Vanderley de Brito: Entre as ruínas da antiga povoação de Pedro Velho

Vanderley de Brito. Publicado em 2 de abril de 2020 às 9:25

Escorado num pilar erguido entre os escombros do que outrora fora a antiga povoação do Pedro Velho, contemplei a desolada vista que se descortinava à minha frente. O vale estendia sua solidão, tudo por ali estava calmo, não havia movimento algum e não se via vivalma em meio aqueles entulhos do passado, somente alguns mugidos vinham de algum lugar impreciso daqueles horizontes errantes. 

  O sol estava quente e com o lenço enxuguei o suor da testa e do pescoço. Uma serra adiante, no formato da curva de um seio na penumbra, apresentava uma linha longitudinal na meia-encosta que dividia a vegetação em cores e viços, denunciando a altura que alcançava o Açude de Acauã quando cheio. Mas uma estiagem longa vinha assolando a Paraíba nos últimos anos e foi com a baixa das águas que a povoação em escombros voltou à tona, ruínas que estavam imersas a uns oito metros de profundidade desde quando foi inundada, no rigoroso inverno de 2004, devido a barragem erguida ali nas ombreiras da serra de Acauã para obstaculizar o curso do Rio Paraíba e formar o açude. 

Pedro Velho era uma das mais antigas povoações da Paraíba, o mais remoto registro que encontrei de sua existência é de 1756, mas por certo é mais antiga, talvez até mais do que a povoação de Boqueirão, pois está inserida na Data de Terras de André Vidal de Negreiros, a primeira concedida no interior paraibano.

A pequena comunidade, com suas edificações (residências, mercado público, matadouro, grupo escolar, igreja e praças) e rodeada de alguns tratos de terra que bastavam para suprir as necessidades da vida cotidiana, esteve submersa por anos, como a lendária Atlântida, mas agora, emersa das águas, eu caminhava como um sobrevivente de guerra por entre escombros e veredas poeirentas.

Sussurrando dúvidas e sentindo o aroma herbáceo da melosa, que impregnava aquele ambiente ribeiro, à medida que eu andava pelas antigas ruelas, por vezes as cenas do dia-a-dia monótono da antiga comunidade eram revividas com nitidez absoluta na minha mente, e outras vezes, nas veredas do lugarejo histórico, eu me sentia como um viajante entre os frontões do Partenon de Atenas. 

Depois de caminhar bastante cheguei ao pátio disforme onde estava o cemitério da povoação e ali, entre os túmulos espantosamente rígidos, embora bem gastos pelos anos, senti como se estivesse caminhando no submundo de Hades. Era o local que eu pretendia encontrar, minha estada ali fazia parte de um projeto genealógico, pois queria encontrar o túmulo de meu bisavô, Francisco Cosme de Brito, que ali foi sepulto. 

Prematuramente, meu bisavô morreu aos 59 anos de tuberculose, em 1918, deixando nove filhos, entre os quais meu avô paterno e meu avô materno, que eram irmãos. Quando meu bisavô ainda estava doente, seu irmão mais velho, Manoel Cosme de Brito, que morava no Pedro Velho, veio lhe visitar no Sítio Ramada, de Boqueirão, e percebendo a gravidade de sua doença decidiu levá-lo para que pudesse se tratar, já que tinha um médico amigo seu em Natuba, mas nesses tempos essa doença era incurável e meu bisavô faleceu no Pedro Velho, longe de sua esposa e filhos, e agora seus restos mortais estavam ali, em alguma tumba daquele antigo cemitério emerso. 

Depois de vaguear por entre os túmulos em formas de caieira, modelo arquitetônico-tumular típico do século XIX, constatei que nenhum dos jazigos tinha indicativo de seus mortos, sentei desapontado sobre o frontispício de um mausoléu ostentoso, o maior daquele relicário de mortos. 

O vento entoava breves melodias ondulantes, como que vociferando o silêncio dos invisíveis, e na reverberação acima da terra ressequida de vez em quando pude ver um lampejo de aparição que, como uma miragem, desvanecia. Com um leve sorriso afaguei a alvenaria do mausoléu em busca de alguma resposta, pois como ensina Tomaz de Aquino, nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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