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Vanderley de Brito: Avenida Theodósio de Oliveira Ledo

Vanderley de Brito. Publicado em 14 de julho de 2020 às 10:58

Muitas vezes me pergunto qual a razão da principal artéria de nossa cidade ser denominada de Av. Floriano Peixoto. Ele foi o segundo presidente da República do Brasil, lá dos tempos da República da Espada, um militar, carioca, que consolidou a República recém-instalada, mas que nunca esteve em Campina Grande e nem executou qualquer obra ou ação administrativa que viesse beneficiar nossa cidade. Sinceramente, até hoje estou sem saber por que, ou porque dessa escolha.

Sem lógica aparente, me ocorreu que seu nome foi dado à avenida apenas pelo fato dele ter sido Presidente da República, mas é contestável a legitimidade dessa sucessão, pois a Constituição da época já versava em seu artigo 42 que novas eleições deveriam ocorrer quando o presidente renunciasse antes de dois anos de mandato, que foi o que aconteceu na época, Floriano era vice do Marechal Deodoro e assumiu o cargo depois da precoce renúncia do presidente em exercício. 

Não é uma questão de exorcizar, ou dizer que Floriano Peixoto não é digno de ser homenageado, ele teve lá suas virtudes, tanto que a atual cidade de Florianópolis, capital de Santa Catarina, recebeu esta denominação em homenagem a Floriano Peixoto. O que quero dizer é que, por não ter nenhuma representatividade em nosso âmbito local, o seu nome caberia sim em alguma rua, mas não precisamente naquela que é a espinha dorsal da cidade. Esta avenida em pauta merecia levar o nome de um personagem heráldico de nossa História local, preferencialmente o Capitão-mor Theodósio de Oliveira Ledo, que foi o fundador de Campina Grande e cujo nome tem uma identidade e força sonora que remete às raízes de nossa historicidade, do ecúmeno ao município.

É fato que este sertanista já tem um nome de rua na cidade, mas, convenhamos, é uma ruazinha acanhada e curva de 150 metros de extensão. Na verdade, é mais uma alameda que liga a Av. Getúlio Vargas à Rua Félix Araújo, e vice versa, do que propriamente uma rua. É de se convir que essa ruela, perdida nos labirintos das antigas Boninas, em nada se equipara ou faz justiça à importância deste personagem para a nossa História. 

Pode até parecer picuinha. Mas temos ponderáveis argumentos em favor de substituir respectivamente os nomes destas ruas, dando o nome de avenida principal da cidade ao seu fundador e o da ruela das Boninas ao Marechal que nada representa efetivamente à nossa História. É uma questão de justiça à memória local, de separar o joio do trigo, os canônicos dos apócrifos. Já dizia Tolstoi: “Se queres ser universal, cante sua aldeia”. 

Vivemos numa cidade amnésica. Nomes de vultos identidários de nossa História e historiografia, como Paulo Soares de Araújo, Francisco Camilo. Christiano Lauritzen, João Lourenço Porto, Juvino de Souza do Ó, Lino Fernandes, Demóstenes Babosa, João Rique Ferreira, Epaminondas Câmara, Hortensio Ribeiro, Bezerra de Carvalho, Dulce Barbosa, José Lopes de Andrade, Edvaldo do Ó, José Elias Borges, e muitos outros, pouco são rememorados. Quando muito, recebem uma homenagem tacanha que pouco favorece à semantização memorialística.  

Esse é um assunto que devia ser levado em pauta na nossa Câmara dos Vereadores. Minha argumentação à mudança do nome da Av. Floriano Peixoto não está somente atrelada ao nome sugerido ser o do fundador de Campina Grande, fato que por si só já seria mais do que suficiente.  A atual Av. Floriano Peixoto também está ligada histórico e genealogicamente a este personagem. Seu leito inicial foi o primeiro logradouro da aldeia de Campina Grande. No século XVII, foi erguido ali um cruzeiro sobre base de cantaria por um frei franciscano trazido à aldeia pelo Capitão-mor Theodósio de Oliveira Ledo para elevar a aldeia à categoria de Missão. Depois, quando se deu a elevação à categoria de Freguesia, o lugar virou largo da Igreja Matriz, quando nossa catedral era apenas uma ermida. No século XVIII, elevada à categoria de Vila, sob a administração política de Paulo Soares de Araújo, um trineto de Theodósio, foi erguido ali o pelourinho, depois vieram os primeiros edifícios públicos preenchendo o largo… a cadeia, o Paço Municipal, as moradias dos mais ilustres, e o largo ganhou a categoria de rua, Rua do Progresso. Na década de 40 do século XX, o prefeito Vergniaud Wanderley, que era descendente direto de Theodósio, foi quem ousou e abriu a avenida e, já no finalzinho do vigésimo século, o prefeito Félix Araújo Filho, também descendente direto de Theodósio, se encarregou de estender à Avenida até a Alça Sudoeste, abrindo o caminho para o Sertão, como que refazendo o caminho de seu ancestral, que veio do Sertão para fundar nossa cidade. 

Como um carma genealógico, Theodósio de Oliveira Ledo faz parte do passado e do presente desta via, que, na contramão da História e do bom senso, hoje se chama de Av. Floriano Peixoto.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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