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Vanderley de Brito: A última sacerdotisa das artes clássicas

Vanderley de Brito. Publicado em 22 de setembro de 2020 às 9:26

Hoje, é o aniversário de Elizabeth Marinheiro. Betinha, para os mais íntimos. Quantos anos? Não importa, ela é atemporal. Como uma sacerdotisa consagrada ao culto da bela e boa arte, em 1970 Betinha criou em Campina Grande a Fundação Artístico-Cultural Manoel Bandeira, FACMA, uma epopeia cultural que encantou o mundo com seus sete grupos artísticos de corais falados, teatro, conjuntos instrumentais, balés e corais de canto. Um magno projeto que até hoje ressoa na memória dos que saborearam tais emoções.

A FACMA foi um dos mais ousados movimentos culturais já implantados em nossa cidade. Gerações de artistas floresceram dali e grandes nomes da política e da cultura nacional reverenciaram este magnífico spectacle.

Além de idealizadora e benemérita, Betinha foi a primeira presidente da Fundação, que à época tinha por sede uma dependência da Escola Normal. E sua gestão foi, sem dúvidas, a mais efervescente. A FACMA viajou pelo nordeste e sudeste do país e se enveredou no além-mar para fascinar a Europa. Para os jovens que arregimentou ao projeto, foi mestra, mãe e, sobretudo, pai. É uma mulher disciplinadora e muito rígida, quando necessário. Entretanto, democrática, logo assim que terminou seu mandato a frente desta casa sementeira de arte e cultura, passou o bastão para uma nova equipe eleita. De todo modo, se manteve atenta e informada, como uma boa mãe que vigia seus rebentos, e agindo indelicada e energicamente quando percebia qualquer sinal de que a FACMA se desvirtuava de sua erudita liturgia para atender aos apetites de massa. Indispôs-se com muita gente pela causa.

Escritora e crítica literária, há anos eu já acompanhava as letras de Elizabeth Marinheiro por suas “Tessituras”, no extinto Jornal da Paraíba, mas só vim a ser-lhe apresentado no ano passado. Confesso que sua fama era assustadora, diziam-na briguenta, mal-humorada, esnobe e neurótica. Uma bruxa. Arquétipo que, na minha cabeça, muito imaginativa, eu a concebia como a encarnação da Maga Patalógica. Mas o conjunto de sua obra me atraia, eu precisava conhecê-la, mesmo que fosse para ser enxovalhado.

Fui-lhe apresentado por Ida Steinmuller. Entretanto, em poucos segundos a imagem dantesca se dissipou, pois vi uma mulher culta, de suprema elegância, que imediatamente se passou na minha mente de Maga Patalógica à Sophia Loren. Embora bem menos austera do que antes, seu rosto reflete autoridade e um peculiaríssimo autodomínio que inspira respeito e admiração. Foi empatia à primeira vista, tanto de minha parte quanto da dela. Conversamos muito, rimos, fumamos como duas caiporas e dividimos a inquietude do limite imposto pelo prazo normal de uma vida humana. Parecia que nos conhecíamos há décadas.

Para se compreender uma pessoa é preciso se identificar com ela, e foi isso o que aconteceu. Somos idealistas, ela uma ativista cultural e eu um memorialista, que lutamos com todas as nossas forças e ímpeto pelo que acreditamos. Não tentamos angariar simpatias, nem tampouco bajular ninguém para obter vantagens. Somos honestos em nossas convicções e, a de se convir, isso incomoda muita gente.

Hoje, 22 de setembro, quero parabenizar madame Betinha. Não apenas pela data comemorativa de seu nascimento, mas também pela proeza e ousadia de, por cima de tudo e de todos, criar e fazer duradoura em nossa cidade uma entidade cultural de concepção clássica como a FACMA. Uma utopia que se fez verbo.

De todos os pejorativos que ouvi sobre ela, um deles lhe faz justiça: Betinha é briguenta, mas, como já dizia o rosacruz Nicolas Flamel: “altos voos são reservados às águias, não às aves domésticas”.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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