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Vanderley de Brito: Entre Foucault, Certeau e Chatô

Vanderley de Brito. Publicado em 12 de abril de 2020 às 7:29

Caraca! Esse confinamento por causa dessa bixiga do coronavírus é um saco. No começo ainda dava pra aguentar, mas já faz um bocado de dias, ate perdi a noção de tempo. Às vezes fico andando de um lado para o outro dentro de casa, me sinto como um animal enjaulado.

Acho que vou escrever um artigo pra passar tempo, um artigo cabeça, que tal? Talvez uma reflexão sobre as práticas ordinárias ou algo que envolva a relação entre poder e conhecimento, sei lá, um artigo que cite pensadores franceses, algum desses Micheis do universo teórico, como Foucault ou Certeau. Pensando bem, pra quê escrever sobre esses caras chatos? Esse tipo de artigo só serve de munição demagógica pra alimentar a retórica de universitários boçais. Acho vou escrever sobre Chatô, meu conterrâneo, esse sim era um cara legal.

Assis Chateaubriand, de francês só tinha o nome, era paraíba da gema, nascido em fins do século XIX lá nos confins dos agrestes e saiu daqueles ermos para se tornar um dos homens públicos mais influentes do Brasil, magnata das comunicações, dono do maior conglomerado de mídia da América Latina e chegou até ser membro da Academia Brasileira de Letras. O cara foi longe.

Vocês sabiam que foi Chatô o responsável pela chegada da televisão ao Brasil? Pois foi, ele inaugurou em 1950 a TV Tupi, a primeira emissora de TV do país. Foi ele também que fundou a primeira emissora de TV do Norte/Nordeste do Brasil. Adivinha aonde! Em Campina Grande. Estou falando da TV Borborema.

O cara era uma figura. Mandava e desmandava a seu bel-prazer, foi Senador da República, embaixador do Brasil na Inglaterra e foi ele quem criou o Museu de Arte de São Paulo, isso mesmo, o MASP. Era um bola cheia, amigo pessoal de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Mário de Andrade, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Cândido Portinari, Villa Lobos, e os inimigos dele eram do naipe do industrial Francisco Matarazzo. Mas, apesar de poderoso e rico, Chatô nunca negou suas origens. Quando foi embaixador em Londres só ia para os eventos de chapéu-de-couro, que nem Daniel Duarte!

Pra vocês terem uma ideia, Chatô escreveu e publicou mais de onze mil artigos, e não escrevia nada parecido com esse besteirol teórico dos Micheis. Escrevia coisas sólidas, praticáveis, tangíveis, porque ele era um cara que, como ninguém, sabia fazer acontecer.

O “cabeça de paraíba” falava inglês, francês, alemão, viajou o mundo, pegou as mulheres mais desejadas do país, foi piloto de avião, inclusive foi o segundo piloto de avião do Brasil, só perdia para Santos Dumont (a propósito, os dois não se bicavam) e foi ainda mecenas das artes, colecionador de obras artísticas, promoveu a Semana de Arte Moderna de 1922. Não é brincadeira não, o cara tem hoje uma cidade com o seu nome e foi até enredo de escola de samba.

Pois é, Chatô não era nada entediante. Cheio de arbítrios e caprichos, com certeza, se estivesse vivo hoje em meio a essa pandemia já teria quebrado a quarentena, se saindo com sua célebre frase: “Se a lei é contra mim, vamos ter que mudar a lei”.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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