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Vanderley de Brito: Habemus sedes!

Vanderley de Brito. Publicado em 1 de junho de 2020 às 8:11

Muita gente não compreende a importância da História. Já cansei de ser questionado a respeito: “pra quê eu quero saber das histórias de gente morta?” ou “Eu vou ganhar o quê com isso?”. Sinceramente, a ignorância não me incomoda, mas sinto pena dessa gente cuja vida se limita a “panem et circenses”. Salvo poucas exceções, essa é a mentalidade predominante em nossa cidade.

Do mesmo modo, a função dos historiadores também é ignorada, como se fosse uma coisa nova. Mas não é. Hoje grande parte de nossa cultura se deve a historiadores, por exemplo, a sobrinha de Heródes, aquela que pediu a cabeça de João Batista, qualquer um que conhece as histórias da Bíblia sabe responder que ela se chamava Salomé, nome que até ficou proverbial. Mas, o fato é que nos originais do Novo Testamento não há o nome de Salomé. Os evangelhos a tratam apenas como “filha de Herodíade”, pois o nome da “filha de Herodíade” foi-nos transmitido por Flávio Josefo, um historiador que viveu naqueles tempos. Ou seja, se não fosse o registro de um historiador este nome estaria perdido para a História.

Bom, mas voltando ao assunto, me preocupa o desinteresse e a falta de zelo em nossa cidade pelos documentos históricos. É lamentável o descaso dado à escultura em bronze da cabeça do tribuno Raymundo Asfora, afixada em monumento no contorno da Av. Brasília. Ela foi tirada para reparos e até hoje não foi restaurada nem tampouco devolvida ao seu lugar, está jogada num depósito há anos.

Campina é assim, sempre desleixada com sua memória e patrimônio. Os danos aos bens históricos de nossa cidade acontecem repetidamente, como um refrão. Basta lembrar a Samaritana, escultura do artista Abelardo da Hora que embelezava a Praça da Bandeira, obra que custou caro aos cofres municipais e desapareceu depois de uma reforma na Praça. Destinos também insuspeitados tiveram os bustos de Félix Araújo e de José Américo, que estavam expostos nas praças erguidas para homenageá-los. Nossa cidade é um verdadeiro museu de objetos desaparecidos.

Os roubos também são constantes, principalmente quando se trata de peças de bronze. Roubaram a cruz de malta que havia no monumento a Theodósio de Oliveira Ledo, da Praça Clementino Procópio, e destino semelhante teve a placa de inauguração desta praça, bem como a do Parque do Povo. O que passa na cabeça de quem remove uma placa inaugural para vender o bronze? Duvido que se consiga mais do que oito reais num quilo deste metal, não compensa nem o risco. Pior, não lembro ter havida diligência policial para tentar solucionar o paradeiro destas peças.

Cada placa dessas tem uma história a contar, seus textos são fontes históricas, são guia, fio de Ariadne, para rememorarmos o passado ou dissipar dúvidas. Mas para a ignorância de quem as rouba, são como inscrições cuneiformes. Incompreensíveis.

Porém, nem tudo é fruto de ignorância, pois não são apenas os desinformados que furtam memórias, tem gente esclarecida, até com formação acadêmica, que pousa de memorialista, mas, na verdade, são acumuladores de relíquias históricas, que afanam, compram ou se apossam de objetos e documentos apenas para cultuar ou gabarem-se de possuírem isso ou aquilo. Pra mim isso não é memorialismo, é uma infusão de vaidade, egoísmo e hipocrisia. Sinceramente, sou mais tolerante aos furtos movidos pela ignorância do que os resultantes desta peçonha.

Com essas perdas, a presença de Alzheimer está cada vez mais se consolidando na cidade. Mas não adianta ficar chorando o leite derramado, é preciso cuidar do que ainda resta do passado e dos bens que se produzem continuamente no presente. E só existe uma forma de se fazer isso: reunir tudo numa casa voltada para a guarda e zelo. Não estamos falando de nada novo, a Basílica de São Pedro, por exemplo, conservou em guarda a essência da tradição ocidental, que sobreviveu até a queda do poderoso “Imperium Romanum”. Debaixo do altar-mor da Basílica estão guardados os restos mortais do apóstolo Pedro e até hoje existe um alto e esguio obelisco na Praça de São Pedro que o imperador Calígula mandou vir do Egito de navio. Em cadeia viva de geração em geração, a Basílica vem reunindo documentação ininterruptamente por mais de dois mil anos e até os dias atuais, registros milenares extraordinariamente elucidativos, que até hoje podem ser consultados.

Seguindo esta mesma linha de raciocínio, o lugar mais seguro e adequado para se guardar os registros históricos de nossa cidade é, sem dúvidas, o Instituto Histórico de Campina Grande, uma casa de memória sem vínculos políticos, criada em 1948 e mantida por gerações de idealistas.

Infelizmente, por muitos anos nosso Instituto sobreviveu sem uma sede própria, pois o descaso com a memória em nossa cidade vem de longe, e a primeira sede que possuiu foi devido à visão intelectualizada do Prefeito Evaldo Cruz, que em 1977 deu o antigo prédio onde funcionou o Telégrafo Nacional, para sediar o Instituto. A permanência do Instituto ali resultou na criação do Museu Histórico de Campina Grande, que ainda hoje funciona no prédio.

Em 1983, o Instituto foi desalojado do prédio e o Museu se passou à municipalidade. De modo que, só muito recentemente o Instituto pôde vislumbrar a fumaça branca da memorialidade e dizer: “Habemus sedes!”. Desde então, estamos trabalhando diuturnamente para estabelecer a casa da memória de Campina Grande, a fim de perpetuar a atmosfera essencialmente histórica do município, preservada e disponível para os estudos e rememorações da contemporaneidade, mas, sobretudo, das gerações vindouras, que talvez possam compreender melhor a importância da História.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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