaque para este último.

No período da industrialização da cidade, alguns industriais como Humberto de Almeida, da empresa CANDE, e José Carlos da Silva Júnior do Grupo São Braz foram grandes contribuintes de artistas, iniciativas culturais e esportivas, e no campo do mecenato de solidariedade destacamos o casal Aída e Noujaim Habib, Glória Cunha Lima e Carolina Zilli.

Na atualidade, além de Ida Steinmüller, que ajuda artistas e muito vem contribuindo para iniciativas culturais, como o Memorial Severino Cabral, a Casa Paisá, Projeto Tamanquinho das Artes e, sobretudo, ao Instituto Histórico, ainda temos muitos mecenas ativos em Campina Grande, como Fábio Piquet da Cruz, Sarah e Hamilton Fechine, Laudicéia Lima Aguiar, o casal Rilávia Cardoso e Ajalmar Maia, Verônica Duarte Castro, Albanita Guerra, Yara Lyra, Cléa Cordeiro e outros que nos escapam porque o mecenato tende a ser uma nobre atividade anônima.

A minha memória se esforçava para listar mecenas locais quando novamente os breves intervalos de ruído, semelhante ao trote dum cavalo, cortou-me os pensamentos.

No telhado, aquela ave de canto trissilábico continuava a quebrar grãos lenta e metodicamente. Me impacientei, montei a escada e fui ver mais de perto em que o bem-te-vi se ocupava e, para minha surpresa, ele quebrava ração de animais domésticos, que, decerto, alguém deixou nalguma calçada para alimentar gatos ou cachorros de rua.

Radiante, o astuto pássaro divertia-se quebrando aquela iguaria antropizada que algum mecenas lhe deixara, o telhado estava juncado de ração e, como uma artesã, a ave rodopiava ao redor do grão em quebra, como se estivesse ao som duma valsa de Strauss.

 

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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