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Vanderley de Brito: Campina Grande na Idade do Ferro

Vanderley de Brito. Publicado em 16 de maio de 2020 às 7:38

Todo mundo tem suas esquisitices, e eu, particularmente, tenho o estranho hábito de ficar conjecturando mentalmente o passado, basta eu estar sozinho diante de uma paisagem. É um costume reflexivo que adquiri desde os tempos de garoto, quando comecei a me interessar obsessivamente pela história da humanidade, da terra e assuntos que a maioria das pessoas não se interessa. Até meus 15 anos, eu me encaixava perfeitamente no conceito de nerd, pois até minhas habilidades sociais eram bem limitadas. Com o tempo me tornei mais sociável, mas até hoje sou vassalo do hábito de me perder absorto em imaginação.

É um tanto excêntrico, eu sei, mas não é uma coisa programada. Basta uma situação propícia para a distração e pimba! Quase maquinalmente aciona-se um dispositivo mental e lá estou eu viajando na curvatura do tempo. Também não me compete escolher o período temporal, é aleatório. Posso ir para o pré-cambriano, carbonífero, cretáceo, jurássico, quaternário ou períodos históricos. Mas a regra é sempre o passado, não faço divagações futuristas como São João Evangelista, Nostradamus ou Zé Ramalho. Ainda bem.

Muitas vezes, até conversando com alguém me desligo do ambiente presente, basta uma palavra chave ou o desinteresse pelo assunto que a pessoa fica falando em vão e eu bem distante, divagando no escuro do fundo da mente. Adquiri até a fama de esquecido, porque depois, quando reencontro a pessoa e ela toca nos assuntos anteriores eu estou alheio. Mas é claro, eu nem estava lá! Aí vêm as críticas, a pessoa começa a remoer que eu sou muito esquecido, que já me disse isso pelo menos umas três vezes, me alerta para o Alzheimer…. isso vai me entediando, vou desviando a atenção e volto às minhas introspecções mentais (rssrs).

O excesso de imaginação e o acúmulo de conhecimentos são talvez os responsáveis por isso, pois vejo as coisas por diferentes perspectivas. Quando olho um vidro de janela, por exemplo, já imagino a areia se fundindo num forno a 1.500 graus centígrados para formá-lo. Daí, concebo os funcionários da fábrica de vidros suando em bica naquele ambiente infernal, que já me remete ao inferno de Dante, que por sua vez traz à luz o Renascimento e por aí vai…

À medida que a noção de que eu estava vindo à janela para tomar uma fresca e fumar um cigarro, a premência do tempo me obriga interromper meus pensamentos. Abro a janela, me debruço e sinto a brisa urbana de Campina Grande, minha cidade, erguida em tão vasta planície, de contornos suaves, tendo em redor o azul pálido das escarpas montanhosas de Bodopitá. Dou um profundo e prazeroso trago no cigarro e em sua brasa lembro a fundição do ferro, e quando volto meu olhar para a paisagem a imaginação já me proporciona uma nova variação cenográfica.

Despida de edificações, vejo Campina Grande na Idade do Ferro, uma paisagem primitiva, que remete o lugar para o ano de 1200 a. C., tempo em que, no outro lado do Atlântico, os hititas eram os únicos a fundir este metal que deu nome à idade, e os fenícios os primeiros a comercializá-lo. Naqueles tempos, o povo de Israel entrava na terra prometida e, no Mediterrâneo, preparava-se o destino de Tróia. As fortalezas do rei Príamo estavam com os dias contados…

Nos tempos da Idade do Ferro, a extensa planície que hoje tem a alcunha de Rainha da Borborema era uma savana cheia de maracajás, raposas, tamanduás dos grandes, emas, tatus, cobras e pássaros em quantidade. Pátria ou itinerário de numerosas levas nômades desde tempos remotos, seu solo escuro argiloso guarda formidáveis documentos.

É inimaginável quantos vestígios paleoíndios jazem nestes subsolos sob as camadas da Idade do Ferro e quantos achados sensacionais e descobertas inauditas foram ignorados ao longo da edificação desta cidade. Tijolos enegrecidos, madeiras carbonizadas, cinzas, projéteis de sílex, fragmentos de cerâmica, trançados de palha, adornos… Há registro de que em 1888, ano de grande seca, a Câmara Municipal de Campina Grande mandou cavar cacimbas no entorno da cidade, e ao escavarem um olho d’água no sítio Louzeiro, na profundidade de quarenta palmos, encontraram “coisas desde séculos ali soterradas”, como um pedaço de gamela de cumaru de mais de palmo de grossura e seis tijolos muito grandes. Mas, para a infelicidade dos arqueólogos, pesquisadores e historiadores, estes achados perderam-se para a posteridade.

O sol muda as cores e a gradação das sombras, aqui e ali, vão me revelando fatos e cenários em repouso por milhares de anos, até que, de sobressalto, meu imaginário é rompido por uma locução: “Pamonha, pamonha, pamonha! O puuuro creme do milho…”.

Puta que pariu! Isso não é de lascar?! As edificações vão retomando seus espaços, o prédio da FIEP, a Catedral, o viaduto e, como mágica, inúmeros edifícios recompõem o cenário urbano. Perdeu a graça. É no silêncio que as grandes verdades são reveladas.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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